Eugenio García Zarza, geógrafo espanhol | Por Juarez Duarte Bomfim

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

O zelo e carinho por sua Salamanca natal lhe leva a estudar diversos aspectos daquela cidade monumental, e me iniciou em novos temas do universo geográfico: as diferenças e semelhanças entre as urbanizações portuguesa e espanhola na Ibero-América; a cidade em quadrícula; cidades que são “un museo em la calle”; e novas pautas do mundo da geografia como a questão do ruído nas grandes e médias urbes.

Meu primeiro contato com a Geografia espanhola se deu em novembro de 1997, quando, em visita a instituições de ensino na Espanha conheci o vasto e complexo campo de conhecimento que esta ciência açambarca naquele país. A minha primeira aproximação se deu através de relações de amizade travada com o Prof. Dr. José Luis Luzón, do Departamento de Geografia Física e Análise Regional da Universidade de Barcelona.

Porém, o enlaçamento mesmo para cursar doutorado na Espanha se fez com o conhecimento e amizade do Prof. Dr. Horacio Capel, do Departamento de Geografia Humana da Universidade de Barcelona. Apresentei trabalho no I Colóquio Internacional de Geocrítica, em Barcelona, maio de 1999 e solicitei convite do Dr. Capel para ingresso no Curso de Doutorado daquela prestigiosa e secular instituição. Uma vez aceito, cursei disciplinas e créditos obrigatórios no ano de 2000 e no ano seguinte escrevi o meu “trabajo de investigación” como cumprimento às exigências curriculares.

Os atualíssimos conceitos de interdisciplinaridade e multidisciplinaridade são mais que apropriados para a compreensão da amplitude temática e investigativa da geografia espanhola. Recordo que, em uma proveitosa tarde de aulas na Universidade de Barcelona, o poliglota Prof. Dr. Carles Carreras me explicou em bom português:

– Durante a ditadura franquista, período de perseguição e proibição aos cientistas sociais e às ciências sociais, foi a geografia que abrigou estas Humanidades.

Como saldo parcial de ter cursado aquelas “asignaturas” (disciplinas) escrevi e publiquei artigos que iam desde a antropologia do consumo até a análise dos novos movimentos sociais no Brasil.
Ao término dos dois primeiros anos de doutoramento na Universidade de Barcelona, adquiri o Certificado de Suficiência Investigadora que me valeu um título acadêmico europeu, o DEA (Diploma de Estudos Avançados). A terceira etapa do Programa de Doutorado seria de elaboração da Tese.

Todavia, sem apoio institucional, no período, para elaboração de Tese de Doutorado com afastamento das atividades docentes, voltei ao trabalho de sala de aula na Universidade Estadual de Feira de Santana e suspendi temporariamente a elaboração de tese de doutoramento. Isto é, praticamente abandonei, pois as dificuldades que se apresentaram me desestimularam sobremaneira.

Como saldo negativo da desistência de continuar os estudos e elaborar a tese de doutorado, me ficou um vazio e íntimo sentimento de frustração… Até quando, no primeiro semestre de 2004, em profunda meditação, refletindo sobre a minha vida pessoal e profissional, que rumos tomar, uma voz interior – meu mestre interno – pergunta à minha consciência: “por que você não retoma o doutorado?” Escutei, e prometi continuar a reflexão ao longo da semana.
A conclusão a que cheguei foi: se as portas se abrirem, se as condições se fizerem favoráveis, retomarei a realização deste importante projeto.

E assim foi acontecendo. O PPPG-UEFS reabriu programa de ajuda de custo para docentes pós-graduandos; no DCHF as condições estavam otimizadas para concessão de afastamento para conclusão de Doutorado etc… Me faltava um professor orientador de tese, pois à uma consulta feita ao Departamento de Geografia Humana da Universidade de Barcelona para retomada do projeto, não obtive êxito.

Comentei essas coisas com o Amigo Prof. Dr. Erivaldo Fagundes, que acabava de retornar de bolsa-bocadilho, digo, bolsa-sanduiche na prestigiosa Universidade de Salamanca, Espanha, que me falou da excelência daquela instituição e da possibilidade de transferência institucional para lá. Faltava encontrar um professor orientador que abraçasse o meu projeto.
Eis que casualmente encontro, nos corredores da Universidade de Feira de Santana, a querida Amiga Railda Matos – feirense radicada na Europa – em doutoramento na mesma Universidade de Salamanca, e, me atrevo a expor a minha situação e necessidade.

Esse anjo bom promete me ajudar e, de retorno à Salamanca, visita o Departamento de Geografia da USAL, e após consulta à secretária Carmen Moreno sobre como contactar um professor salmantino amigo do Brasil e dos brasileiros, tem uma entrevista com o Prof. Dr. Eugenio García Zarza, lhe expõe o assunto, e o mesmo, generosamente, aceita acolher este que vos escreve como aluno orientando.

Já com o afastamento para conclusão do Doutorado devidamente aprovado e publicado no Diário Oficial, me dirijo para as frias terras salmantinas, e lá sou muito bem recepcionado por recém-Amigo pernambucano, doutorando em História, George Cabral, que me apresenta o baiano-galego justíssimo Amigo Vicente Justo, que mais tarde me ciceroneará e será meu anfitrião por terras da Galícia – mas esta já é outra história.

Conheço então o notável geógrafo salmantino Eugenio García Zarza, catedrático da Universidade de Salamanca, intelectual com dezenas de produções científicas publicadas, aporte fundamental para a Geografia espanhola.
Notável metodólogo, nos nossos primeiros encontros de trabalho duas significativas questões se colocavam: a elaboração do projeto de Tese a ser apresentado ao Departamento de Geografia da USAL e, logo depois, o sumário da tese.
A contribuição do Prof. Dr. Eugenio García Zarza nessas duas fases do processo de elaboração da Tese de Doutorado foi vital para o êxito de tal empreitada, e muito sou grato ao grande professor pelo seu empenho, atenção, cuidado e zelo por este baiano até então desconhecido que um dia adentrou o seu despacho (gabinete).

A terceira grande contribuição ao modesto trabalho do autor destas mal tecladas linhas foi a indicação bibliográfica. Amigo pessoal do geógrafo baiano Milton Santos, me estimulou a usar os seus paradigmas, e farta bibliografia miltoneana é citada no meu trabalho acadêmico, muito por obra e graça da generosidade do colega e Amigo Cloves Caribé – vulgo Coió – que generosamente me abriu a sua vasta biblioteca pessoal, prova material da erudição do seu possuidor.

Os títulos da lavra do próprio Eugenio Zarza por si só já se constitui num rico mundo acadêmico. O zelo e carinho por sua Salamanca natal, que lhe leva a estudar diversos aspectos daquela cidade monumental, me iniciou em novos temas do universo geográfico: as diferenças e semelhanças entre as urbanizações portuguesa e espanhola na Ibero-América; a cidade em quadrícula; cidades que são “un museo em la calle”; e novas pautas do mundo da geografia como a questão do ruído nas grandes e médias urbes.

A quarta essencial contribuição de Eugenio Zarza à minha Tese de Doutorado foi na condição de leitor rigoroso, que apontava as fragilidades de partes do trabalho, ao tempo em que propunha soluções.
A quinta e última grande contribuição de Zarza foi – junto com a secretária do Departamento de Geografia – a organização do “tribunal de tesis” (Banca Examinadora), constituída de próceres da Academia espanhola.

Em 03 de setembro de 2007 apresentei a Tese à Banca Examinadora e obtive a nota máxima concedida pelas instituições de ensino superior espanholas, sobresaliente cum laude.

Desta maneira realizava um sonho cultivado já a décadas e encerrava um ciclo da vida acadêmica e profissional. Relembrando as palavras da querida Amiga e mestra Rosali Fernandes:
– A conclusão do Doutorado é uma janela que se fecha e, ao mesmo tempo, uma porta que se abre para novos desafios.
Divido esta láurea com o Amigo Prof. Dr. Eugenio García Zarza, ao qual sou eternamente grato.

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Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]