Mulher e democracia | Por Emiliano José

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Houve um tempo, e não muito distante, que os marxistas não gostavam de falar de feminismo. E ainda há os que não gostam de falar disso. Dessas coisas de gênero, de singularidade da mulher, nada disso. A teoria da luta de classes resolvia tudo. Mesmo mulheres famosas, de variada origem teórica, no século XX, chegaram a contrariar qualquer perspectiva que quisesse colocar a mulher numa posição específica, que a tornasse parte da luta para afirmar direitos sonegados.

Lembro-me de fotos do movimento operário europeu, ou mesmo brasileiro, no início do século XX, aquelas multidões de trabalhadores, e era aquele exército de chapéus masculinos. As mulheres, por mais que participassem, de variadas maneiras, eram condenadas à invisibilidade. O machismo é, assim, um fenômeno antigo, e não se trata apenas de uma posição da direita. É bom lembrar isso nas proximidades do Dia Internacional da Mulher.

Uma mulher extraordinária como Hannah Arendt, uma das maiores pensadoras do século XX, questionava “a validade de um movimento isolado de mulheres, da mesma forma como duvidava da sabedoria política de um movimento só de jovens”, como anota Celso Lafer. Rosa Luxemburgo nunca se aproximou de uma idéia que a vinculasse a qualquer espécie de movimento feminista. Não se pode dizer, portanto, que apenas as defensoras da teoria da luta de classes se opunham à articulação específica das mulheres. Hannah Arendt não se perfila como marxista.

Estou entre aqueles que consideram que a luta das mulheres guardam singularidades inegáveis, e que o movimento feminista deve e tem que se afirmar. No Brasil, como se sabe, a mulher demorou muito para poder chegar à Universidade – isso só foi possível no século XIX, e muito restritamente – e tardou ainda mais para que tivesse a possibilidade de votar, o que ocorreu apenas ali pelos anos 30 do século passado.

Qualquer verificação estatística dos dias atuais, colocará a mulher em situação de inferioridade. Maior número de desempregadas, os piores empregos, salários inferiores aos dos homens mesmo ocupando cargos iguais, vítimas de violências cotidianas de múltipla natureza, das mais visíveis às tidas como invisíveis.

Esses dias fui surpreendido com relatos impressionantes sobre a violência contra mulheres no município de Entre Rios. Como os homens matam, torturam, perseguem mulheres naquele município. E como as mulheres se sentem intimidadas, com justa razão porque nem sempre as providências são rápidas e porque os homens detêm uma parcela de poder muito acentuada.

O caso chegou ao secretário de Segurança do Estado, que recebeu o Conselho da Mulher do município com muita atenção e creio que com isso os agressores se sentirão menos à vontade. E certamente diante de tais denúncias, o delegado de polícia, o Ministério Público e o Judiciário tomarão providências. E creio isso deveria ocorrer em todo o Estado.

Se olharmos o parlamento brasileiro, a presença feminina é muito pequena, a indicar também o quanto o machismo impera em nosso País. A cidadania é sonegada à mulher secularmente. E são as lutas das mulheres, embora não apenas delas, que as tornam reconhecidas como portadoras de direitos. São elas que conquistam sua cidadania, e o fazem não apartadas da luta mais geral pela democracia.

Ter candidatas mulheres hoje é muito importante. Ver mulheres postulando a presidência da República é um grande passo. Quando ouço ou leio pessoas afirmando que a ministra Dilma Rousseff é autoritária penso no quanto o preconceito é arraigado ainda entre nós. Basta à mulher se afirmar, mostrar capacidade de comando para que receba toda carga de discriminação que ainda impera em nossa sociedade.Uma sociedade será tão mais livre, tão mais próxima da civilização quanto mais as mulheres ocupem efetivos espaços de poder.

Tenho certeza que ainda há muito a conquistar. Um dos aspectos centrais da luta democrática no Brasil é o da ampliação da presença feminina, que será maior à medida que cresça a luta das mulheres e a dos que se empenham por uma sociedade justa para todos, e que respeite e queira a diversidade de todo gênero.

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