Por dentro do cérebro | Por Marcelo Vinicius

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.
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Quando somente os remédios não resolvem!

Os estudos sobre a atividade cerebral e o mapeamento genético são bastante úteis para a compreensão de características específicas da espécie humana, assim como para a prevenção e tratamento de doenças. Mas, a subjetividade própria ao ser humano, a experiência que ele tem de estar vivo e de ser responsável pelo tipo de vida que constrói para si, isso não pode ser explicado pela neurociência.

Afinal, tomando os sonhos como problema exemplar, a neurociência não é capaz de responder para que o cérebro os produz. Ela até explica porque, mas o objetivo quem melhor propôs uma compreensão foram a psicanálise e a psicologia. Podemos reconhecer esse fato também no que diz respeito às emoções. Saber em que hemisfério cerebral elas se localizam e por quais neurotransmissores elas são produzidas é bastante válido para a descoberta de novos medicamentos para, por exemplo, controlar e combater a depressão.

Mas, por esse caminho passa-se longe da experiência de ser um deprimido, de sofrer por causa da angústia, de ver sua vida transtornada porque não consegue relacionar-se com os outros como as demais pessoas. Existir é ter experiências subjetivas e estas, ainda que possam sofrer influências orgânicas e biológicas, não se resumem a elas. O ser humano explica-se por ser em relação: consigo mesmo, com o outro, com o mundo. É preciso entender como essa relação se configura em toda a sua complexidade. Afinal, o homem não é só seu corpo, mas a sua mente, sua subjetividade.

A neurociência lida com seu objeto de estudo de modo diferente da psicanálise, por exemplo. Quando ela, a neurociência, estuda o cérebro, os neurônios e tudo mais, ela consegue os resultados empíricos que sejam. A psicanálise, por outro lado, tem como objeto, um sujeito. E aí a coisa desanda, pois, o sujeito é justamente o que a neurociência não quer tratar. Ela trata do corpo, não do sujeito.

Então, temos um corpo tratado pela ciência e temos um sujeito que vai dar sentido ao seu próprio corpo. A psicanálise vai querer tratar esse sentido, quais os sentidos que o sujeito foi atribuindo a sua vida ao longo do tempo e isso só é feito na prática. É a partir disto que a psicanálise vai teorizar.

Vamos ao um exemplo: Recentemente, a neurociência descobriu um funcionamento cerebral que revela que os psicóticos realmente ouvem as vozes que dizem ouvir. O funcionamento cerebral faz com que eles tenham a percepção das vozes.

Então, isso é uma coisa geral do cérebro do esquizofrênico. O problema é que cada esquizofrênico ouvirá um conteúdo diferente dessas vozes. Essas vozes terão sentidos múltiplos e é justamente com o conteúdo dessas vozes, que a ciência ignora, é com que o psicanalista vai trabalhar. No fim, pouco importa, para a prática, se a neurociência descobriu qual o funcionamento cerebral.

Outro caso: em um hospital, tinha um paciente que dizia haver um monstro dentro dele e que este monstro sugava suas forças. Ele tinha medo que este monstro o matasse e havia todo um cuidado ao redor disso. Aí um psiquiatra com um medicamento novo, recém lançado no mercado, que era muito eficaz contra essas idéias delirantes, aplicou no paciente. Logo depois o paciente teve uma piora drástica e começou a atacar as mulheres. Foram perguntar a ele o que acontecia e ele disse que, como o monstro havia sumido, ele agora estava forte para atacar as mulheres. De certa forma, o monstro era o que criava uma barreira contra o impulso que ele tinha de atacar as mulheres.

O que temos ai? Temos então um avanço da neurociência traduzido pelo remédio, mas que revela que esse remédio piorou o caso porque aquele sujeito tinha dado um sentido aos problemas que o acometiam.

A psicanálise mostra que por trás do sofrimento do qual o paciente se queixa há um desejo, ou seja, a doença neurótica, por exemplo, não é só algo que a pessoa sofre, mas que a própria pessoa produz, o paciente é responsável por seu sofrimento. A psicanálise não se prende só a doença, mas ao doente, ao sujeito. Aí é que entra a necessidade do paciente atribuir novos significados, introspecções… Atenuando assim o próprio sofrimento.

A necessidade de uma investigação analítica ou psicanalítica, iniciando com os casos de histeria, surgiu também por causa dos medicamentos que apenas proporcionam um alívio temporário dos sintomas, que por sinal é muito freqüente o retorno dos sintomas após a sua retirada, já que não tratam das causas. Além de muitos medicamentos poderem provocar habituação.

Apesar de mais 150 anos da psicanálise ter dito tudo isso, alguns psiquiatras, pois não são todos que pensam assim, ainda insistem em sustentar posições velhas semelhantes às de Breuer, ao dizer, por exemplo, que a depressão é apenas um funcionamento desregular do circuito serotoninérgico. Com isso, todo o tratamento passa a ser apenas questão de abarrotar o paciente com medicamentos como os Prozacs da vida e etc, para que ele não fale e, por conseguinte, não pense sobre o que aconteceu em sua vida que o fez ficar melancólico, ou melhor, o que ele fez para ficar melancólico (Não desmerecendo a psiquiatria, pois todos têm o seu papel importante).

Paradoxalmente, são posturas como essa que fazem a Psicanálise sobreviver. Por que por mais que a fluoxetina regule os níveis de serotonina no organismo, ela jamais reorganizará os significantes que determinam a vida de uma pessoa.

Acredito na multidisciplinaridade. Não existe um tratamento psíquico ou emocional voltado somente para psiquiatria ou somente para a psicologia e sim voltado para a psiquiatria junto a psicologia e/ou a psicanálise. São todos coadjuvantes. É preciso saber com quais tratamentos o paciente responde melhor.

“Na área da saúde mental, é difícil até saber qual é o distúrbio que a pessoa apresenta”, diz o neurocientista Sabbatini. Distúrbios mentais não são como dores de cabeça – não há certeza do que o paciente tem e nem se o tratamento vai ser eficaz como um analgésico. A falta de fundamentação faz das terapias um serviço estranho: elas oferecem um tratamento sem saber se ele vai dar certo. Por causa disso, “a psiquiatria é uma das últimas áreas da medicina que ainda não conseguiu o status de ciência”, diz Sabbatini

Tem um comentário que faz uma analogia, uma metáfora bem descontraída, informal, mas que oferece uma explicação resumida sobre o assunto abordado, segue:

“Quanto a neuropsicologia, me parece tão simples: é claro que são mecanismos físicos que operam dentro da cabeça dos homens, que movimentam sua fala e seus desejos. Do mesmo modo, é um motor que me leva na Mercedes. Mas você pode estudar o motor o quanto quiser, pode desmontá-lo, compreender todo o seu funcionamento que ele jamais te dirá porque me levou à praia em vez de me levar para o enterro da minha mãe, em Petrópolis. É claro que o motor pode ter um defeito e me impedir de chegar à praia. Mas não dirá porque não enguiçou na Rio-Petrópolis”. (Luiz Eduardo Borgerth, advogado, TV Globo).

“Deixemos que a neurologia e a psicanálise avancem cada vez mais com o uso de suas respectivas ferramentas” (ADMAR HORN)

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