Protagonismo Indígena na Serra do Padeiro | Por Liliana Peixinho

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.
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A nova ordem mundial, pós efeitos negativos das mudanças climáticas, nos mostra a urgência de corrermos atrás de prejuízos históricos, como a dizimação das florestas e do povo que dela tenta cuidar, para viver. Os desafios são enormes, como esse em pauta, sobre a publicação recente, na Revista Época, de matéria com a Serra do Padeiro. O conteúdo apresenta uma contextualização questionada pelas lideranças comunitárias indígenas, com muita propriedade, em carta assinada pelas lideranças, agora, dia primeiro de dezembro.

Quem estudou os problemas da comunidade, viu de perto o que eles fizeram em tão pouco tempo, com tão pouco apoio, e com tanto saldo positivo, tem a obrigação ética de mostrar, divulgar, a Serra do Padeiro como um santuário ecológico, uma reserva, um paraíso ecológico, muito bem cuidado pelos índios e que não pode, de forma nenhuma, ser preterido por práticas que só agora estamos a ficar atentos, pós massacres de serras elétricas, substituição de florestas por pastos de gado, plantação de eucaliptos ou exploração turística predatória, com práticas insustentáveis.

Estive na Serra do Padeiro há pouco tempo, fui recebida pelo Cacique Babal e outros representantes da comunidade e sou testemunha do protagonismo indígena na prática da autosustentação, através de organização cooperativada. A Serra do Padeiro tem um sistema de agricultura familiar que deve ser modelo de vida não só para outras aldeias como para outras comunidades tradicionais esquecidas, perseguidas e massacradas historicamente. A avidez do ganho fácil empresarial ou descaso político para a garantia de direitos, assegurados, como a terra, mas não garantidos, estão sabiamente questionados por eles, que reaprendem, resgatam costumes correndo atrás, se informando, se especializando, para tentar garantir o que sabem ser de direito.

O cacique Babal, liderança Tupinambá Serra do Padeiro, é um homem proativo, que valoriza as tradições, tem compromisso com a agricultura sustentável, sabe ouvir a comunidade, balizar e conduzir confrontos. Eles focam suas atividades no quê, quando e onde plantar, como e quando colher, cuidar, distribuir na comunidade para garantir o sustento da atual e futuras gerações. Essa pauta é constante para garantir a terra, base para a vida de todos. Esse cotidiano é fato e deve ser replicado ao mundo, onde ainda se passa fome porque não sabemos fazer como eles, cuidar, preservar, pensar no futuro, nos outros, de forma harmoniosa com a natureza, de onde tudo tiramos limpo e para onde tudo devolvemos sujo.

Autosustentação comunitária

A proposta de autosustentação Comunitária na Aldeia Serra do Padeiro é resultado da luta coletiva diária dos guerreiros índios tupinambás. Com aproveitamento do potencial da terra e da vontade da comunidade em depender cada vez menos de ir à cidade comprar qualquer coisa, o Cacique Babal e lideranças da comunidade Indígena Serra do Padeiro são exemplo multiplicador do que está acontecendo de bom em sua aldeia, para que outros povos possam seguir o mesmo caminho.

A filosofia e prática do trabalho se dá através da valorização e resgate de ações verdadeiramente harmoniosas, com coragem, determinação, disciplina e resultados positivos de povo que trabalha duro, com exemplos de orgulho comunitário, ao saber driblar as adversidades com criatividade, alegria, auto-estima e luta diária do povo Tupinambá da Serra do Padeiro.

Eles são cerca de 900 pessoas, pertencentes a 180 famílias, distribuidas em 17 mil hectares de terra, num território abençoado pelo encanto e presenças divinas, onde as chuvas, constantes, são apenas um dos caminhos para se colocar em prática, a máxima de que “se plantando, quase tudo dá!”. Na Aldeia Serra do Padeiro Tupinambá a presença dos “encantados” pode ser constatada a cada metro que se anda, em meio uma floresta rara, de mata atlântica, onde a biodiversidade é tão rica e presente quanto a própria consciência de cada índio em preservar a área como um presente de Deus, ou dos deuses da mata, como condição para a garantia das futuras gerações, que eles fazem questão de incentivar.

Biodiversidade encantada

No levantamento que fiz com o pajé da tribo tupinambá Serra do Padeiro pudemos identificar uma riqueza biodiversa na serra encantada, divina e rica composta por jequitibás, ararobas, sucupiras, vinhático, aletrinas, cobis, gameleiras, timbaubas, burundangas, pausangue, loros, cedros verdadeiros, cedros cabecinha, buraens, cundurus, oiticicas, jangadas, paus darco, jueranas, mussutaibas, imbirucus, biribas, angicos, pinhos, jacarandás, sapucaias, oitis, biquibas, baraúnas, jacarandás, pinhos onde, da suntuosidade de suas alturas, viviam em harmonia com espécies menores, um pouco mais baixas que elas, a exemplo de outras espécies como murtas, aracás, batingas, mudumrurus de rego, mudunrurus de ferro, mudumrurus cabelo de cotia, ingauçu, cipó de cravo, pai de cravo, cipó dalho,peão, cansação, virasaque, pindaíba, catirina, bapeba, jiniparana, abacate, unha de gato, jenipapo, motibando, onde índios e não índios se embrenhavam mata adento, sem medo, pra buscar o que comer na verdadeira autosustentação, propiciada por outras espécies , de frutas, como banana, laranja, jenipapo, tangerina, cacau, limão, manga, figo pinha, goiaba, coco , dendê além de tubérculos como aimpim, babata doce ou legumes como chuchu, jiló, frutapão, beterraba, maxixe, mangustão, taioba ou grãos como feijão e milho.

Festa dos bichos

E havia a festa dos bichos como corsas, caititus, capivaras, pacas, jupararás, quatis, guaxinins, tatus verdadeiros, tatus rabo de couro, tatus peba, sarues, raposas, cachorros da mata, gatos da mata (ou do mato), sussuaranas parda e pintada, gatos Açu. jupatis, papas-mel, teiús, cotias, lontras, caxixis, preguiças, calangos de coleira, calangos vermelhos, bacurais, caburês, sabiás de paus, formigões. Além de aves que voavam de uma para outra árvore, a exemplo de sangue de boi, sete cor, lavadeiras, guris, periquitos, assanhaços, bem-te-vis, sabiás, assanhaços, sofrês, papa-capins, chorões bigodes, curiós, pássaros-preto, anuns, japus, pica-paus, jandais, cuiubinhas, jandaís, arma de gato, juritis jacupenbas, aranquans, mutiuns, pardais, chorões, nambus, tucanos verdadeiros, tucanos araçaris, tucano de sapos. tucano paós, canarios, bastiões, martin pescadores, socos, quero-queros, perdizes, garças beija-flores, xoros, chupa-limas, pimentões, escarros, garrinchas, azulões,arapongas, sete cores, curujões, corujas, vó da lua, sapucaias, numa comunhão que jamais veremos, com outros bichos aquáticos como: jacarés, traíras, berés, jundiais, piabas, piaus, acauans, tucunares, pitus, cobras preta,entre muitas outras espécies de uma biodiversidade perfeita, que deve ter dado muito trabalho para os estudos de Darwin e que, infelizmente, as futuras gerações só saberão da existência desse paraíso, dessa biodiversidade local, se dermos a chance delas resistirem nesse ritmo insensato de destruição.

Publicação , pesquisa e proteção

É desejo das comunidades que esse registro, narrativo e fotográfico iniciado em dezembro de 2008, possa ser continuado para a edição de uma publicação, catálogo, para que as futuras gerações e pesquisadores possam reforçar a necessidade, urgente, de preservar o que restou, assim como disponibilizar em sites, blogs e ambientes virtuais para o crescimento da inclusão digital nas aldeias. Essa expedição fotográfica pelas florestas indígenas integra o trabalho de pesquisa in loco, dessa jornalista, iniciado nos anos 80, a partir de visita a comunidades tradicionais indígenas como a aldeia mãe Pataxó, Caraívas, Ponta de Corumbau, e outras localidades do sul da Bahia e Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.

Para esse povo que sabe bem o que precisa para viver bem, que já perderam tudo ou quase tudo e que, agora, estão querendo proteger, com unhas, dentes, tacapes e zarabatanas o pouco do restou, para os filhos e netos, fica mesmo difícil entender a defesa de empresários que praticam a monocultura, seja de eucalipto, soja, cana de açúcar, mamona, cacau. ou qualquer outra. Num pais abençoado por Deus e repleto de gente bonita, guerreira, disposta a pegar na enxada, cantando, mas ainda com fome, é inaceitável qualquer idéia que mate, dizime, continue extinguindo paraísos como o da Serra do Padeiro. Se o Brasil realmente que ter compromisso com sustentabilidade precisa deixar, em pé, o que restou das nossas das florestas, com desmatamento zero e para isso precisa conter o ávido desejo do agronegócio predatório.

Cooperatismo autosustentável

O sistema de cooperativa, agricultura familiar, desenvolvido entre homens, mulheres e jovens da Serra do Padeiro, pode ser traduzido na seguinte expressão do cacique Babal ”A gente não se preocupa com o que vai vender e lucrar, e sim com o que vai comer pra não passar fome.” Estive pesquisando diversas tribos indígenas do Nordeste, como os Trukas, Tumbalalas, (durante a greve de fome do bispo franciscano Dom Luiz Cappio, em outubro de 2005 Kaimbes, Kiriris (Mobilização Território Indígena) Tupinambas ( Reforma do Estatuto do Índio) entre outras, e penso que a Serra do Padeiro deve ser divulgada como um exemplo multiplicador do que os índios nos ensinaram, ao longo da história, e que, ano a ano, década a década, século a século, foi sendo negado, esquecido ou subvertido em análises apressadas, descomprometidas ou favoráveis ao massacre indígena testemunhado mundo afora.

Será se ainda não pudemos entender que entre o que índio tenta fazer, em harmonia com a natureza e sem os apoios necessários, e o que os empresários veem fazendo, há séculos, de forma predatória, ainda temos que ter dúvidas do que é melhor para preservar as riquezas de um Brasil que chama a atenção do mundo, com liderança, exatamente porque ainda somos o topo da megabiodiversidade do planeta? A pergunta poderia ser: até quando, como e o quê precisamos fazer, ou não fazer, para continuarmos com esse patrimônio natural que é o Brasil, mas que vem sendo dilapidado, irresponsavelmente?

Na Serra do Padeiro tem pessoas com muita sensibilidade, espíritos antepassados de resistencia e muita coragem para trabalhar e esse é um patrimônio de valor inestimável.

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Da comunidade Serra do Padeiro

Para: Sexta Câmara, FUNAI, Ministério da Justiça, Secretária de Justiça do Estado da Bahia, Câmara de Deputados da Bahia, Governo do Estado da Bahia, Comissão Nacional de Direitos Humanos, e demais autoridades.

Para: APOINME, CNPI, CIMI, ANAI, CESE e demais parceiros.

Prezados Senhores.

Viemos por meio desta externa toda nossa indignação e revolta com a matéria publicada na revista época de 23 de novembro de 2009, quando de forma preconceituosa e difamatória tenta retratar a nossa liderança como um Lampião. A repórter Mariana Sanches e o fotografo Marcelo Min, tiveram a oportunidade de conhecer muito de nossa comunidade, as nossas produções, as nossas casas de farinhas, o nosso colégio, as nossas crianças. Tiveram a oportunidade de desfrutar de toda nossa hospitalidade e conhecerem muito de nossa luta pelo resgate de nossas terras. Mas de forma mentirosa desviou todas as nossas informações, mudando inclusive muita das informações prestadas.

Apesar de nossa revolta com a matéria da época, este tipo de atitude da revista não é nenhuma novidade para a comunidade Tupinambá, pois aqui na região os jornais locais, as rádios em especial as AM, a televisão constantemente fazem isto, nos tratam de forma preconceituosa e difamatória. Por exemplo, o radialista Ribamar Mesquita de Rádio Jornal de Itabuna constantemente usa de seu espaço nesta rádio, para nos acusar de vários crimes, nos difama e até incita a população regional contra a nossa comunidade.

Os Jornais Agora e a Região também de Itabuna nos trata de forma preconceituosa nos chamando de falsos índios, publicando sempre matérias contra a nossa comunidade e também colocando a sociedade contra a nossa comunidade. Mas acreditamos que a culpa da não é só deles, pois a nossa comunidade tem feita várias denuncias sobre esta situação, já vieram várias comissões de Direitos Humanos aqui nas nossas aldeias e estes fatos já foram colocados, e como nada foi feito eles se sentem fortalecidos e no direito de continuar nos atacando, o sentimento de impunidade, de superioridade e o dinheiro de quem os patrocinam fazem com que estas mentiras divulgadas pelo Meios de comunicação se tornem quase uma “verdade absoluta”.

Uma outra situação colocado pela matéria é a posição do delegado Cristiano da Policia Federal e o resultado do inquérito que apurava a tortura conta membros da nossa comunidade, por varias vezes solicitamos das autoridades que um outro delegado viesse acompanhar as investigações, não fomos atendidos e portanto não é nenhuma surpresa que o resultado do inquérito foi que os policiais não cometeram nenhum crime. Que outro resultado poderia sair de um inquérito que é conduzido por um delegado que é o coordenador do comando da operação que terminou resultando na pratica de tortura? Seria esperar muito, que o inquérito apontasse um outro resultado, apesar de todas as provas mostrarem que a tortura foi praticada.

A comunidade encontra-se bastante preocupada, pois a história de perseguição e calunias se repete, os mais velhos nos lembra, que no passado a nossa liderança Marcelino também foi chamado de Lampião e que chefiava um bando aqui na região, colocaram premio pela sua cabeça e diante da falta de autoridade e de nada ser feito a nossa liderança foi assassinada, e o mais impressionante é que após quase cem anos a história se repete do mesmo jeito e com os mesmos atores, esperamos que desta vez a história não tenha o mesmo final.

Um dado interessante que a revista coloca e isto demonstra para todos nós os reais interesses que tem por trás de toda esta trama, é a presença de muita gente grande por trás destas ações, como o banqueiro Arminio Fraga um dos invasores de nosso território, portanto desta vez as Organizações Globo com esta matéria tendenciosa e mentirosa não esta defendendo apenas os interesses dos outros mas também o dela mesmo. Aliás a Globo já mantem esta prática, de defender os interesses dos grande latifundiários, dos banqueiros, dos políticos que a ajudam a se manter no poder contra as pequenas comunidades a muito tempo.

Diante de tudo isto, e de todos estes fatos relatados e os já conhecidos por todos vocês, viemos mis uma vez solicitar que providencias sejam tomadas, mas providencias de verdade. Não dá mais para ficar ouvindo promessas, ficar recebendo visitas, sermos ouvidos por muitas autoridades e não sentimos que as coisas estão andando. Acreditamos que é preciso fazer ainda mais e agilizar a resolução da demarcação de nossas terras.

Que haja um esforço ainda maior das autoridades envolvidas nesta questão em esclarecer e resolver esta situação, como por exemplo, o esclarecimento e os encaminhamentos para que os pequenos produtores sejam reassentados, suas benfeitorias sejam indenizadas, este procedimento pode resultar na retirada de cena de pessoas má intencionadas que tem usado os pequenos agricultores para realizarem seus interesses políticos, colocando os pequenos agricultores contra a nossa comunidade com o repasse de falsas informações.

São estes políticos envolvidos e empresários da região que viram seus interesses abalados pela nossa ação que tem financiado toda esta ação contra a nossa comunidade, a própria matéria da revista época deixa isto muito claro. Eles trazem gente de fora, eles bancam e com certeza devem pagar aos jornais, revistas, radialista para que nos ataque. Vale lembrar que a nossa ação feriu os interesses do tráfico de droga da região, tráfico de animais silvestres, do comércio de madeira ilegal, do agronegócio e isto tem mexido nos bolsos deles.

Por fim, pedimos a todos: autoridades, parceiros, aliados, sociedade regional, nacional e internacional, não deixem que a história se repita com o mesmo final. Queremos apenas viver e lutar pelos nossos direitos e em especial a nossa Mãe Terra. Ela nos pertence. Não permitam que mais uma vez os invasores sejam os vitoriosos nesta história. BASTA DE MASSACRE, DE EXPLORAÇÃO, DE MENTIRA, DE CALUNIA, DE IMPUNIDADE.

Serra do Padeiro, 01 de dezembro de 2009.

*Com informação de Liliana Peixinho | Ativista ambiental.

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