Dilma Rousseff: ficha de terrorista, os anos de chumbo, noção de herói, o silêncio da elite, e a cristalização do povo no poder

Ficha de Dilma Rousseff produzida nos porões da Ditadura Militar é um troféu, uma lembrança da tempera da militante política, que durante a juventude lutou, contribuindo para construção de uma sociedade democrática.
Ficha de Dilma Rousseff produzida nos porões da Ditadura Militar é um troféu, uma lembrança da tempera da militante política, que durante a juventude lutou, contribuindo para construção de uma sociedade democrática.

Em 2009, recebi por e-mail uma mensagem que continha cópia da ficha “criminal de Dilma Vana Rousseff”, produzida pelos militares e membros da elite financeira e intelectual que dominavam a cena política da época, os ditadores com seus respectivos apoiadores.

A intenção do e-mail (carta eletrônica) era óbvia. Passar a ideia de que Dilma era uma pessoa má, um ser humano que utilizava de meios ilícitos para atingir os seus objetivos. Bom, acredito que está era a intenção do autor. Mas sinceramente, me veio uma ponta de inveja. Ter lutado por um ideal de sociedade e sobrevivido aos anos de chumbo (Ditadura Militar de 1964 a 1985). Que feito extraordinário. A intenção do autor do e-mail foi um verdadeiro ‘tiro no próprio pé’. Imediatamente, a minha admiração por Dilma Rousseff e por sua trajetória se tornou profunda.

É preciso coragem, determinação e desprendimento para se opor a um Estado opressor. Um Estado que controlava as redações dos veículos de comunicação, que dominava a produção cultural e manipulava toda sorte de informação que chegava ao povo. Uma elite prostrada e servil aos militares e seus apaniguados, utilizaram dos expedientes da compra, tortura e/ou expatriação aos poucos que ousavam desafiar o Estado Ditatorial do período militar levando à morte, muitos dos quais, ela não podia subverter à ordem e doutrina.

Os torturados e mortos

Como não admirar Emiliano José, Oldack Miranda, Samuel Wainer, como não lembrar com tenra saudade das 379 pessoas que morreram vítimas da opressão de um Estado Totalitário, a exemplo de Zuzu Angel, imortalizada no filme homônimo, protagonizado por Patrícia Pilar. Que doce inveja desta mulher, Dilma Rousseff, que preencheu páginas de sua vida com a luta por idéias e valores universais como a liberdade de expressão, essencial em uma sociedade de homens livres. Que lutou pelo direito de debatermos e protestarmos contra o Estado, de decidirmos o que fazer com o resultado dos impostos arrecadados. Que sonha com uma sociedade onde todos possam viver com dignidade.

Reflitam e perguntem-se: Qual é o modelo de herói que queremos para as nossas vidas, para os nossos filhos e netos? Um herói imaginário, distante do real ou pessoa como nós, que foram capazes de por em risco suas próprias vidas para que todos pudessem desfrutar de um Brasil socialmente justo? Pessoas de carne e osso com qualidades e defeitos humanos, mas dotados da extraordinária força de caráter, valores morais e idéias de uma sociedade justa e próspera, onde o Estado é protetor e fiador da vida de cada indivíduo.

A escolha do modelo de herói não é difícil. Só Deus, os torturados e Dilma sabem o que ela passou como pressa política durante o período de 1970 a 1972. Relatos de sobreviventes destes interrogatórios e prisões nos passam uma idéia do que ocorreu com ela. Mas, apenas isto, idéia. Porque a dor, o sofrimento físico e psicológico apenas os torturados podem verdadeiramente sentir. Assistam ao filme nacional Cabra marcado para morrer, ou leia e/ou assistam: O Que é Isso, Companheiro? e Batismo de sangue. Assista ao filme argentino Visões, cujo personagem principal, Carlos Rueda é protagonizado por Antonio Banderas, e tenham um vislumbre da crueza da Ditadura.

O sucesso da Ditadura e a verdade histórica

A Ditadura Militar legou um país com alguns avanços industriais, mas com graves atrasos sociais. Ao final deste período, o Brasil possuía uma das sociedades com o maior volume de riqueza concentrado em pequeno, diminuto número de cidadãos. Cerca de 60% das terras agricultáveis pertenciam a pouco menos de 10% da população. Favelas, desemprego, baixo grau de instrução formal, uma inflação tão feroz que consumiu o valor real do salário do trabalhador até o 10º dia de cada mês, além da inacessibilidade a tratamentos médicos e sanitários. As deficiências do Estado pós Ditadura eram tão assustadoras, que revendo os avanços dos últimos 25 anos podemos dizer: Se a Democracia não é perfeita, ao menos é um modelo onde todos podem torná-la melhor.

A elite que apoiou o golpe de 1964 e deu lhe sustentação até o fim, em 1985, esmagou o campesinato e embruteceu intelectualmente o povo.  Mantendo parte considerável da sociedade brasileira na ignorância, pode conduzi-la por mais 17 anos, após a redemocratização. É justamente a ascensão do presidente Lula que cristaliza a chegada do povo ao poder. Com o pensamento de centro-esquerdo sendo dominante. Diferente do governo de Fernando Henrique que era de centro-direita. Luís Inácio Lula da Silva trabalhou para reconstruir o nosso próprio conceito de nação, resgatando o papel da mulher, dos negros, das minorias, oportunizando com a construção de Faculdades e Cursos Técnicos Federais o aprimoramento científico do povo. Foram tantos os avanços que apenas citaremos estes, por ora.

Dilma e o grupo COLINA

Lula e Dilma possuem trajetórias simétricas, ele montou um partido (PT – Partido dos Trabalhadores). Tentou e venceu o sistema com os instrumentos legais possíveis, mesmo sendo preso e perseguido. Ela optou por lutar contra a Ditadura através da participação nos grupos políticos: COLINA (Comando de Libertação Nacional) e a VAR Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares), tendo essa última, protagonizado o célebre assalto em meados de 1969, considerada a ação mais espetacular e rendosa de toda a luta armada.

Reconstruiu sua vida no Rio Grande do Sul, onde junto com o companheiro por mais de trinta anos, Carlos Araújo, ajudou na fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT) e participou ativamente de diversas campanhas eleitorais. Exerceu o cargo de secretária municipal da Fazenda de Porto Alegre no governo Alceu Collares e mais tarde foi secretária estadual de Minas e Energia, tanto no governo de Alceu Collares como no de Olívio Dutra, no meio do qual se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Participou da equipe que formulou o plano de governo na área energética na eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República em 2002, onde se destacou e foi indicada para titular do Ministério de Minas e Energia. Novamente reconhecida por seus méritos técnicos e gerenciais, foi nomeada ministra-chefe da Casa Civil devido ao escândalo do mensalão, crise que levou à renúncia do então ministro José Dirceu. Conhecida pelo temperamento difícil, passou a estar no centro de várias polêmicas, ao mesmo tempo em que se tornou a candidata preferida de Lula para sucedê-lo. Foi considerada pela Revista Época uma dos 100 brasileiros mais influentes do ano de 2009.

Eleições 2010

Este artigo não é um apelo subjetivo para que votem em Dilma Rousseff para presidente em 2010. Acredito sinceramente que cada um deve avaliar o político, seja quem for, pela sua trajetória de vida, realizações e propostas para o futuro. A combinação destes fatores nos conduzira a uma escolha satisfatória quanto aos melhores nomes para condução do Estado brasileiro. Constitui-se de  breve reflexão sobre os valores morais e pessoais que devemos cultivar. Este artigo é uma pequena homenagem a todos os que lutaram para que, enquanto jornalista possa exercer plenamente o ofício, sem medo da opressão.

Lista de filmes sobre a resistência democrática

Pra Frente, Brasil – 1982, Nunca Fomos Tão Felizes – 1984, Cabra Marcado Para Morrer – 1985,Lamarca – 1994, O Que é Isso, Companheiro?- 1997 , Cabra-Cega -2004, Quase Dois Irmãos – 2004, Araguaya – A Conspiração do Silêncio – 2004, Peões – 2004, Batismo de Sangue – 2006, O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias – 2006, Zuzu Angel – 2006 e Hércules 56 – 2006.

Ficha de Dilma Rousseff produzida nos porões da Ditadura Militar é um troféu, uma lembrança da tempera da militante política, que durante a juventude lutou, contribuindo para construção de uma sociedade democrática.
Ficha de Dilma Rousseff produzida nos porões da Ditadura Militar é um troféu, uma lembrança da tempera da militante política, que durante a juventude lutou, contribuindo para construção de uma sociedade democrática.
Ficha de Dilma Rousseff produzida nos porões da Ditadura Militar é um troféu, uma lembrança da tempera da militante política, que durante a juventude lutou, contribuindo para construção de uma sociedade democrática.
Ficha de Dilma Rousseff produzida nos porões da Ditadura Militar é um troféu, uma lembrança da tempera da militante política, que durante a juventude lutou, contribuindo para construção de uma sociedade democrática.
Carlos Augusto
Sobre Carlos Augusto 9382 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).