Gerson Mascarenhas | Por Emiliano José

Emiliano José, jornalista, escritor e doutro em Comunicação e Cultura Contemporâneas e professor da Universidade Federal da Bahia (professor aposentado da UFBA).
Emiliano José, jornalista, escritor e doutro em Comunicação e Cultura Contemporâneas e professor da Universidade Federal da Bahia (professor aposentado da UFBA).

O mar recebeu suas cinzas. As águas do mar eram para ele uma espécie de enlevo. Como que escapava do mundo quando do parapeito do Hospital Espanhol olhava para o oceano. Fazia isso como um hábito ou, quem sabe, devoção. Ou, quem sabe, devaneio. Quem sabe deixasse levar-se pelas águas, e, ao ser levado, sonhasse com o mundo livre de injustiças por que lutou durante a existência. Uma vida de dedicação à humanidade. E não se tome isso como uma simples generosidade post-mortem. Tome-se como a mais simples expressão da verdade.

À primeira vista, um homem simples, comum, de convicções profundas, no entanto. Gramsci costumava definir-se dessa maneira quando o queriam maior do que era. Se nos aproximamos um pouco mais, porém, vamos nos deparar com uma personalidade complexa e cheia de sabedoria. Uma sabedoria que ele soube compartilhar com o mundo, com todos que viviam à sua volta, com o círculo amplo que ele construiu no decorrer de sua riquíssima experiência de vida. Nele, conviveram o médico, o espírita e o comunista. Certamente, um comunista heterodoxo. Entretanto, sempre comunista. Ligado ao PCB e de modo particular à sua principal liderança, Luiz Carlos Prestes.

Três filhos: Ivan, Consuelo, Cláudio. Convivi com Cláudio nas lutas políticas. Nas últimas horas, tive a satisfação de conversar com Consuelo, e pude perceber uma incontida, merecida admiração pelo pai, que morreu no último dia 15 de novembro, aos 94 anos. Ela escreveu uma pequena biografia sobre ele, transformada em livro. Tenta capturar as três dimensões do pai: o médico, o socialista, o espírita. E o faz bem, com imenso carinho. Cláudio me falou de suas jovens andanças militantes ao lado do velho militante. Lembra-se do médico-comunista e de suas incursões pelo Subúrbio Ferroviário, pela Liberdade, pelo Barbalho, pelas periferias de Salvador, quase que invariavelmente ao lado de Paulino Vieira, dirigente do velho PCB. Entre os companheiros de seu pai, não se esquece de Aristeu Almeida.

Enfrentou prisões em 1964 e 1968, coisa de três meses no alvorecer do golpe militar, 10 dias na segunda detenção. Talvez sua extraordinária dedicação à profissão, sua singular competência, sua autoridade médica não permitissem fossem muito longe contra ele. Autoridade moral às vezes vale mais do que qualquer outra coisa.

Cláudio me contou um episódio que ilustra a grandeza de seu pai. Luiz Arthur de Carvalho comandou a repressão na Bahia por muitos anos. Foi ele, aliás, quem ordenou minha prisão e me mandou para a tortura. Um dia, o coronel Luiz Arthur procura o veterano médico. Constrangido, é verdade, mas procura. Seguro de que era o caminho mais adequado para as circunstâncias que estava enfrentando. A nora estava às portas de um parto complicadíssimo. Precisava dos cuidados de um profissional experiente, de mãos hábeis e seguras. A criança e a nora foram salvas. À frente do médico não estava a nora do chefe da repressão. Tratava-se simplesmente de um ser humano que abrigava uma nova vida.

O espiritismo também o seduziu. Encontrou-o em 1941, em Jacobina, no interior da Bahia, ao tomar contato com o movimento O Pensamento. Depois, sofre a influência poderosa de Eusinio Lavigne, impressionante figura de comunista e espírita. Lavigne escreveu livros como Os espiritualistas perante a Paz e o Marxismo e Os Espíritas e as Questões Sociais. Tenente-médico, encantou-se com espírita-comunista. Só que durante largos anos, o comunista superou o espírita, como ele confessa à filha. Dedicou-se de corpo e alma à causa comunista, sem nunca deixar de ser um dedicado médico.

Aos 77 anos, no entanto, estimulado por Mayave Valença, volta ao berço espírita, sem, no entanto, deixar de lado sua militância comunista. A amiga Mayave Valença avisou-o que o pai dele – que ela não conhecera, nem sabia o nome – havia se manifestado numa reunião espírita e pedido que ele retornasse ao espiritismo. Uma vida assim, tão merecidamente celebrada pelos filhos, merece em verdade a celebração da humanidade. Todos nós, como as águas do mar, celebramos a venturosa vida de dr. Gerson Mascarenhas. Ele nos mostrou o quanto o homem pode ser bom, generoso, altruísta. Sua vida nos faz acreditar na humanidade.

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