Entrevista concedida pelo presidente Lula, durante o 9º Congresso Nacional de Iniciação Científica

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante cerimônia de abertura do 9º Congresso de Iniciação Científica.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa durante cerimônia de abertura do 9º Congresso de Iniciação Científica.

9º Congresso Nacional de Iniciação Científica e 7º Congresso Internacional de Iniciação Científica São Paulo-SP, 13 de novembro de 2009.

Jornalista: Presidente, e o apagão?

Presidente: Uma pergunta ou duas? É essa a pergunta?

Jornalista: O senhor recebeu algum esclarecimento…

Presidente: Não, eu quero saber se é essa a pergunta.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Olha, deixa eu contar uma coisa para vocês, respondendo à pergunta, mas uma coisa um pouco mais… para vocês entenderem. Eu tenho acompanhado com muita atenção o que tem acontecido. E eu acho que há uma pequena deformação ou incompreensão em tentar fazer qualquer comparação entre a falta de energia que houve e um apagão por falta de geração de energia.

Eu tenho visto pessoas na televisão, até com ar de satisfação, porque aconteceu o apagão. Como eu sou um homem que gravo muitas coisas e tenho a cabeça que guarda muitas informações, eu tenho notado algumas pessoas falando do apagão com o mesmo prazer que falavam, culpando o governo quando o avião da TAM, aconteceu aquele acidente, no aeroporto de Congonhas, em que escreveram primeiras páginas dizendo que “o governo iria carregar 200 mortos nas costas”, depois jogaram a culpa que era a Infraero, e depois jogaram a culpa… até que a verdade foi aparecendo, aparecendo, aparecendo, e prevalece que houve uma falha humana no avião da TAM, que deve ter tido problemas técnicos.

Pois bem, o que está acontecendo agora? Inegavelmente, qualquer brasileiro deve ter motivo de orgulho do sistema e do modelo energético brasileiro. Ou seja, o nosso sistema é robusto, ele tem… é muito bem estruturado. Agora, nada neste mundo pode ser tão estruturado que possa suplantar alguma coisa causada por intempérie ou por falha humana, que não sabemos ainda.

Então, numa primeira fase, em um acontecimento desses, você tem a turma do “eu acho”. Então, na televisão apareceu o “achismo” em primeiro lugar. Depois do “achismo” apareceu o “acreditamos”, em primeiro lugar. Depois o “parece”, parece que foi isso, parece que foi aquilo.

Eu não falei nada porque, primeiro, eu tinha que ouvir as pessoas que têm que cuidar disso. Nós temos a EPE, nós temos a Aneel, nós temos a ONS, temos o Ministério das Minas e Energia. E eu só posso trabalhar com as informações técnicas que eles me dão, e acreditar que seja possível um processo de investigação para que a gente saiba se tem coisa além do que eles me colocaram, de [que] foi por conta das intempéries.

Eu disse à Aneel, disse à ONS, que é preciso ter um processo de investigação em toda a trajetória, e nós temos instrumento para isso, para que a gente descubra realmente o que houve. Por que, se o sistema é robusto, como nós acreditamos que seja e é eficiente como nós acreditamos que seja, e que você tinha geração de energia à vontade, por que então nós tivemos esse desastre?

Então, o que eu quero é que, quando tiver um resultado final, depois de uma apuração muito correta, a opinião pública brasileira fique sabendo: aconteceu isso e isso, e isso. Se alguém pergunta para mim: “Mas, Presidente, pode acontecer alguma coisa outra vez?”. Olha, a única chance de não acontecer nada neste país é se Deus quiser que não aconteça. Fora de Deus, os seres humanos estão todos plausíveis de erros e de coisas que eles não controlam.

Jornalista: Mas o senhor acha a oposição oportunista?

Presidente: Não, não acho. Eu nem falei em oposição. Mas eu não falei em oposição, você que falou.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Não, não, eu não falei… Mas eu não disse que era oposição. Mas eu nem citei…

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Pessoas que vocês entrevistam, vocês que sabem quem são. Eu vejo as pessoas na televisão…

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Não. Não acredito que vocês estão querendo conversar com a oposição sobre isso. Seria melhor conversar com um especialista, com gente que entendesse do assunto, porque esse não é um assunto de análise política, esse é um assunto de análise técnica, sobretudo, é um caso de engenharia, muito específico.
Então, o que eu acho é apenas isso. O que eu acho é o seguinte: como eu compreendo o termômetro da sociedade, eu quero dizer: nós estamos na fase do “achismo”. Agora, quando terminar a fase do “achismo”, nós vamos entrar na fase mais objetiva, que são os resultados concretos e objetivos de toda a investigação.

Jornalista: Não está encerrado o caso, então, para o senhor?

Presidente: Veja, eu acho que o caso, na minha opinião, foi muito delicado, porque é um caso em que não estourou nenhuma torre, que não desmontou, e aconteceu um blecaute sem tamanho.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Ora, quem é que não foi pego de surpreso, meu amor? Quem não foi? Todo mundo. Eu não fui pego de surpresa porque na minha casa não faltou, lá em Brasília. Mas quem estava em casa foi pego de surpresa.

Jornalista: Presidente, o senhor trabalha com a possibilidade de, além de um raio…

Presidente: Hein?

Jornalista: O senhor trabalha (incompreensível) que a investigação apure sobre alguma outra coisa. O senhor ainda tem essa dúvida?

Presidente: Veja, eu já vi tanta coisa. Eu fico sempre com cuidado porque outro dia eu vi um cidadão dizer: “Um raio era capaz de dizer [fazer] isso”. Depois, eu ouvi o pessoal dizer: “Não, um raio pode causar, o que a gente não pode dizer é o tamanho que pode causar”. Isso é como uma pedra que você joga, você não sabe para onde ela vai. Você jogou, ela bateu no chão, ela vai ganhar contorno diferenciado. Então…

Jornalista: Presidente, só para concluir…

Presidente: Então, veja, deixa eu lhe falar uma coisa: Eu acho que foi uma coisa grave, que nós precisamos saber o que é. A única coisa que eu posso dizer ao povo brasileiro em alto e bom som é que o povo brasileiro não terá nenhum problema de falta de geração de energia, porque o Brasil está produzindo mais oferta do que a demanda de energia. Esse é um dado…

Jornalista: O senhor descarta sabotagem?

Presidente: Eu descarto gente, eu descarto. Até porque quem quer fazer sabotagem para o Brasil neste momento em que o Brasil está vivendo uma situação tão bonita, sabe… eu não acredito. Eu acho que é preciso misturar as investigações. Você tem Furnas investigando, você tem a Aneel investigando, você tem o ONS investigando, ou seja, é preciso que a gente faça tudo o que tiver que fazer para que a gente, quando apresentar o relatório, não seja um relatório precipitado, que tenha uma conclusão que ainda não é conclusiva. Como é uma coisa muito específica, que envolve gente muito sabida, gente muito estudada e muito letrada, muita engenharia no pedaço, sabe, eu prefiro ficar aguardando que tenha. Tem gente que fala: “Ah, foi energia demais de Itaipu”.

Vamos ver se foi, vamos ver se a carga está demais. Tem gente que fala: “Ah, foi falta de cuidado, um erro humano”. Vamos ver se foi. Um outro fala que foi um raio. Vamos ver se foi. Em algum momento, nós vamos dizer para o país: Olhem, foi isso, isso, isso, isso, é definitivo ou o que os companheiros já falaram está correto.
O que é importante, o que é importante gente, o que é importante é que nós estamos com o país funcionando corretamente, sabe. Tanto é que vocês estão com essas luzes fortes na minha cara, acesas.

Jornalista: Isso é bateria, Presidente.

Presidente: E, eu acho que, eu acho que não há nenhuma razão, nenhuma razão para que alguém fique pensando que foi uma coisa maior do que realmente foi.

Jornalista: Presidente, isso prejudica a imagem do governo na virada do ano eleitoral?

Presidente: Ah, eu não acredito.

Jornalista: Presidente, Presidente,…

Presidente: Tem gente que gostaria..,

Jornalista: Quem gostaria, Presidente?

Presidente: Não sei…

Jornalista: Presidente, o senhor (incompreensível) em Copenhague e as mudanças no pacto florestal?

Presidente: Não, eu vou ter uma reunião hoje à tarde. Vou ter uma reunião às 5 horas da tarde…

________: Três.

Presidente: Três horas da tarde. Por isso é que está…

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Também.

Jornalista: Foi definido qual?

Presidente: Já está acordado, falta prepararem para que eu assine. As coisas estão funcionando bem.

Jornalista: E o senhor vai anunciar…

Jornalista: No caso Battisti, o governo…

Presidente: Meu filho, você quer que eu fale sobre uma decisão que ainda não aconteceu, meu amor? Quando dá empate, em futebol eu dou palpite, mas na Justiça, Deus me livre.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Não, gente, olha… Sabe o que eu pensei? Que vocês iam perguntar para mim do desmatamento.

Jornalista: Também.

Presidente: Porque…

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Não, eu nem falei com vocês ontem, eu nem falei com vocês. A verdade é o seguinte, é que nós batemos recorde dos recordes, dos recordes, na diminuição do desmatamento. Num sinal extraordinário de que Deus está conosco, de verdade. Deus está conosco, de verdade. Então, vocês imaginem que nós vamos chegar em Copenhague, para discutir a questão do clima, com a mesma força que nós chegamos para discutir as Olimpíadas, muito forte e com muita razão. Primeiro, porque vamos apresentar uma proposta arrojada.

Jornalista: Qual a proposta?

Presidente: Não, eu não posso falar. Nem fizemos a reunião, rapaz. Mas fique tranquilo. Gente, no mais, eu queria…

Jornalista: Mas dá uma palhinha para a gente, Presidente, dá uma palhinha da reunião, qual é a expectativa…

Presidente: Não, mas deixa terminar a reunião. Depois que terminar a reunião, a Dilma fala com vocês, o Sergio Rezende fala com vocês.

Jornalista: Vai falar (incompreensível)

Presidente: Hein?

Jornalista: O código florestal, também, a Dilma vai nos dar hoje? O que o senhor decidiu?

Presidente: Eu não sei se estão aí os dois ministros que ficaram de fazer o acordo. A informação que eu tive é que o acordo está feito e que eles se colocaram de acordo.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Não. Se o acordo foi concluído, que me disseram que foi, eu resolvo isso na semana que vem, quando eu voltar de Roma.

Jornalista: Presidente, o senhor pretende ir a Copenhague?

Presidente: Pretendo. Vai depender muito da quantidade de chefes de Estado que compareçam à Copenhague. Eu já tenho informação de que o Presidente da França vai, que o Primeiro-Ministro do Reino Unido vai…

Jornalista: O senhor ligou para alguém, para tentar convencer?

Presidente: Você sabe que eu fiquei de ligar para o Obama, para conversar, antes de ele conversar com o Hu Jintao, e vou ter que ligar agora, de Roma, para ver se ele vai. Mas ele, eu acho que não vai poder ir.

Jornalista: Fala pelos dois, Presidente, (incompreensível), gostou de ser poderoso?

Presidente: Ah, não. Uma, porque me colocaram como poderoso, porque o Brasil vende soja, pô.

Jornalista: Ah, não, essa foi para o Blairo Maggi.

Presidente: Aí o poderoso é o Blairo Maggi.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: O Brasil vende laranja, vende… O Brasil… É que o Brasil… Veja, mas o Brasil não pode ser grande porque vende laranja, vende (incompreensível), vende suco de laranja, gente. Este país é grande por outras razões.

Jornalista: Presidente, aproveitando essa questão, então. (Incompreensível) aí para a tecnologia, para a educação. O senhor falou que nós vamos ter (incompreensível) antes de 2010, 214 escolas técnicas. Nós temos aí o desafio do pré-sal, nós temos as Olimpíadas… Nós temos mão de obra para hoje estar trabalhando nas empresas e poder dar um salto dentro dos Brics?

Presidente: Olhe, eu acho que uma coisa razoável, que não deixa um Presidente nervoso, é quando ele sabe que as empresas estão ofertando mais vagas para funções qualificadas do que a gente tem para oferecer, porque significa que o emprego está crescendo. Se por um lado é ruim a gente não ter toda a mão de obra necessária, por outro lado significa que o mercado está propenso a aceitar os investimentos na formação e na qualificação das pessoas.

Eu acho que o Brasil está preparado para crescer de forma contínua. O dado concreto e objetivo é que o Brasil aprendeu, o Brasil gostou e está levando a sério essa possibilidade de mudar de patamar. E eu tenho dito para todo mundo: isso não é conquista de um governo, isso é uma conquista da sociedade, que soube se comportar com muita dignidade durante a crise econômica. Porque durante a crise econômica, se a gente não tomasse cuidado, a sociedade teria entrado em pânico, porque, em alguns lugares do mundo, parecia que o mundo ia acabar. Eu fui para a televisão dia 23 de dezembro dizer para o povo que ele tinha que comprar, que se ele não comprasse, ele ia perder seu emprego, porque a roda da economia iria parar de girar e aí as pessoas iriam perder o emprego. Então, eu estou muito satisfeito porque o Brasil está indo bem.

Tem gente que não gosta, mas paciência. Acho que o Brasil está indo bem, acho que o Brasil vai melhorar, acho que o povo compreendeu, o povo está gostando de viver melhor, o povo está gostando de estudar mais. É para tudo isso que a gente deseja.
Eu, quando deixar a Presidência da República, eu vou ser o primeiro presidente da República que vou torcer, rezar, todo santo, dia para que quem me suceder faça muito mais coisa do que eu. O dobro, o triplo. É isso que eu vou torcer, porque, lamentavelmente, a prática histórica deste país é que quem perde torce para o outro cair em desgraça. Então, eu quero ver se, pela primeira vez na história do Brasil, um presidente da República torce para o outro dar certo.
Um abraço.

Jornalista: Obrigada, Presidente.

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