Caminhos do Haiti | Por Emiliano José

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Eu vi de perto a tragédia haitiana. Ai de ti, Haiti!. Quanta tristeza, quanta desolação, quantas milhares de mortes. Não cabe lembrar números, já tão trabalhados pela mídia internacional. Nem os salvamentos denominados milagrosos, e incensados também pela mídia. Lembro-me sempre da “Montanha dos Sete Abutres”, extraordinário filme, síntese da postura midiática, feito lá pelos anos 50. Quero chorar, mas não tenho lágrimas que me rolem nas faces para me socorrer…

Andei um dia inteiro pelos escombros, vi o povo perambulando ou em filas à busca da ajuda humanitária, crianças pelo chão nos acampamentos improvisados com restos de pano. Um milhão de pessoas desabrigadas. Foi o que nos disse o presidente René Preval. Éramos uma delegação de parlamentares da Câmara Federal. Falamos pouco, ouvimos muito. Nossos militares, da missão da ONU, pareciam muito conscientes de seu papel humanitário, justiça se lhes faça.

Saí do Haiti com dúvidas imensas. Duas noites sem dormir e um quadro daqueles são mais do que suficientes para semear dúvidas, sobretudo diante de uma situação em que poucos sabem o caminho. Firmei uma convicção: o Haiti não é uma questão militar. Mesmo que hoje não se justifique, nem se peça a saída das forças militares da ONU, mesmo que o presidente René Preval defenda, ainda, a permanência delas, particularmente das forças brasileiras, penso que a médio prazo a retirada deva acontecer. A ONU deverá refletir sobre isso.

E por que os EUA se apressaram em deslocar tão gigantesco contingente para o pequeno país? Com que direito? Com que objetivos? No caso das forças da ONU, elas estão lá com um mandato legal, tem objetivos claros. E os EUA? O que querem lá? Será que se trata apenas do medo de que haitianos se atrevam a migrar para os EUA? Ou serão as manias do Império, que não admite qualquer conturbação em águas e terras que considere de seu domínio? O uso do cachimbo faz a boca torta. Mesmo afundados no Iraque e no Afeganistão, faz incursões pela América Latina.

Penso, e deixo-me levar livremente pelo pensamento, que a tragédia haitiana vai muito além do terremoto, embora ele represente um acúmulo sangrento, desesperador. Aqueles 45 segundos de tremor apenas recordam a história de exclusão secular de um país, uma espécie de condenação à miséria. Não é possível condenar a brutalidade da natureza. Quem nos disse isso, não exatamente com essas palavras, foi o próprio presidente René Preval. Lembrou dos quatro furacões de 2008.

Tais furacões causaram muitas mortes. Passaram por Cuba. Os estragos foram muito menores. Nós não estávamos preparados – foi o que nos disse Preval. Como disse, também, que Porto Príncipe não era uma cidade preparada para enfrentar terremotos. A fome no Haiti precede ao terremoto, obviamente. Em algumas áreas da capital, a população, por ironia, se alimentava melhor no pós-terremoto do que antes. Por que uma nação é levada a tais níveis de miséria, de abandono, de exclusão?

Sem embarcar em teorias conspiratórias, esse destino só pode ser entendido a partir da história. Não só a das décadas recentes – que inclui a ditadura dos Duvalier e as turbulências políticas seguintes – mas, também, o acontecimento de mais de dois séculos atrás, quando aqueles negros ousados fizeram uma revolução que abalou o mundo, abolindo a escravidão, em 1804, momento em que nem o Iluminismo nem a Revolução Francesa abraçavam a idéia. Como suportar aquela ousadia? Eles realizaram lá, um pouco depois, o que a Revolução dos Alfaiates quis realizar na Bahia. Aqui, enforcaram as lideranças. Lá, eles enforcaram os proprietários brancos.

Ouvi muito sobre a falência do Estado haitiano e sobre a necessidade de forças externas reconstruírem esse Estado. Fiquei numa dúvida danada. Será que isso dá certo? Será que o modelo de reconstrução deve vir de fora? Ou será que só o povo haitiano pode reencontrar o seu destino de nação livre? Que todos ajudem o Haiti, é uma obrigação da humanidade. Mas, deixem que ele trace seu trajeto por conta própria. As receitas vindas de fora não costumam dar certo. Cada povo escolhe seu próprio caminho.

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