Salvador: Este país foi feito para gente que pensa como o Brasil, que tem a alma do povo brasileiro | Por Luiz Inácio Lula da Silva

Lula: Na democracia, nós temos que aprender a conviver com a diversidade. Nem todo mundo gosta da gente. Então, nós temos que separar o joio do trigo, não misturar as coisas para que a gente fique bem. Se eu ficasse com mágoa, quem iria sofrer era eu.
Lula: Este país não foi feito para doutor governar. Este país foi feito para gente que pensa como o Brasil, que tem alma como o Brasil, que chora com os brasileiros, que trabalha como os brasileiros, que conhece o dia-a-dia dos brasileiros, governar o País.
Lula: Na democracia, nós temos que aprender a conviver com a diversidade. Nem todo mundo gosta da gente. Então, nós temos que separar o joio do trigo, não misturar as coisas para que a gente fique bem. Se eu ficasse com mágoa, quem iria sofrer era eu.
Lula: Este país não foi feito para doutor governar. Este país foi feito para gente que pensa como o Brasil, que tem alma como o Brasil, que chora com os brasileiros, que trabalha como os brasileiros, que conhece o dia-a-dia dos brasileiros, governar o País.

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva: Obviamente que eu não faço nenhuma ligação entre a admiração que eu tenho pelo artista Caetano Veloso, e as visões e concepções políticas que tem o Caetano. Eu acho que como cantor ele é excepcional, como artista é excepcional. Agora, como político, o Caetano nunca esteve do nosso lado. Então, eu não tenho o que reclamar porque ele gosta ou não gosta de mim, porque ele acha [isso] ou aquilo de mim. Eu disse noutro dia, em uma entrevista, que eu me vinguei do Caetano: no dia em que ele disse isso, cheguei em casa, peguei um CD do Chico Buarque, o Chico Político [O Político], e ouvi duas vezes, e lavei a minha alma.

Liguei para a dona Canô porque eu vi na imprensa que ela estava preocupada, que ela estava chateada, e eu tenho uma relação com a dona Canô de filho para mãe, gosto dela. Então, eu liguei para ela para deixá-la despreocupada, que eu não tinha mágoa, que eu não tinha ressentimento, e que isso não muda nada na minha vida, ou seja, eu continuo gostando do Caetano como cantor e ele, certamente, continua não gostando de mim como político.

E é assim que a vida é. Na democracia, nós temos que aprender a conviver com a diversidade. Nem todo mundo gosta da gente. Então, nós temos que separar o joio do trigo, não misturar as coisas para que a gente fique bem. Se eu ficasse com mágoa, quem iria sofrer era eu, porque esse negócio de a gente ficar com mágoa, com ressentimento, a pessoa de quem a gente tem ressentimento não sabe, então ela não sofre. Mas você fica se remoendo, sofrendo, começa a ter azia, começa a ter gastrite, e eu não estou em idade para ter isso. Então, Caetano viva a vida dele, eu vivo a minha, ele vota em quem ele quiser, eu voto em quem ele [eu] quiser, e a luta continua.

Primeiro vamos dizer o seguinte: olhe, quando nós tomamos a decisão de viajar – eu lembro como se fosse hoje, eu tinha ido dia 25 de janeiro de 2003 ao Fórum Social em Porto Alegre, depois eu embarquei para Davos. Ou seja, eu visitei, na mesma semana, dois fóruns antagônicos: um, que é o centro do pensamento capitalista; e o outro, que é o centro do pensamento dos movimentos sociais e libertários do mundo. E na viagem de volta, eu disse ao Celso Amorim, depois de conversar com muita gente lá em Davos, eu disse: Celso, nós precisamos mudar a geografia política do mundo. Nós precisamos mudar a geografia comercial do mundo, não está correto. Ou seja, o Brasil tem uma dependência muito grande da sua relação comercial com a Europa e com os Estados Unidos, e nós precisamos procurar outro parceiro.

Nós estamos de costas para a América do Sul; nós estamos de frente para a África, mas olhando ela por cima, não vendo o continente africano; nós precisamos fortalecer nossa relação com a Ásia, com o Oriente Médio. E aí estabeleci um calendário de viagem. Para quê, qual era o meu objetivo? Primeiro, era diversificar a pauta de exportação do Brasil, ou seja, não ficar dependendo de dois países, de dois blocos: os americanos de um lado e os europeus de outro.

Olha, isso foi a salvação nossa na crise! Porque a gente tinha quase 30% da balança comercial com os Estados Unidos e quase 30% com a Europa. Quando nós começamos a diversificar, embora a nossa pauta de exportação continuasse crescendo 20% com a Europa e 20% com os Estados Unidos, como nós crescemos muito na América do Sul, crescemos muito com a América Latina, crescemos muito com a África, crescemos muito com o Oriente Médio, com todos os países árabes, o que aconteceu? De quase 30%, caiu para 13% a nossa balança comercial com os Estados Unidos, sem cair o volume de dinheiro, e sem cair o aumento das exportações.

Ou seja, nós espraiamos melhor a nossa balança comercial. E quando veio a crise, que ela foi mais profunda nos Estados Unidos, nós não estávamos dependentes dos Estados Unidos como outros países que exportam, como Colômbia, por exemplo, 60% do que exporta é para os Estados Unidos; o México, 90% é para os Estados Unidos. Então, nós sofremos menos, embora tenhamos sofrido, mas muito menos do que os países que dependiam de apenas um Bloco.

Uma outra coisa importante,  é que na política você é respeitado pelo teu comportamento nas reuniões, pela tua altivez. Eu digo sempre o seguinte: eu aprendi a me respeitar, e quando você aprende a se respeitar, você quase obriga os outros a te respeitarem. Não existe nenhuma possibilidade, em nenhum lugar do mundo, de uma pessoa respeitar outra pessoa que não se respeita. O principal item, o principal quesito para você ser respeitado é você mesmo se respeitar.

Ora, eu sempre achei que o Brasil era um país muito grande, o Brasil é um país que tem um potencial extraordinário. O Brasil não tem que ficar pedindo licença, pedindo favor. O Brasil tem que querer participar. E hoje, graças a Deus… Hoje, dificilmente acontecerá uma coisa importante no mundo em que o Brasil não seja coparticipante. Por exemplo, a divergência no Oriente Médio. Eu sou um homem convencido – e disse ontem ao Presidente da Autoridade Palestina – de que enquanto tiver apenas Estados Unidos tentando negociar a paz, não tem paz. Por que não tem paz? Porque é preciso colocar outros interlocutores para se sentarem à mesa de negociação e conversarem com todos os conflitantes.

Ora, se o Hamas está dentro da Palestina e não aceita o acordo feito pela Autoridade Palestina; se dentro de Israel você tem grupo que não aceita a paz; se você tem a Síria, que pensa uma coisa; se você tem o Irã, que ajuda o outro [que] pensa outra coisa; se você tem o Catar, que é aliado dos Estados Unidos, mas que ajuda o Hamas, pensando outra coisa, ora, conclusão: você não define um projeto único de paz dentro da Palestina, você não define um projeto único de paz em Israel. Então, quando você se senta à mesa é apenas para se sentar à mesa.

Eu disse ontem ao Presidente que era importante que eles tomassem a atitude de convocar outros atores para tentar negociar a questão da paz no mundo. Nós fizemos uma reunião em Annapolis, nos Estados Unidos; depois marcamos a segunda reunião em Moscou, que ela não aconteceu ainda, mas eu penso que quem deveria estar coordenando o processo de paz na Palestina não eram os Estados Unidos, que são um dos responsáveis pela crise. Ou seja, quem deveria estar organizando era a ONU – as Nações Unidas.

É por isso que o Brasil está reivindicando mudança nas Nações Unidas, para que ela seja representativa de 2010, e não representativa de 1948, quando ela foi criada, porque a geografia política do mundo mudou. Bem, e depois, o fato de a gente desmistificar essa bobagem de que “você tem que ser poliglota para você poder ter bons contatos no mundo”. Isso é uma coisa atrasada, de gente que pensa pequeno.

Porque, muito antes de eu nascer, já tinha intérpretes, e os grandes presidentes do mundo não falam outras línguas fora dos seus países. Se você for ver um discurso do Putin, do Mevedev, do Hu Jintao, todos eles falam a língua dos seus países, porque a língua é um patrimônio. Eu fui o primeiro orador a fazer um discurso em língua portuguesa em Davos. Está certo que eu não sabia outra, mas o dado concreto é que eu faço isso por orgulho, porque a língua é um patrimônio de uma nação.

E portanto, eu acho que o Brasil galgou respeitabilidade, por conta dos acertos da nossa economia; por conta da seriedade [com] que nós tratamos as coisas; por conta [de] que nós não só pagamos o FMI, como hoje o FMI nos deve – nós estamos colocando 14 bilhões de dólares no FMI; eram 10 [bilhões], agora pediram mais 4 [bilhões], nós estamos lá emprestando… Em uma demonstração de que ser sério não faz mal a ninguém. E muito menos faz mal a gente se respeitar. Então, eu sou assim: eu quero respeito, e dou respeito. E assim…

Sabe que eu sou um homem sem muitas pretensões futuras. Eu acho que Deus já foi por demais generoso comigo. Porque, sair de Caetés e chegar onde eu cheguei, sabe? Eu tenho que ficar ajoelhado, agradecendo a Deus todo santo dia. E ao mesmo, fazer as coisas como nós estamos fazendo no Brasil. É visível que o Brasil está melhorando; é visível que nós temos muitos problemas; é visível que nós já temos os problemas localizados, e portanto temos as políticas corretas. Eu não tenho dúvida nenhuma de que o Brasil vai ter um 2010 extraordinário.

Uma coisa que me deixa “assim”: todo mundo está em crise; o Brasil, este ano, vai criar 1,3 milhão novos empregos com carteira assinada. Esse é um fato sui generis no mundo, no ano da crise! Então, pensar o que eu vou ser… Ora, eu, se puder contribuir com a eleição de um candidato, para mim já é tudo o que eu quero na vida. E depois que eleger esse candidato, se eu fechar a minha boca e não der palpite no governo dessa pessoa, é melhor ainda.

É candidata, é candidata. É importante todo mundo saber que eu quero a Dilma como candidata, estou trabalhando para isso porque… eu conheço muita gente, trabalho com a Dilma há oito anos, eu sei da competência gerencial da Dilma, eu sei da competência política da Dilma, eu sei da competência de organização da Dilma, e ela está muito entrosada com tudo o que nós fizemos. Portanto, a Dilma eleita, ela iria apenas colocar o estilo dela no governo e fazer as coisas novas que nós não conseguimos fazer.

Eu acho que o povo vai pensar direitinho. Obviamente que eu sempre respeito a atitude democrática do povo, acho que o Brasil vive um momento bom e que tem bons candidatos disputando as eleições. E aí, eu não penso em nada internacional. Eu penso, na verdade… eu tenho vontade de trabalhar um pouco a integração da América do Sul, Mário, com a América Latina, eu tenho vontade de dar uma contribuição para o continente africano. Muitas das políticas públicas que nós fizemos aqui, é possível implantar nos países africanos se a gente conseguir convencer os países ricos a colocarem um pouco de dinheiro.

Então, é isso o que eu trabalho… Eu só tenho um drama na minha vida, que é o seguinte: no dia 2 de janeiro de 2011, quando eu me levantar em São Bernardo, sozinho com a dona Marisa, que não tiver ninguém para eu xingar, que não tiver ninguém para eu reclamar da vida, que não tiver ninguém preocupado com alguma coisa, eu não sei como é que vai ser. Só espero que a dona Marisa não venha com a vassoura, me dando vassourada no tornozelo para eu sair do lugar para ela limpar a sala. De qualquer forma… Mais grave é se ela pedir para eu ajudar a limpar a sala, o que eu farei, democraticamente. Mas, então, eu não penso muita coisa, não. Eu penso em continuar vivendo tranquilamente e dando a minha contribuição à política brasileira.

Olha, certamente, se eu fosse eles, eu teria pedido o terceiro mandato. Se fosse o lado de lá que estivesse na situação que eu estou, eles teriam levantado a tese do terceiro mandato. E eu não levantei por uma única razão: primeiro, porque eu aprendi que construir a democracia neste país foi muito sacrifício, e que hoje nós vivemos o mais longínquo período contínuo de democracia no País, e que não é muito se a gente pegar [19]85 como parâmetro ou se a gente pegar a Constituição de [19]88 como parâmetro.

Portanto, eu acho que se a gente começa a colocar na cabeça “eu sou imprescindível, eu sou insubstituível”, começa a nascer um pequeno ditador. Como eu acredito no exercício da democracia na sua total plenitude e como eu acredito na alternância de poder como forma de você consagrar as instituições democráticas, eu fiz questão de convencer, inclusive o meu partido, a parar com a brincadeira de terceiro mandato.

Porque, se vale para mim terceiro mandato, vale para outro. Amanhã você tem o terceiro mandato; depois você gosta, você quer o quarto; depois você gosta, você quer o quinto; depois você gosta, você quer o sexto, e isso não é bom para o Brasil. Então, eu acho que oito anos é de bom tamanho para um democrata, é de bom tamanho. Então, eu saio tranquilo. Bom, quem é o principal adversário da Dilma?

Ora, veja, nós vamos ver, nós vamos ver. Há uma… Depende do tipo de eleição. É muito mais difícil você tentar convencer o eleitor a votar num vereador, que é uma coisa muito íntima de quem mora na rua, de quem mora na vila, de quem mora no bairro. É difícil você tentar eleger um prefeito, porque você está em Brasília e quem vai governar mora aqui na cidade. Mas, para presidente é diferente.

Para presidente, você está indicando alguém que vai exercitar o cargo que você estava exercitando. Portanto, você vai ter que pedir para as pessoas uma avaliação correta do potencial de cada candidato, quem é que vai fazer a política mais correta. E eu acho que o governo tem possibilidade de repassar muito voto. Obviamente que tudo isso é relativo porque vai depender muito, muito, muito, muito da performance da nossa candidata, do desempenho dela nos debates, do desempenho dela durante a campanha. De vez em quando as pessoas falam: “Ah, mas a Dilma não é muito simpática”. Bom, tem adversário dela que é muito menos simpático do que ela. Então, se for por simpatia, ela já está eleita.

Mas eu acho que uma eleição também tem dezenas de componentes, não é um só. Tem muitas coisas que envolvem o resultado de uma eleição. Eu só acho que nós temos uma extraordinária candidata, com perspectivas enormes de vencer e com perspectivas enormes de ganhar as eleições e de fazer um governo que seja um passo adiante daquilo que nós fizemos.

Olha, veja, é difícil medir qual o adversário. Se eu olhar as pesquisas hoje, é o Serra. Mas as pesquisas de hoje também são muito difíceis de a gente imaginar se elas vão estar assim em setembro do ano que vem, em agosto do ano que vem. De qualquer forma, vamos esperar. Quem vier, nós vamos combater da forma mais democrática possível, fazer a eleição mais limpa do mundo. Porque eu sempre sonhei que o processo eleitoral, ele tem que ter como resultado não apenas a vitória de quem ganhou, mas um pouco da elevação do nível de politização da sociedade brasileira, com debates de grandes temas sobre o Brasil.

Eu, por exemplo, quando chegar agora em 2010, eu vou apresentar um PAC 2011-2015, que envolve a Copa do Mundo e que já envolve as Olimpíadas de 2016. E por que eu tenho que apresentar agora? Porque a partir do orçamento de 2011, eu já tenho que começar a colocar dinheiro no orçamento, para começar a fazer obras de infraestrutura urbana, para que a gente possa começar a trabalhar desde já. Se deixar para começar a trabalhar em 2011, a gente vai quebrar a cara.

Então, os projetos têm que estar prontos em 2010, para quem entrar começar a executar em 2011, que vai de infraestrutura até a prática esportiva. Por exemplo, eu pretendo, daqui para a frente, estabelecer conversas com os governadores, com os prefeitos, para que a gente transforme cada cidade brasileira em um centro de produção de atletas de alto nível. Para isso, os prefeitos têm que se engajar, para isso os governos [governadores] têm se engajar, porque nós temos que despertar em todas as crianças deste país a aptidão pela prática de esporte.

Eu quero, inclusive, nas favelas de alguns estados, fazer convocação para cadastramento dos jovens de 12 a 16 anos, 17 anos. Ou seja, aquele moleque que gosta de brigar e dar porrada nos outros, nós vamos chamar ele para lutar boxe, para lutar judô, para lutar caratê, lutar qualquer coisa que ele dê porrada de forma sadia, disputando, e que ele se transforme em uma criança civilizada. Então, nós temos seis anos pela frente, para que o país mude a sua cara, envolva a juventude, diminua a criminalidade, a bandidagem, e a gente viva em um país mais digno e mais decente.

Olha, do ponto de vista da candidatura presidencial, menos mal. Se você tiver dois palanques, você tem um leque maior de opções. Do ponto de vista da política estadual, eu acho triste, ruim, porque… Ainda ontem conversei com o Geddel, tenho conversado com o Jaques Wagner, eu gostaria que os dois estivessem juntos, gostaria que a gente tivesse um palanque único, e que demarcasse claramente uma eleição plebiscitária entre o governo e os adversários. Nem sempre isso é possível porque a política é uma coisa complicada, né? Tem vezes que a gente convida um casal para ir à casa da gente, aí o casal vai embora e a gente fica comentando “nossa, que casal feliz, que coisa maravilhosa”, e a gente não sabe a quantidade de brigas que tem dentro de casa, e nem eles sabem as nossas.

Eu, sinceramente, acho que aqui na Bahia a coisa foi um pouco esgarçada, desnecessariamente. Os dois, individualmente, teriam vontade de que não fosse assim, mas aconteceu, e eu penso que nós temos que trabalhar com a hipótese de ter duas candidaturas. Eu sinto o Wagner tranquilo, eu sinto o Geddel tranquilo, eu só espero que a campanha se dê num alto nível, em que as pessoas façam, concretamente, com que a Bahia mude de patamar na política brasileira, durante o processo de disputa eleitoral. Eu gostaria de vir num palanque com os dois juntos.

Olha, em política… Tancredo Neves dizia: “A política é como uma nuvem: a gente olha, ela está de um jeito, daqui a pouco ela mudou de jeito”. Eu sempre trabalho com a perspectiva de que a gente vai ter a base do governo, aliada, disputando um só palanque. Nós temos ainda alguns meses pela frente, as pessoas estão analisando pesquisa, estão vendo possibilidade, e as coisas vão se acertando.

Imagine que você tem um caminhão, uma caminhonete, você enche ela de mandioca, você não consegue colocá-las certinho. Aí, pega uma estrada sem terra e ela vai pulando, pulando, pulando, e daqui a pouco a carga está assentadinha, as mandiocas todas colocadas no lugar. Eu acho que política é um pouco isso. A gente vai ter que ter paciência, a gente tem que ter um pacto de não agressão, a gente tem que estabelecer um critério de comportamento político, e eu ainda trabalho com a hipótese de que quando nós consagrarmos a aliança PT-PMDB nacionalmente, isso pode ganhar mais força nos estados.

E vamos ver também o comportamento dos adversários. Vamos ver o comportamento dos adversários, porque isso tem incidência própria nas nossas decisões. Nós não fazemos política sozinhos, né? Nós estabelecemos a nossa tática, a nossa estratégia, mas ficamos de olho no que o adversário vai fazer. Dependendo da tática e da estratégia do adversário, nós vamos ter que mudar a nossa. Isso é como o Bahia e o Vitória jogando. Ou seja, aquele que está perdendo no segundo tempo entra no vestiário, tenta mudar de tática… É assim que nós vamos fazer, mas eu estou otimista, muito otimista.

O governo não tem um pepino, o governo tem uma demanda, uma demanda que eu acho justa, e isso é mais ou menos como um filho pedir dinheiro para o pai. É sempre justo o filho pedir dinheiro para o pai e é sempre justo também o pai dizer se tem ou não tem. Se tem, dá; se não tem, não dá. Veja, eu propus ao movimento sindical, coordenado pelo ministro Luiz Dulci, da Secretaria-Geral da Presidência, pelo Ministério do Trabalho e pelo Ministério da Previdência, que a gente estabelecesse uma conversa com as centrais sindicais para ver se a gente consegue propor um acordo para ser votado no Congresso Nacional.

Eu já tive uma reunião com as centrais sindicais, eles voltaram… eles tomaram a decisão de voltar a conversar. Na hora em que eles tiverem uma proposta, nós mandaremos essa proposta para o Congresso Nacional. O que eu não posso, em sã consciência, é aprovar alguma coisa que seja, como diria o Magri, “incumprível”, porque todo mundo sabe que a gente só pode pagar a quantidade exata de dinheiro que você recolhe, aquilo que você tem no cofre. Se você, na casa da gente, na bodega da gente, na família da gente, a gente gastar mais do que a gente ganha, você pode gastar um mês, dois meses, pode tomar dinheiro emprestado e gastar o quarto mês, mas chega um dia em que você quebra.

Então, é com essa consciência que eu quero lidar com os aposentados brasileiros. Eles sabem que no meu governo não houve nenhum momento em que a gente deu a eles menos que a inflação, eles receberam a correção salarial. Os trabalhadores de salário-mínimo sabem que eles estão tendo reajuste acima… e essa era a ideia básica, ou seja, era a gente dar reajuste a mais para os trabalhadores que ganham salário-mínimo, para elevar o salário-mínimo. Ora, não é possível a gente fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Então, eu penso que os companheiros vão ter que fazer uma reflexão profunda. Eu sou um homem de diálogo, sou amigo de todos eles, não quero criar nenhum prejuízo a ninguém, mas também não posso aceitar a hipocrisia do ano eleitoral, não posso aceitar. Acho inadmissível que as pessoas tentem tirar proveito do ano eleitoral e prometer coisas que sabem que não podem cumprir. Isso a gente pode fazer quando a gente não tem responsabilidade. Quando a gente tem responsabilidade, a gente tem que contar até dez. Eu tenho que tomar decisão antes de [contar até] dez, porque eu só tenho nove…

Veja, só para você ter ideia, faz dois meses, eu estava em Pernambuco inaugurando uma parte do Estaleiro Atlântico Sul, quando as empresas estavam discutindo a feitura do segundo estaleiro. Na hora, eu chamei o governador de Pernambuco, meu companheiro Eduardo Campos, e falei: Eduardo, o segundo estaleiro não será aqui.

O segundo estaleiro será na Bahia. Já tem a decisão do estaleiro aqui, já tem um terreno, inclusive, que o Ibama concedeu para nós, e que eu fiquei de conversar com a Marinha para ver, aí, no Porto de Aratu, uma área que tem, da Marinha, que é mais apropriada para fazer esse grande estaleiro para produzir navios até de 400 toneladas, para a Vale do Rio Doce nunca mais encomendar navios na China.

Por exemplo, a Bahia já tem uma refinaria, Pernambuco não tinha, então tinha que fazer uma refinaria, tinha que escolher Pernambuco. Agora, escolhemos outra no Ceará. Ontem, eu fui lançar a pedra fundamental de uma adequação da refinaria no Rio Grande do Norte. Vamos fazer outra refinaria no Maranhão, por conta do pré-sal, que é para produzir derivados de petróleo de alta qualidade e exportar.O PAC na Bahia significa, até 2010, R$ 37,4 bilhões, dos quais investimentos, inclusive na Bahia, são 25,2 bilhões, e empreendimentos regionais que pegam mais que um estado são R$ 12, 2 bilhões.

E as coisas… Além do programa Minha Casa, Minha Vida, em que a Bahia terá um grande investimento aqui no estado sobre [com o] Minha Casa, Minha Vida. Ou seja, aqui já foi emprestado para casas quase 3,8 bilhões em financiamento. O programa Minha Casa, Minha Vida vai trazer algumas dezenas de milhares de casas para a Bahia.

O projeto da Ferrovia Leste-Oeste está praticamente pronto, ou seja, eu quero ver se, ainda este ano, eu venho lançar a pedra fundamental para que a gente comece o trecho, talvez, Ilhéus-Caetité, me parece, e nós vamos ligar ela à Ferrovia Norte-Sul. Portanto, nós vamos fazer uma integração brasileira e, da Ferrovia Norte-Sul, nós vamos levar ela até Estrela d’Oeste, em São Paulo. Então, pode sair uma carga aqui de Ilhéus e chegar no Porto de Santos, pode sair do Porto de Santos e vir aqui para Ilhéus ou para o Porto de Itaqui, no Maranhão. Isso nós vamos fazer, e tudo isso será obra que constará do PAC novo – essa já consta do PAC atual.

Mas, entre você pensar em fazer uma obra e você começar a fazer, você leva algum tempo, porque você tem projeto básico, projeto executivo, licenciamento prévio, autorização para começar a obra, licitação. Depois da licitação, as empresas que perdem entram com recurso. Depois tem Tribunal de Contas, depois você tem Ministério Público… ou seja, então leva um tempo, mas ela será reafirmada no PAC que vem.

E também a questão da Copa do Mundo. A Bahia tem o privilégio de ser um país [estado] sede, e nós, que não temos nenhuma responsabilidade com o estádio, porque aí é dos times e do estado, nós queremos dar a nossa participação em obras de infraestrutura, para melhorar a capacidade de fluxo das pessoas aqui na cidade de Salvador.

Na próxima semana, vamos ter uma reunião com governadores e prefeitos, para que a gente comece a adequar o sonho à realidade. Porque tem muita gente que apresentou projetos, megaprojetos. Nós não vamos fazer nada diferente de uma Copa do Mundo. A gente não pode ficar olhando Berlim. Nós temos que começar a olhar, concretamente, a nossa realidade. O que é que nós precisamos? De um bom estádio, de um bom gramado, e precisamos facilitar o acesso das pessoas ao estádio. Então, nós vamos dar essa contribuição.

E já temos que nos preparar para as Olimpíadas, porque as Olimpíadas também, embora sejam na cidade do Rio de Janeiro, os atletas vão ficar espalhados pelo Brasil. Tem gente que vai vir para cá meses antes, tem gente que vem treinar para se adaptar… e, obviamente, que as praias de Salvador são irresistíveis para um bom atleta. Em vez de fazer um treinamento e depois ir para uma hidromassagem, naquela bacia pequena, o cara tem essa hidromassagem aqui, na nossa costa aí, milhões de quilômetros de água de qualidade.

Então, eu acho que está tudo pronto. Está tudo pronto para que a gente faça as coisas corretas no Brasil. Eu nunca, nunca, Mário – por Deus do céu –, eu nunca estive tão otimista como eu estou, nunca estive tão otimista. Eu estou sentindo que as coisas estão indo de vento em popa. Uma coisa que me deixou quase em estado de êxtase, por exemplo, foi a notícia da semana passada. Os pobres do Norte e do Nordeste, das classes D e E, consumiram 5% a mais do que o pessoal das classes A e B do Centro-Sul do País. Dentre os produtos, material de higiene. Ora, isso, para mim, é extraordinário. Significa… E foi essa gente que sustentou a crise.

Você está lembrado que no dia 23 de dezembro eu fui para a televisão fazer um pronunciamento, pedindo para o povo brasileiro consumir, porque as manchetes dos jornais diziam: “Ah, o povo está com medo de consumir e não quer fazer prestação porque vai perder o emprego”. Eu fui para a televisão para dizer: É verdade que você não pode fazer dívida porque você pode perder o emprego. Mas é verdade que você vai perder o emprego com mais facilidade se você não consumir. Se você comprar, o comércio vai vender, o comércio vai encomendar da fábrica que vai produzir, a fábrica e o comércio vão gerar empregos, portanto, você tem chance. Agora, compre com responsabilidade. E o povo pobre que sustentou.

Hoje já está provado: foi o povo pobre deste país, que recebe Bolsa Família, que ganha salário-mínimo, que pega dinheiro do Pronaf que conseguiu sustentar a economia brasileira. Isso é uma coisa impagável do ponto de vista do prazer e da satisfação.

Olha, deixa eu falar uma coisa.Você tem, de um lado, as pessoas que vivem sonhando com um mundo perfeito e você tem as pessoas realistas que vivem de acordo com o mundo, tentando mudá-lo. Veja, eu e qualquer outro presidente da República que estiver na Presidência, ele tem que lidar com quem tem mandato. Você tem que estabelecer acordos políticos com os partidos existentes. Você não inventa partido político, você não inventa eleitos, é o povo que elege.

Ora, então, você tem uma lógica matemática dentro do Senado e dentro da Câmara, que você estabelece aliança política. Eu não tive nenhum problema de defender o Sarney, porque acho que muitas das acusações que estavam sendo feitas contra o Sarney não tinham sequer procedência, não tinham substância. Era bater por bater. Quem faz política neste país sabe. Agora, o que eles queriam, na verdade? Tirar o Sarney para colocar o Marconi Perillo. Ora, meu Deus do céu! Qualquer um pode ser inocente. Eu não tenho o direito de ser inocente.

Eu sei o que eles queriam e, portanto, eu não vacilei e não vacilo porque não deixo um companheiro no meio do caminho, não deixo. Eu acho que o grande problema da política brasileira é a covardia. Se a pessoa está sendo acusada, tem procedência, tem prova e foi constatado, puna-se a pessoa. Agora, o que você não pode é ganhar no tapetão. E eles tentaram ganhar no tapetão no Senado, porque eles queriam ter uma fatia de poder. Não tinham a Câmara, queriam ter o Senado.

Então, eu tomei a atitude de fazer as alianças com quem tem voto, para poder votar no governo. Lá é uma conta aritmética. Eu, talvez, tenha errado em ter utilizado o nome de Jesus Cristo, mas foi a coisa mais popular que eu encontrei para o povo entender. Foi a coisa mais popular que eu encontrei para o povo entender, e acho que o povo entendeu. Agora, também, parar com essa bobagem de alguns acharem que são donos de Jesus Cristo, que só eles podem falar em nome de Jesus Cristo, que só eles podem utilizar. Eu não tenho que pedir licença para ninguém… para gostar de Deus, para gostar de Jesus Cristo. Jesus Cristo é uma obra divina pública.

Não é propriedade de ninguém. Alguém achar “só eu posso falar”. Não. Eu falo na hora que eu quero, do jeito que eu quero, respeito do jeito que eu quero, tenho fé do jeito que eu quero, e as pessoas precisam respeitar esse meu jeito de ver. “Ah, porque tem que ir à igreja todos os domingos.” Eu acho bom que alguém vá à igreja, mas para eu conversar com Deus, eu converso em casa, na minha intimidade, para Ele me ver do jeitinho que eu sou. Então, tem gente que não gosta, paciência. Eu, também, não nasci para agradar a todo mundo. Eu nasci para fazer as coisas que eu acho que são certas e que eu acho que merecem respeito dos outros.

Obviamente que o Obama disse uma brincadeira. O Obama estava com um mês de mandato, eu já tinha sete anos. E tem uma coisa, uma coisa que… eu também não sou tão humilde, que eu não reconheça as coisas, porque também você não pode ser tão humilde, de desvalorizar as coisas que você faz. Ou seja, eu acho que é um fato inusitado um presidente da República ter sete anos de mandato e ter a aprovação que tem o nosso governo.

Sabe, é uma coisa inusitada, e todo mundo no mundo fica, obviamente, perguntando: o que está acontecendo no Brasil? O que está acontecendo é isso: é uma relação direta de um homem com os homens que moram neste país. As pessoas se identificaram, definitivamente, que eu sou uma delas. As pessoas não me veem como um estranho. Qualquer pessoa aqui em Salvador, seja um cidadão pescador, seja um metalúrgico, seja um pedreiro, ele… na sua grande maioria, já se identificou: “eu sou o Lula na Presidência”, ou seja, “eu estou lá”. É isso o que eu queria, era despertar nesse povo a ideia de que a gente pode, basta que a gente queira.

Este país não foi feito para doutor governar. Este país foi feito para gente que pensa como o Brasil, que tem alma como o Brasil, que chora com os brasileiros, que trabalha como os brasileiros, que conhece o dia-a-dia dos brasileiros, governar o País. Agora, você elege um burocrata, um tecnocrata de um estado lá do Sul, ele nem conhece. Ele só conhece as praias aqui, a orla, aí fica difícil governar. Você tem que conhecer as entranhas deste país. Aí, sim, você pode governar de jeito maduro, consistente, para todo mundo, mas privilegiando aqueles que mais necessitam.

Agora, tem um monte de gente que precisa do governo. Então, é para esses – sem tirar nenhum direito de vocês –, é para aqueles outros que mais precisam que a gente tem que governar. Entra um rico no meu gabinete, ele quer logo 1 bilhão emprestado. Um pobre quer R$ 10 para comer no dia seguinte, e ele é mais grato, ele é mais grato.

Então, se a gente quiser elevar o nível das pessoas mais pobres no Brasil, nós temos que calçar eles cada vez mais, fazer mais por eles, sabe? Os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro como ganham no meu governo, os empresários nunca ganharam… Pode perguntar para qualquer empresário aqui na Bahia, [para] o que menos gosta de mim, e veja as contas dele para ver se ele não ganhou mais dinheiro do que ele ganhou no tempo em que ele tinha um presidente que era amigo dele. Ganhou, e eu quero que ganhe. Eu quero que ganhe porque ele vai gerar emprego, vai gerar salário, vai gerar renda.

Agora, na hora em que eu tiver que tomar decisão, os pobrezinhos têm que ter um pouquinho mais. É aquele chameguinho de mãe. Mãe pode ter dez filhos, ela ama todos igual, mas se tiver um mais fragilzinho, é naquele que ela vai fazer um denguinho, colocar no colo… Esse é o meu jeito de ser. Nasci assim, vou morrer assim. Sei de onde eu vim, sei para onde eu vou voltar, e estou tranquilo.

Eu tive cinco filhos, criei muitos sentados aqui no meu colo, e não tem problema nenhum. Veja, eu só estou aguardando que o Tribunal entenda o que ele decidiu, porque o Peluso, ontem, deu uma declaração dizendo que está difícil entender o que foi decidido. Na hora em que eles fizerem a comunicação para mim eu vou sentar, tranquilamente, e vou tomar a minha decisão. E aí o mundo inteiro vai saber o que eu decidi.

Mas só estou esperando a decisão do Tribunal. Isso não me… eu estou tranquilo. Eu sei que eles estão inquietos, mas deixa eu te falar. Eu estou muito tranqüilo, porque quem já passou pelo que eu passei, quem já fez o que eu fiz, não vai ficar preocupado com o caso Battisti. É mais um caso, é mais um caso. Eu nem sei se ele está em greve de fome…

Vou assistir no dia 28, em São Bernardo. A dona Marisa foi assistir, gostou. Ela conheceu a minha primeira mulher no filme, ela conheceu a outra Marisa no filme, levou as duas lá para casa, para a gente tirar retrato juntos… Eu até falei com o governador Jaques Wagner ontem, falei com o Prefeito, que era preciso trazer o filme para ser mostrado na Bahia.

Se o filme retratou com fidelidade o que está no livro “Lula, o filho do Brasil”, eu acho que vai ser um bom filme. Por quê? Porque o filme não é do Lula. Eu sou coadjuvante no filme, e o filme não entra na política. Uma das condições que eu pedi para que o filme não entrasse, era na questão política. Então, o filme não entra na questão política, não entra na questão do PT.

O filme é a história da minha mãe e, por coincidência, ela é que me pôs no mundo. Então, eu apareço no filme porque sou o caçulinha da dona Lindu. Por isso é que eu apareço no filme, mas a artista principal é ela. E o papel do Lulinha, do menino que faz o papel do Lula, dizem que é exuberante. Então, eu guardei para ver… Ontem à noite, foi lançado em Recife. Era para eu ter ido lá, meus irmãos foram. Eu não fui porque se eu fosse eu tinha que pegar a minha família, levar. Aí já começam aquelas notinhas “porque Lula leva a família no avião da FAB para ver o filme”, e tudo. Então, se os adversários quiserem me pegar, eles vão ter que escolher outra coisa, porque nessa não me pegam.

*A fala do presidente foi extraída da entrevista concedida às rádios Excelsior e Metrópole.  Foram removidas às perguntas e mantidas as repostas e o posicionamento político do Presidente Lula.

**A fala de um presidente não pode ser objeto de propriedade intelectual de outra pessoa ou de uma empresa. Ela é de domínio público e deve ser disponibilizada nos diversos meios possíveis. Para que desta forma, possa a sociedade acompanhar o mandatário popular.

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