Almirante das Areias do Mar

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Luciano Serva Ferreira. Economista de profissão e barraqueiro de vocação.

No verão da Bahia, todos — iniciados ou neófitos em baianidade — elegem o seu acarajé preferido, o time do coração, o partido do bolso e, por que não dizer, seu barraqueiro de estimação.

Eu já elegi o meu (lá ele!): Luciano Serva Ferreira. Economista de profissão e barraqueiro de vocação. Almirante das Areias do Mar de Pituaçu.

Apesar de ter alcançado o almirantado, o nosso personagem não nasceu para encarar o mar, e sim para faroleiro, sinalizando aos navegantes do alto do seu posto avançado, na arrebentação das ondas, pilotando a sua nau sem velas.

É a barraca de praia denominada “Barraca de Luciano”, situada na praia de Pituaçu, sem número, em frente ao Circo Picolino, na Cidade do Salvador.

E quem não conhece Luciano? Pelas areias e gramados da sua barraca desfilam celebridades da vida pública brasileira: presidentes de companhias globais, autores de concorridos bestsellers, temidos jornalistas, poetas, seresteiros, namorados… e até um ex-presidente da República, quando senador, visitou o lugar, ciceroneado por saudoso arquiteto perubaiano.

Entre aquelas cadeiras e mesas, diz a lenda, já foi arquitetado importante secretariado governamental; nostálgicos guevaristas fizeram e desfizeram revoluções; sucessos da literatura, música e teatro baianos foram ali inspirados, entre uma cajurosca e outra.

Capitaneando tudo isso está Luciano, do alto da sua indefectível barba, sombreado por elegante chapéu panamá.

De uns meses para cá, com a viuvez do nosso ilustre personagem, senhoritas desimpedidas, que formam a sua prestigiosa clientela, sonham esperançosas em dar fim à solidão do nosso querido amigo. Este tem sido um tema central das conversas de mesa, regadas por geladíssima cerveja.

Luciano assiste paciente a esta movimentação toda. Calmamente, aguarda a hora certa para o seu decisivo enlace — ou não.

Descobri recentemente que o nosso ilustríssimo amigo é um santamarense da gema, terra de tantas e mais tantas célebres personalidades, sendo a maior de todas a mais que centenária Dona Canô. É que, à época, Terra Nova era apenas um periférico distrito de Santo Amaro da Purificação, à qual Luciano foi levado para batizar numa Ford Rural verde e branca.

Mas há controvérsias, pois seu irmão mais velho jura que Luciano é soteropolitano. Se assim o for, Salvador perde a oportunidade de conceder-lhe o respeitável título de cidadão, por naturalmente o possuíres – e nós perdemos a festa.

Pois tudo é festa na Barraca de Luciano. O calendário de eventos para o verão 2010 já foi divulgado e, imperdíveis mesmo, além das quartas culturais nas noites quentes de Salvador, sob a lua que nos protege, são as celebrações do calendário oficial da Barraca.

A destacar o 2 de fevereiro, dia de Yemanjá, Rainha do Mar, quando são entregues os presentes à Mãe das Águas, em formoso balaio. Este singelo ritual também representa o único momento do ano em que Luciano é visto molhando as suas já célebres canelas no mar de Pituaçu.

Data significativa é a Quarta-feira de Cinzas, quando é promovido o “Bacalhau da Marlene”, isto é, o bacalhau que era cozinhado por dona Marlene, sua pranteada e saudosa esposa. A partir deste ano, a efeméride terá caráter de homenagem póstuma àquela a quem Luciano tanto amou.

Ah, e não podemos esquecer a comemoração do “Dia do Barnabé”, que demonstra a atenção do dono da Barraca com o perfil da sua freguesia, composta por numerosos e esforçados funcionários públicos brasileiros.

Caymmicamente instalado na rede da varanda de sua casa, entre girassóis e pintassilgos, nas horas vagas Luciano planeja os novos espetáculos que marcarão o verão baiano de memoráveis festejos. Todos nós aguardamos ansiosos.

Exemplos? Quando lá no Rio o piano subiu o Morro da Mangueira, Luciano filosofou: e por que não descer o barranco de areia? Pronto… o dedilhar dos teclados de raro piano de caldas se elevou ao diz-que-diz-que mansinho que brota dos coqueirais. Ele promete bis. E nós já marcamos o imperdível reencontro: Barraca de Luciano, na praia de Pituaçu, em frente ao Circo Picolino, Salvador, Bahia.

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Sobre Juarez Duarte Bomfim 757 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: juarezbomfim@uol.com.br.