O tornozelo de Luciano Ferreira

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.
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Surpreendentemente, a jovem senhora elogia os gordos tornozelos dos pés de Luciano Ferreira, Almirante das areias da praia de Pituaçu.

O fotojornalista Evandro Teixeira é uma lenda viva. Imagine qualquer episódio da vida pública brasileira dos últimos 51 anos e é certo que ele estava lá. Diz a lenda que ele só não esteve no Palácio do Catete para flagrar o trágico 24 de agosto de 1954 porque, na oportunidade, ainda sonhava em migrar da sua saudosa Jequié (BA).

Mas daí pra frente não perdeu mais nada. As lentes da sua pentax registraram tudo: os presidentes, os movimentos sociais, guerra & paz… tudo.

A antológica fotografia tirada em 1968, quando da “Passeata dos Cem Mil”, na Candelária (Rio de Janeiro) foi motivo de um projeto vitorioso seu: o livro “68 Destinos”, que reúne entrevistas com 100 pessoas identificadas na famosa foto que registrou aquele episódio. E o destino dos personagens, 40 anos depois, são os mais diversos: desde casamentos feitos e desfeitos até aqueles que continuaram ou deixaram de amar a revolução…

Pois não é que estava o Evandro contando a história de seu livro, numa ensolarada tarde de verão antecipado em Salvador, há uma reduzida e desatenta plateia, embevecidos pela brisa marinha e eflúvios etílicos, quando é interrompido por uma jovem senhora, que elogia os gordos tornozelos dos pés de Luciano Ferreira, Almirante das areias da praia de Pituaçu.

Todos os presentes — já agora atentos — se surpreenderam com tal declaração, que ao enciumado poeta Fernando Coelho, pareceu descabida. E bradou:

— Ora… São tornozelos inchados de cachaça!

No que foi injusto com o Amigo Luciano, pois Luciano não considera a sua preferida abaíra uma mera cachaça. Para ele, mais parece um elixir…

Todavia, narro este prosaico episódio porque uma inusitada cena e eruditos diálogos se sucederam… Pois não é que a entusiasmada senhora, aficionada pelos protuberantes tornozelos do nosso herói, instou o grande fotojornalista Evandro Teixeira a registrar na sua máquina tal detalhe da anatomia lucianística?

Estupefatos, vimos o príncipe do fotojornalismo brasileiro se ajoelhar solicitamente aos pés do prócer dos Ferreira em busca de melhor ângulo dos seus já célebres tornozelos.

E o Coelho poeta continua a bradar, indignado:

— É inchaço de cachaça!

Ao que, um ativo espectador, versado em ciências médicas, complementa:

— É ácido úrico…

Um douto antropólogo presente, Nivaldo Costalino, baseado em evidências étnicas, polidamente corrigiu o poeta zoonímico:

— Prezado Fernando, no que preze a preferência de Luciano por abaíras e januárias, os grossos tornozelos do Almirante das areias da praia de Pituaçu, nosso Buda Nagô, evidencia mesmo é a sua origem étnica de negro-angola, temperada pela mestiçagem baiana, que o faz parecer com um guru indibaiano.

Um outro especialista no assunto, o sociólogo Júlio Sena, completa:

— O ignominioso escravismo brasileiro discriminava os negros-angola, de tornozelos grossos, como preguiçosos, enquanto os negros-bantu, de tornozelos finos, eram vistos como trabalhadores.

Confirma o antropólogo Costalino:

— Isso porque, enquanto os negros bantu eram afeitos ao trabalho doméstico, muitos deles alfabetizando os filhos de senhores iletrados, os negros angola eram tidos apenas como aptos ao trabalho no eito, pouco valorizado.

Filosofa o sociólogo de plantão:

— Se a origem da preguiça lucianística está nos tornozelos grossos, não sabemos. Porém, não esqueçamos que esta é uma preguiça positiva, de ócio criativo, pois enquanto descansa na rede da sua casa, entre orquídeas e bromélias (não confundir com romélios…), Luciano arquiteta novos eventos para o verão de Pituaçu, revivendo as quartas nobres de luau.

Disfarçando o ciúme, que deu origem a tão erudita discussão, o poeta Fernando dissimula:

— Eu só estou é preocupado com a saúde do Amigo…

E propõe um brinde à alegria e à amizade.

A morna tarde de sol avança, na brisa marinha que faz brotar o diz-que-diz-que mansinho que desce dos coqueirais.

Juarez Duarte Bomfim
Sobre Juarez Duarte Bomfim 740 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]