Educação para a formação cidadã

Juarez Duarte Bomfim.
Juarez Duarte Bomfim.
Educação para a formação cidadã.
Educação para a formação cidadã.

A violência cotidiana nas comunidades periféricas é levada para dentro da própria escola, numa espécie de naturalização e banalização do comportamento violento. Porém, a percepção da escola como local de reprodução da violência é apenas uma face da moeda, pois ao mesmo tempo — e principalmente — ela, a escola, é um antídoto contra a violência.

No final de tarde de 4 de dezembro, dia de Santa Barbara e Iansã — eparrei! — este que vos escreve teve o privilégio de participar de Banca Examinadora da dissertação de mestrado do aluno Genivaldo Luiz Santos de Jesus, cujo trabalho acadêmico intitula-se “Educação, direitos humanos e desenvolvimento sustentável: um estudo dos projetos educacionais para uma formação cidadã no bairro de Mata Escura”, bem orientado pelo Prof. Dr. Eduardo José Fernandes Nunes, do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade da Universidade Estadual da Bahia (UNEB),

A Banca foi composta pelos professores doutores Eduardo Nunes (UNEB), Juarez Bomfim (UEFS) e Raphael Rodrigues Vieira Filho (UNEB).

Na defesa oral do seu trabalho de pesquisa, Genivaldo demonstrou entusiasmo e envolvimento com o objeto de investigação — duas escolas públicas do bairro da Mata Escura — numa simbiose que nos leva a perguntar: quem é o sujeito e quem é o objeto de pesquisa? Quem é o observador e quem é o observando?

A Mata Escura é um bairro popular do Miolo de Salvador, com aproximadamente 50 mil habitantes, e tem sido local de desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão coordenados por professores-pesquisadores da UNEB, notadamente o trabalho realizado pelo Prof. Dr. Eduardo Nunes e a sua equipe de pesquisadores.

Um dos frutos desta intervenção na comunidade tem sido a elaboração de inúmeras dissertações de mestrado, analisando e avaliando os projetos executados no bairro e circunvizinhança, notadamente no campo educacional.

Assim é o trabalho monográfico de Genivaldo. Parte interessante da sua dissertação é quando ele põe os atores sociais para falar e faz análise dos depoimentos. São vários os aspectos abordados, como, entre outros, a problemática da violência — nefasta realidade que infelicita o viver urbano.

A violência cotidiana nas comunidades periféricas é levada para dentro da própria escola, numa espécie de naturalização e banalização do comportamento violento, que muitas vezes coloca de lados opostos alunos e professores, vítimas de uma mesma realidade.

Leiam alguns depoimentos: “se um dia eu pudesse mudar de bairro eu queria, mas não é porque não gosto daqui, é por causa da violência”.

E a violência se reproduz dentro do ambiente escolar, com alguns alunos justificando que as suas condutas não são tão violentas quanto as que vivenciam na comunidade: “eles (os professores) dizem que somos violentos, mas eu queria ver eles acordarem no meio da madrugada com a policia chutando a porta… não é porque somos pobres que somos violentos, somos violentos porque essa é a nossa forma de gritar”.

Um depoimento pretensamente politizado: “se eles quisessem diminuir a violência, começariam lá em Brasília onde tem muito bacana engravatado dando uma de bonzinho… agora chegar aqui na Mata Escura e meter a porrada em todo mundo é fácil, depois nós é que somos violentos…”

Porém, a percepção da escola como local de reprodução da violência existente no bairro é apenas uma face da moeda, pois ao mesmo tempo — e principalmente — ela, a escola, é um antídoto contra a violência. Tanto na forma de retirar meninos e meninos do ócio das ruas, que é atraente para a prática do vandalismo, prostituição e banditismo, como também por ser a escolarização o principal degrau para a inserção do jovem no mercado de trabalho legal, o afastando de atividades ilícitas, como o tráfico de drogas.

Para isso, nas escolas pesquisadas são desenvolvidas atividades diuturnas — que abrange os fins de semana — para a maior frequência do estudante à escola e também o desenvolvimento de competências e habilidades nas áreas artística, esportiva, cultural e profissionalizante através do desenvolvimento de projetos de integração social.

Ao final da defesa oral do trabalho de pesquisa, feita pelo mestrando Genivaldo Luiz Santos de Jesus, os examinadores teceram considerações sobre o trabalho monográfico apresentado e, após reunião, decidiram aprovar a sua dissertação de mestrado. A Banca recomenda a sua transformação em artigos ou a sua publicação integral, como forma de divulgação científica.

Seguindo a tradição de prestigiosas instituições universitárias, após o ato acadêmico, o já agora mestre Genivaldo de Jesus gentilmente convidou os membros da Banca e outros convivas para um jantar de confraternização em concorrido restaurante da cidade. A noite de lua (ainda) cheia seguiu alegre e festiva entre o burburinho de vozes e o tilintar de copos e talheres.

Juarez Duarte Bomfim
Sobre Juarez Duarte Bomfim 740 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]