O livro Relembrando o que escrevi: da reconquista da democracia aos dias atuais, que chega hoje às livrarias, pode contribuir para o debate

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”Relembrando o que escrevi” é lançado.

O livro Relembrando o que escrevi: da reconquista da democracia aos dias atuais, trata-se de uma coletânea de trechos de entrevistas e artigos do sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, organizada pelo diplomata Miguel Darcy de Oliveira, seu assessor para assuntos internacionais.

O material coletado procura refazer a trajetória do pensamento de Fernando Henrique por um período de mais de 30 anos, entre 1972 e 2006. É uma aula de política, na qual passeia por temas variados e, sobretudo, polêmicos, como a esquerda e a política, a democracia diante do fantasma dos capitais especulativos, a mídia e a liberdade, a teologia do mercado.

Sobre todos esses temas paira a questão da redefinição do papel do Estado em um novo momento da ordem mundial. Falando de maneira incansável sobre o assunto, Fernando Henrique apresenta de forma detalhada e provocante seus pontos de vista no debate que opõe privatização e estatismo e permite entender melhor as razões que o levaram, em oito anos de poder, a reduzir substantivamente a presença do Estado na economia.

Ele não seguiu esse rumo depois de eleito. A opção já estava clara para ele antes da posse. No discurso com o qual se despediu do Senado, em 1994, disse que, após virar a página do autoritarismo, o Brasil precisava se livrar do modelo de Estado intervencionista herdado da era Vargas. Afirmando estar afinado com os “analistas políticos e econômicos mais lúcidos”, proclamou que “a manutenção dos mesmos padrões de protecionismo e intervencionismo estatal sufocava a concorrência necessária à eficiência econômica e distanciaria cada vez mais o Brasil do fluxo das inovações tecnológicas e gerenciais que revolucionavam a economia mundial”.

Fernando Henrique aparece na coletânea organizada por seu assessor, como uma espécie de líder modernizador do País. No ano em que o PT trabalha para focar o debate da eleição presidencial na comparação entre os governos FHC e o de Luiz Inácio Lula da Silva, procurando conferir ao tucano o papel de privatista e entreguista, o livro é oportuno. O ex-presidente oferece aos correligionários tucanos, que afiam as armas para a batalha, argumentos que aprimorou no decorrer de décadas de debates com seus críticos.

“Será que estou acabando com o Estado?”, perguntava ele em entrevista publicada no ano 2000 pelo extinto jornal República, comentando os ataques dirigidos a ele. E logo respondia: “Pelo contrário, estou transformando o Estado para ele ser apto a lidar com uma sociedade mais dinâmica.”

O título do livro, lançado com o selo Civilização Brasileira, da Editora Record, é uma brincadeira com a incômoda frase “esqueçam o que eu escrevi”, insistentemente atribuída ao ex-presidente. Ele já negou e o livro repete a negativa, dizendo que se trata de “pura maldade”.

Além de oportuna para o debate eleitoral, a coletânea descortina para os mais jovens um perfil histórico e mais amplo do sociólogo – com background marxista, como ele se define – que foi catedrático de ciência política na Universidade de São Paulo (USP), integrou os quadros do desaparecido MDB, defendeu as greves do ABC chefiadas por Lula, ajudou a fundar o PSDB, chefiou a pasta da Fazenda e ocupou a cadeira de presidente entre 1995 e 2003.

Fernando Henrique aparece no livro como estadista preocupado em analisar o Brasil e encontrar rumos adequados diante da globalização, intelectual provocativo e de ação, social-democrata, otimista e, acima de tudo, democrata convicto.

É um retrato colorido, que vai além do preto e branco maniqueísta com o qual seus críticos tentam pintá-lo (o mesmo maniqueísmo que os opositores de Lula usam para tentar fazer crer que se trata de um político incapaz).

Redação do Jornal Grande Bahia
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