Outras coisas que Brasília tem | Por Tereza Cruvinel

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Tereza Cruvinel é jornalista.
Tereza Cruvinel é jornalista.

O escândalo que recentemente envolveu o alto escalão do GDF feriu profundamente a autoestima dos brasilienses. E isso quando nos preparávamos para a festa dos 50 anos de Brasília, levada avante com esmero pelo governo, vale dizer. A participação da sociedade civil foi assegurada por um comitê de 50 brasilienses, que tenho a honra de integrar. Brasília, desde a construção, foi injustamente estigmatizada como “locus” da corrupção. Mas, quando os envolvidos eram da esfera federal, e principalmente quando envolviam parlamentares de outras unidades da Federação, disparávamos à queima-roupa: “Brasília não tem nada a ver com isso. Vocês, dos outros estados, é que os elegem e os mandam para cá como seus representantes”. Tiro e queda, o linguarudo pensava um pouco e se calava. Agora não. Com o envolvimento de autoridades locais, quase todas eleitas pelo voto direto, perdemos o prazer de rebater com esse “toma que o filho é teu”.

O assunto aqui, porém, não é o escândalo, que, passados os ritos do final de ano, seguirá seu curso. O assunto é a autoestima dos cidadãos da capital federal. Dos mais velhos, que ajudaram a fundar a cidade no que antes era sertão, obra que em outros países seria tida como feito épico. Dos que chegaram depois, adotaram a cidade e também com ela contribuíram. Dos mais jovens, que aqui nasceram, mas ainda não batem no peito, com o orgulho de um carioca ou a empáfia de um paulista para se declarar brasiliense.

Nos anos 70, por força das circunstâncias políticas impostas pela ditadura – a greve da UnB em 1977, com suas punições e depois outro processo por “subversão” –, tive que cair no mundo. De Minas, saíra adolescente. Meu referencial urbano era Brasília. Mas, mesmo lá, nas plagas da clandestinidade, o fato de eu ser de Brasília despertava certo desdém dos “companheiros”. Mas então havia vida inteligente e resistência à ditadura em Brasília? Aquilo me revoltava: já naquele tempo tentava explicar que Brasília, como Minas, há muitas, e não apenas o quadrilátero do poder, onde grassam ervas diversas, não só a daninha corrupção. Em 1980, com a anistia, voltei, concluí minha graduação e fiz minha carreira jornalística. De lá para cá, Brasília se afirmou como cidade de muitas qualidades, perdemos o complexo, a nova geração cresceu altiva.

Agora, novamente, um baque. Senti-o neste final de ano. Temos que ser intransigentes com a corrupção, mas sem perder a altivez, o entusiasmo e a determinação de mostrar ao Brasil que valeu a pena a aposta na interiorização do desenvolvimento com a transferência da capital. O Brasil vive um momento glorioso, mas as mazelas, sobretudo culturais, não se acabarão de repente. Devemos afinar o discurso. Quando apedrejarem a cidade, devemos responder com os tantos exemplos positivos que a capital dá ao Brasil.

Somos a cidade com a maior metragem de área verde por habitante do país. Nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é o quinto melhor entre as capitais (0,844). Temos a segunda maior renda per capita brasileira – R$ 16.920, contra uma média nacional de R$ 8.694,00. O Distrito Federal tem o quinto melhor Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do país e um dos menores índices de desemprego.

Aqui acontecem coisas extraordinárias. Temos uma mobilidade social invejável, permitindo a quem trabalha ascender socialmente. Temos uma grande universidade federal, com pesquisas científicas de ponta em diversas áreas, afora outros bons centros universitários. Um polo de informática que gera empregos sem poluir. A iniciativa privada soma esforços com as instituições públicas em diversas iniciativas positivas. Somos, por exemplo, uma das cidades com o maior índice de reciclagem de lixo e dejetos.

Estes dias, fazendo exames na Clínica Vilas Boas, conheci o trabalho que se faz ali, sem alarde, para prover os hospitais do Norte e do Nordeste do insumo fundamental para a realização de tomografias com base no flúor radioativo, que identifica e faz o estadiamento de tumores. Aqui são formados, no Instituto Rio Branco, os diplomatas que, nas últimas décadas, têm forjado uma política externa mais altiva e soberana para o Brasil. Aqui nasceu e se expandiu uma instituição exemplar como a Rede Sarah, com seu trabalho de reabilitação e pesquisa neurológica internacionalmente reconhecidos.

Eu escreveria laudas sobre outras coisas que Brasília tem, afora a política e seus zumbidos. E diria que mesmo este sistema de políticos cheio de vícios foi capaz de forjar uma democracia que vem passando por todos os testes. Quando jornais como El País e Le Monde elegem o presidente Lula como personalidade do ano, reconhecem também nossa pujança democrática, que permitiu a um homem com sua origem eleger-se e governar com resultados mais reconhecidos lá fora que aqui dentro.

Ganhei da Marilena Chiarelli um sabonete de ervas chamado “sai, uruca”. Produto do artesanato local. Pois então, vamos dizer “sai, uruca” e fazer uma grande festa pelos 50 anos de Brasília. É um tributo que devemos à cidade e a nós mesmos. De nossa parte – da TV Brasil e dos canais do sistema público de comunicação – vamos contribuir com a melhor e maior produção possível de conteúdos documentais e audiovisuais sobre estes riquíssimos 50 anos

*Tereza Cruvinel, jornalista.

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