Projeto em penitenciárias expõe cotidiano de detentos pela internet

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.
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Embora haja um sem-número de filmes e documentários sobre as prisões alemãs, a realidade destas instituições vem raramente à tona. Projeto com detentos jovens procura revelar o dia-a-dia nas penitenciárias do país.

Os participantes do projeto podknast.de (um trocadilho com o termo podcast, mas que substitui o cast por knast, que na gíria alemã significa prisão) acham que a realidade dentro de uma penitenciária é quase sempre maquiada quando exposta pela mídia. Financiado pelo Departamento de Mídia do Estado da Renânia do Norte-Vestfália, este projeto realizado com jovens detentos é considerado um sucesso.

O podknast vem sendo realizado em quatro penitenciárias do país e cada vez mais delegacias de polícia e escolas se interessam pelo material produzido pelos participantes, a fim de utilizá-lo em trabalhos de prevenção da criminalidade.

Oportunidade de sair

Na penitenciária de Siegburg, por exemplo, o jovem Marcel, de 21 anos, cumpre pena há mais de um ano e meio por arrombamento e roubo. Depois que a empresa fundada por ele foi à falência e ele ficou desempregado, Marcel acabou se envolvendo em atividades criminosas em busca de dinheiro.

Hoje, depois de cumprir boa parte da pena, ele já tem permissão para deixar a prisão ocasionalmente, tendo sido escolhido para participar do projeto. Auxiliado por dois estudantes de Mídia da Escola Superior de Aachen, Marcel está feliz de poder se dedicar ao trabalho do podknast fora das quatro paredes de sua cela.

“Quero que os espectadores e os jovens lá fora vejam que aqui dentro não é nada bom. Há brigas todo dia. Esse é o dia-a-dia, quando se está preso. Gostaria que ao ver isso as pessoas lá fora se ligassem”, diz Marcel, em sinal de alerta.

O pior é a rotina

A penitenciária de Siegburg tem mais de 500 detentos do sexo masculino. Alguns cumprem pena por pequenos delitos, como uso do transporte público sem pagar passagem. Outros já estiveram envolvidos no tráfico de drogas, crimes de violência ou até assassinato.

Para Dennis, condenado a dois anos de prisão por roubo, o pior numa penitenciária é a rotina. “Acordar de manhã todo dia, trabalhar, comer, tomar banho, a hora livre e aí já passou o dia. Nem um cachorro vive tão confinado quanto eu”, reclama o jovem, para quem o projeto podknast é realmente uma oportunidade de fugir do dia-a-dia da prisão e ter contato com outros jovens.

“Pode-se ganhar espírito de equipe. Ficar o dia inteiro dentro de uma cela não faz com que ninguém se torne criativo. É preciso diversidade”, reclama Dennis. O que se percebe no material veiculado pela internet é que o ambiente de uma penitenciária é opressor: corredores longos e frios, com uma cela fica ao lado da outra.

O ponto alto do dia é quando alguém recebe visita. Esse é, por exemplo, um dos temas das filmagens feitas para o projeto: uma encenação, na qual o jovem Sascha, de 19 anos, representa o papel de um visitante que chega para encontrar na prisão seu amigo Daniel.

Várias metas

A pedagoga Inge Roy, na função de responsável pelo planejamento do lazer dos detentos da penitenciária de Siegburg, acompanha cada passo deste projeto que, em sua opinião, tem vários objetivos.

“Os jovens discutem desta forma sobre seus delitos e ao mesmo tempo aprendem a lidar com a mídia. Outra meta maior ainda é que o material produzido pode servir no trabalho de prevenção da criminalidade. E também como instrução para pais, professores, assistentes sociais ou funcionários de penitenciárias, que tenham eventualmente a ver com o assunto”, explica Roy.

Os jovens responsáveis pelo www.podknast.de recebem retorno frequente de visitantes da página na internet. Com frequência são registros encorajadores, em que o usuário diz para que eles continuem fazendo o que fazem. Um rap produzido pelos detentos da penitenciária de Herford, por exemplo, se tornou relativamente popular através da divulgação no site.

Elogios e críticas

Dureza do cotidiano e rotina entendiante são vistos pelos detentos como os maiores problemas

No entanto, não há só elogios. O usuário Killknut, por exemplo, registrou no site que o projeto financia “o luxo dos detentos” às custas do contribuinte. Uma crítica revidada por Inge Roy.

“Naturalmente que isso pode causar esse tipo de impressão em uma ou outra pessoa.. Mas, no fim, acredito que a gente tenha que levar esses meninos para a frente, fazer com que eles tenham experiências bem-sucedidas e ao mesmo tempo aumentem a capacidade de concentração. Acredito que estamos dando passos certos rumo ao futuro e que isso poderá facilitar o reingresso deles no mercado de trabalho”, descreve a pedagoga.

É aí, contudo, que pode estar o problema: a maioria dos jovens envolvidos no projeto quer que suas imagens apareçam normalmente na internet, sem nenhuma distorção. Os arquivos virtuais, contudo, registram tudo e não deletam nada, o que pode fazer com que possíveis empregadores desses jovens no futuro saibam imediatamente do passado dos mesmos numa casa de detenção.

Esconder-se ou não

De início, Inge Roy também via essa questão de maneira crítica. Com o tempo, após uma série de conversas com especialistas, ela chegou à conclusão de que deveria deixar aos próprios jovens a decisão de esconder o rosto.

“Vou contar isso para meu futuro empregador e também na escola. Quem tiver algum problema, que me diga. Se a consequência for a de que a pessoa não vai me querer, então tenho que pagar esse preço. Fiz besteira e preciso ver como posso me sair da melhor forma dessa situação”, teoriza Marcel.

A única certeza do jovem é que ele deverá buscar de imediato um emprego, logo após deixar a prisão. Segundo ele, o importante é ter uma rotina estruturada, “para não começar a pensar bobagem de novo e acabar mais uma vez na prisão”, conclui Marcel.

*Com informações de Centro Knight

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