Entrevista coletiva concedida pelo presidente Lula, após a cerimônia de inauguração do Ginásio Esportivo e Cultural Jamelão

Presidente Lula: É importante que os governadores dos estados e os prefeitos comecem a definir as novas prioridades dos seus estados, seja estrada, seja ferrovia, seja urbanização de favelas, seja habitação.
Presidente Lula: É importante que os governadores dos estados e os prefeitos comecem a definir as novas prioridades dos seus estados, seja estrada, seja ferrovia, seja urbanização de favelas, seja habitação.

Presidente: Me fizeram uma pergunta sobre o cartão de crédito e o cheque especial, e eu contei até uma pequena história, que é a minha história. A primeira vez que eu recebi um cheque especial, eu achei que eu estava sendo tratado como se fosse um cliente muito especializado. Somente quando você não pode pagar no dia é que você percebe que você não é nenhum cliente especializado. Você, no fundo, no fundo, paga uma taxa de juros, que não existe nenhuma explicação para as pessoas cobrarem a taxa de juros.

Essa tem sido uma briga minha. Essa briga aumentou depois da crise econômica porque o spread bancário aumentou muito. E eu acho que todos nós, sobretudo gente da classe média que tem cartão de crédito e cheque especial, precisa ter em conta o que vai pagar de juros, se não cumprir o pagamento na época certa. No fundo, no fundo, se ele começar a pagar juros, ele vai ficar inadimplente porque ele não vai conseguir pagar nunca mais. Não existe nenhuma explicação para que os bancos cobrem a quantidade de juros que cobram em cartão de crédito e em cheque especial, porque todos que têm cartão de crédito e cheque especial são considerados clientes especiais, clientes com conta bancária há muito tempo, clientes do banco. Portanto, eu fiz a crítica, sustento a crítica. Já conversei isso com o Meirelles, já conversei isso com o Guido Mantega, e é um trabalho que nós temos que fazer para reduzir o spread bancário no Brasil, que continua muito alto.

Jornalista: Presidente, (incompreensível) irão se reunir com a ministra Dilma em 2011 para tratar do PAC II. O senhor está garantindo a presença da Ministra em 2011 para (incompreensível)?

Presidente: Veja, eu falei que nós vamos nos reunir até janeiro ou fevereiro de 2010 para preparar o PAC 2011-2015. E por que nós temos que preparar o PAC em 2010? Porque já no orçamento para 2011 nós precisamos colocar dinheiro no PAC, para que quem comece a governar, comece já com as obras prioritárias bastante definidas, com dinheiro colocado no orçamento, para a máquina não parar. A pior coisa que pode acontecer em um país é você ter uma paralisia num sistema de obras de infraestrutura. Então, como nós aprendemos a fazer obras depois que nós fizemos o PAC 2007-2011, nós vamos aprender a fazer mais ainda, de forma aperfeiçoada, o PAC de 2011 a 2015.

É importante que os governadores dos estados e os prefeitos comecem a definir as novas prioridades dos seus estados, seja estrada, seja ferrovia, seja urbanização de favelas, seja habitação. Tudo o que for necessário e prioritário tem que ser colocado no papel para que a gente comece, em 2011, um novo PAC, com uma nova etapa de desenvolvimento.

Eu disse também que eu sonho que não estará muito longe o dia em que a gente vai chegar ao Rio de Janeiro, em São Paulo, em Recife, em Salvador, e a gente não vai mais falar “vamos à favela tal”. A gente vai dizer “vamos ao bairro tal”, porque o que era favela se transformou em um bairro digno de as pessoas pobres morarem.

Jornalista: (incompreensível) no Nordeste a falta de asfalto. (incompreensível) como é que o senhor vê essas coisas?

Presidente: Veja, essa falta, em vez de eu ficar procurando quem é o culpado, eu tenho que, de uma certa forma, até ficar um pouco feliz, porque quando eu vejo que falta cimento, falta engenheiro, falta asfalto, é porque como o Brasil está com uma demanda muito grande – existe uma demanda maior do que a oferta – esse problema vai se apresentar. Eu tenho um monte de empresários que se queixam para mim de que não tem engenheiros e outros empresários que se queixam de que não tem pessoas para colocar azulejo. Tem empresas que reclamam que não tem soldador. Ora, por quê? Porque o Brasil ficou 25 anos sem crescer. Na medida em que o Brasil começa a crescer, e começa a crescer de forma muito forte, a gente começa a sentir falta.

Isso é um problema, mas é o chamado “bom problema”. Significa que nós temos que produzir mais asfalto, mais cimento, mais telha, mais tijolo, porque o Brasil não estava habituado com um programa de casas para fazer um milhão de casas, o Brasil não estava habituado a fazer saneamento básico. Só para vocês terem ideia, no ano de 2002, todo o dinheiro gasto com saneamento básico significou R$ 262 milhões, no Brasil inteiro. Nós temos mais de 400 milhões só em uma favela do Rio de Janeiro. Ou seja, então nós multiplicamos por 50, por 100. Então, agora essa demanda forte que está acontecendo vai exigir que o Brasil dê um salto de qualidade na produção das coisas necessárias para construir as estradas, as ferrovias, os viadutos, as casas e as ruas que nós precisamos construir no Brasil.

Jornalista: Presidente, qual será o reforço de verba federal da segurança no Rio?

Presidente: Veja, não foi definido porque teve a primeira conversa entre o governador Sérgio Cabral e o ministro Tarso Genro. Ontem à noite o Tarso Genro me contou a conversa que teve com o Sérgio Cabral. Agora, os dois vão ter que se sentar outra vez e dar forma jurídica. O ministro Tarso Genro disse hoje, em uma entrevista que deu em Brasília, que não tem limite para a gente ajudar o Rio de Janeiro, porque para nós será uma coisa muito forte mostrar ao mundo que o Estado brasileiro e a parte boa da sociedade brasileira têm mais força do que o crime organizado e do que o narcotráfico. Por isso, nós vamos cuidar disso com muito carinho.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Gente, mais duas perguntas. Eu vou ver, uma aqui e depois você. O 2007 será atendido já.

Jornalista: O senhor já passou (incompreensível) esta semana com o pessoal da Fiesp, houve uma demanda (incompreensível). O senhor vai, realmente, prorrogar o IPI?. E com relação ao dólar, há ainda essa preocupação (incompreensível) do governo, do Palácio do Planalto com a queda (incompreensível).

Presidente: Ele deu uma paradinha ontem e antes de ontem. Vamos…

Jornalista: (incompreensível).

Presidente: Veja, deixa eu falar uma coisa para você. Nesses sete anos de governo, eu tive a seguinte experiência: entra um importador na minha sala, ele quer que o dólar esteja o mais barato possível porque ele quer pagar, pelo produto que ele compra, menos dólares. Sai o importador e entra um exportador, ele quer que o dólar esteja o mais alto possível porque ele quer exportar por um preço maior. Ora, qual é o papel do governo? É estabelecer um certo equilíbrio. Não existe um número certo. Uns dizem que é R$ 2, outros dizem que é R$ 1,90, R$ 1,80. Não existe…

O que existe é o seguinte: nós temos consciência de que a entrada de muitos dólares no Brasil, de forma exagerada, pode baixar muito o preço do dólar e sobrevalorizar o nosso real. Isso dificulta o quê? As exportações. Facilita as importações. A gente vai ter déficit na balança comercial e, portanto, a gente pode ter déficit na conta-corrente, o que não é bom para o País. Daí por que nós trabalhamos na perspectiva de manter sempre o equilíbrio, ou seja, que seja importante para o exportador, importante para o importador e importante para o País.

Por isso é que o Banco Central está comprando dólar – nós vamos comprar tantos quantos dólares apareçam no mercado – e é por isso que nós criamos o IOF, para que a gente crie um pouco de dificuldade com a entrada fácil de dólares, porque o Brasil passou a ser um país visto como se fosse “a bola da vez”, e nós não podemos, não temos o direito de ficar à mercê da especulação. O cidadão que, para ganhar um pouco de dinheiro, vem aqui no Brasil, coloca um monte de dólares e 30 dias depois tira os dólares [e vai] embora. Por isso é que nós criamos o IOF. Quanto mais tempo ficar, menos ele paga. Portanto, eu acho que isso foi uma medida acertada, e o efeito dessa medida não é no dia seguinte, gente. Isso leva um tempo para amadurecer.

Então, nós estamos trabalhando porque, para nós, o dólar fraco não presta e o dólar forte demais não presta. Então, encontrar o ponto de equilíbrio para o dólar é extremamente importante. Eu não saberia dizer… Talvez algum economista pudesse dizer: “Se ficar R$ 1,80 está ótimo, R$ 1,90”. Eu não quero dizer. Eu quero que… Vai ter um momento em que ele vai parar. Quando ele parar, é o momento importante do equilíbrio, significa que todo mundo está tranquilo com relação ao dólar.

Jornalista: E o IPI?

Presidente: Nós não queremos criar bolha no Brasil, como foi criada bolha em país desenvolvido, porque depois quem fica com prejuízo é a parte mais pobre da população.

Veja, com a questão do IPI. Ontem, eu disse em Brasília que… eu não posso dizer para vocês se vai manter ou se vai acabar, porque isso tem uma avaliação feita sistematicamente pelo Ministério da Fazenda, que vai acompanhando as vendas, vai acompanhando o resultado disso no varejo, e é em função disso que eles tomam a medida. Vocês podem ficar certos de que nós fizemos todas as medidas necessárias, anticíclicas, porque era preciso retomar o crescimento econômico do Brasil.

Hoje, até os mais céticos já sabem que o Brasil é o país que tem hoje o melhor comportamento, no mundo. Ninguém tem dúvida de que o Brasil é o país que mais acertou no enfrentamento da crise. É por isso que este ano, enquanto o mundo desenvolvido ainda sofre com o desemprego, nós vamos criar 1 milhão, talvez 1 milhão e cem mil empregos com carteira assinada este ano, o que é uma novidade excepcional para o nosso país.

Se a economia crescer, como nós estamos prevendo, no ano que vem, nós teremos mais facilidade de discutir se mantém IPI ou se não mantém IPI. Por enquanto, fiquem tranquilos porque o Ministro da Fazenda vai tomar a decisão na hora certa e avisar na hora certa. E vai fazer sempre aquilo que for melhor para o país e para o consumidor.

Jornalista: Presidente, (incompreensível) a sua resposta, Presidente?

Presidente: Gente, espera aí, a pergunta de 2007. Se eu não responder, como é que vai ficar?

Jornalista: (incompreensível) 2007…

Presidente: Não houve. Ora, porque se fosse fácil teria acontecido em 2006, em 2005, em 2004, em 2003. Ora, quando você está lidando, quando você está lidando com gente anormal, e o bandido é anormal, o normal somos nós, vocês. Se você, em vez de estar me perguntando com essa tranquilidade que você está, se você estivesse com um revólver apontado para a minha cabeça, eu estaria tremendo aqui. Então, nós somos os seres normais; um bandido não é normal. Então, achar que é fácil enfrentar uma quadrilha organizada é apenas ilusão, é difícil. É preciso investimento na inteligência.

O Sérgio estava me contando que aqui ele faz um concurso, apresentam-se 30 mil pessoas e depois só 600, 700 querem trabalhar, porque o salário é pequeno. É preciso melhor o salário, é preciso investir em inteligência. E é por isso que eu pedi para o ministro Tarso Genro vir ao Rio de Janeiro, para que estabeleça com o Sérgio uma programação de investimento na segurança do Rio de Janeiro, porque o Rio tem que ser tratado de forma muito especial. Porque o Rio de Janeiro é uma caixa de ressonância para o mundo inteiro e, portanto, nós temos mais obrigações e mais compromisso com o Rio de Janeiro.

Se não conseguiu pacificar… Veja, eu trabalho com a ilusão, eu … trabalho com a ilusão de que a gente possa repetir com as obras do PAC, no Complexo do Alemão, em Manguinhos, na Rocinha, a tranquilidade que nos já tivemos no Santa Marta.

Jornalista: Na Cidade de Deus.

Presidente: Na Cidade de Deus.
_________: (incompreensível)

Presidente: Eu acho que a gente pode… É difícil, porque se bandido sai de um lugar, ele vai para outro. Ou seja, é o tempo inteiro correndo atrás, até que você consiga prendê-lo ou você consiga desmontar a quadrilha. É um trabalho difícil. O que é importante é saber que o Governador tem vontade, o Presidente tem vontade, o Ministro da Justiça tem interesse, o Secretário de Segurança Pública tem interesse, e se a gente somar os esforços e não ficar discutindo “merreca” de dinheiro, a gente pode resolver esse problema com mais facilidade. No mais eu tenho que voar, porque o helicóptero está com problema do tempo.

Rio de Janeiro-RJ, 28 de outubro de 2009.

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