Celso Furtado e o Nordeste | Por Emiliano José

Emiliano José, jornalista, escritor e doutro em Comunicação e Cultura Contemporâneas e professor da Universidade Federal da Bahia (professor aposentado da UFBA).
Emiliano José, jornalista, escritor e doutro em Comunicação e Cultura Contemporâneas e professor da Universidade Federal da Bahia (professor aposentado da UFBA).

 O Nordeste, ao longo dos séculos, tem representado um desafio de bom tamanho ao País. Já foi, é verdade, um problema maior, mas inegavelmente há ainda enormes obstáculos para que construamos um País mais harmônico. Ao se dizer isso não se desconhece que em cada região, mesmo nas mais ricas, há sempre o problema geral da desigualdade, que vem sendo enfrentada pelo governo Lula, mas que persiste, e que nos convoca a todos para persistir no caminho do desenvolvimento com distribuição de renda, sem o que desenvolvimento não será.

Nos últimos dias, dediquei-me a algumas leituras sobre Celso Furtado, um dos mais respeitados intelectuais brasileiros, e que soube sempre dedicar o melhor de si à construção de uma sociedade mais justa. Pensou o Brasil sempre, o Brasil todo, mas seu olhar mais atencioso dirigia-se ao Nordeste, à chamada questão regional nordestina, sobre a qual se debruçou praticamente ao longo de toda a sua vida, mas de modo especial quando pensou a criação da Sudene, que tornou-se realidade no início da década de 1960. Com Celso Furtado, aparecia uma tese clara: o que é bom para o Brasil não é necessariamente bom para o Nordeste.

E por isso ele passou a trabalhar para enfrentar a questão nordestina como um dos aspectos essenciais do desenvolvimento brasileiro. Sua proposta era de que o Estado desenvolvimentista devia também chegar ao Nordeste. Tratava-se de quebrar o Estado oligárquico na região e com a presença do Estado desenvolvimentista promover as reformas necessárias e integrar assim o Nordeste àquele País novo que nascia, fruto da industrialização intensiva. Vieram os militares e com eles o que ficou conhecido como modernização conservadora. E Furtado, quando voltou do exílio, deparou com uma realidade bem distinta da que ele havia pensado.

A industrialização chegara à região, mas não era nordestina como ele queria. Eram filiais de grandes grupos nacionais e internacionais que se haviam instalado no Nordeste, favorecidas pelos incentivos fiscais. Eram extensões da indústria do Sudeste e do Sul. Talvez por isso, ao voltar, tenha dito, como lembra Tânia Bacelar no livro O pensamento de Celso Furtado e o Nordeste hoje, deixando trair amargor: “O Nordeste é o espelho onde a imagem do Brasil se reflete com brutal nitidez”. Continuava vigoroso, disposto a afrontar a miséria, a desigualdade, a concentração de renda. Persistia, à Che, indignando-se com as injustiças.

Era um entusiasta da democracia, mas tinha consciência da força do pensamento conservador no Brasil. Perguntava-se, angustiado, porque, depois de uma ditadura que agravara o que ele chamava de mau desenvolvimento, mesmo com a vigência democrática, era tão difícil promover mudanças que nos levassem a uma sociedade mais justa. O crescimento econômico no Brasil, tal e qual o conhecemos, lembrava sempre ele, invariavelmente fundou-se na preservação dos privilégios das elites. Só quando há um projeto político-social que priorize a melhoria das condições de vida da população é que o crescimento se transforma em desenvolvimento na concepção furtadiana.

Celso Furtado morreu em 2004. Não pôde acompanhar os frutos do governo Lula. Inegavelmente, houve mudanças consideráveis no Nordeste. Do ponto de vista político, houve avanços significativos, com o desmonte da maior parte do Estado oligárquico na região. As políticas públicas do governo federal mudaram o cenário de uma região anteriormente imersa na fome e na exclusão, particularmente no semi-árido. Há uma cidadania ativa em ação, e não há dúvida de que foi ela que conseguiu propiciar o surgimento de tantos governos progressistas.

Ao dizer isso, ao constatar avanços, não se deixe de lado as teses centrais de Celso Furtado. Ainda estamos devendo não só planejamento como alocação de recursos à região de modo a que os desequilíbrios entre ela e o Sul e Sudeste sejam superados. Ainda temos muito que avançar para enfrentar a miséria, a exclusão que ainda são muito presentes em toda a região, no campo e na cidade, por mais esforços que façam os governos estaduais e apesar da política atenciosa do governo Lula com essa parte do País. O Brasil ainda deve muito ao Nordeste, E precisa pagar. Para ser digno de Celso Furtado.

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