Suzana, bela e virtuosa

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Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana.(UEFS).

Nos tempos do Reino de Babilônia, havia um rico homem chamado Joaquim. Ele desposara uma bela mulher, chamada Suzana, filha de Helcias.

Suzana era uma mulher piedosa, pois havia sido educada segundo a lei de Moisés, por pais honestos.

Os judeus reuniam-se freqüentemente na casa de Joaquim, porque o mesmo gozava de uma particular consideração entre seus compatriotas.

Naquele ano, haviam sido nomeados juízes dois anciãos do povo, que eram iníquos, e se passavam por dirigentes do povo.

Esses dois personagens frequentavam a casa de Joaquim, aonde vinham consultá-los todos aqueles que tinham litígio.

Suzana, a bela senhora, tinha por hábito passear no jardim da sua casa ao meio-dia, quando toda essa gente ia embora.

Os dois juízes anciãos, que se demoravam mais tempo na casa de Joaquim, viam-na todos os dias durante seu passeio, e se apaixonaram por ela.

Perdendo a justa noção das coisas, desviaram-se da verdadeira regra de comportamento, cobiçando a mulher do próximo.

Ambos se apaixonaram por Suzana, mas sem se confiarem mutuamente sua emoção. Tinham vergonha de declarar um ao outro o desejo que sentiam de possuí-la.

Todos os dias, inquietos, procuravam avistá-la. Certa vez disseram um ao outro: “vamos para casa; está na hora do almoço”. E saíram cada um para seu lado.

Mas, havendo ambos retornado, encontraram-se novamente no mesmo lugar. Perguntando um ao outro qual o motivo do retorno, confessaram-se sua concupiscência. Combinaram então um encontro onde a pudessem surpreender sozinha.

Enquanto calculavam qual seria o momento propício, eis que Suzana chegou como de costume, com duas empregadas, e tomou a resolução de banhar-se, pois fazia calor.

No jardim não havia ninguém, salvo os dois anciãos escondidos, que a espreitavam.

– Trazei-me, disse ela às duas empregadas, óleo e ungüentos, e fechai as portas do jardim, para eu me banhar.

Assim fizeram. Fecharam as portas do jardim e saíram pela porta do fundo para ir buscar os objetos pedidos, ignorando que os anciãos lá se achavam escondidos.

Apenas saíram, os dois homens precipitaram-se em direção de Suzana.

Disseram-lhe: “ninguém nos vê. Ardemos de amor por ti. Entrega-te a nós. Se recusares iremos denunciar-te: diremos que havia um jovem contigo, e por isso fizeste sair tuas servas”.

Suzana exclamou tristemente: “que angústias me envolvem por todos os lados! Consentir? Eu seria condenada à morte! Recusar? Nem assim eu escaparia de vossas mãos! Não! Prefiro cair, sem culpa alguma, em vossas mãos, do que pecar contra o Senhor”.

Suzana soltou grandes gritos, e os dois anciãos gritavam também contra ela. Um deles, correndo às portas do jardim, abriu-as.

Com essa balbúrdia, os criados precipitaram-se pela porta do fundo para ver o que havia acontecido.

Os anciãos se puseram a falar, a denunciando, e os criados enrubesceram, pois jamais nada de semelhante fora dito de Suzana.

No dia seguinte, os dois anciãos, cheios de criminosas intenções contra a vida de Suzana, vieram à reunião que se realizava em casa de Joaquim, marido dela.

Disseram, diante da assembléia: “mandem buscar Suzana, filha de Helcias, a mulher de Joaquim!”

Foram-na buscar, e ela chegou com seus pais, seus filhos e os membros de sua família. Era delicada e bela de rosto.

Aqueles homens perversos exigiam que ela retirasse seu véu – pois estava velada – a fim de poderem (pelo menos) fartar-se de sua beleza.

Os seus choravam, assim como seus amigos.

Os dois anciãos levantaram-se à vista de todos, e pousaram a mão sobre sua cabeça, enquanto ela, debulhada em lágrimas, mas com o coração cheio de confiança no Senhor, olhava para o céu.

Os anciãos disseram então: “quando passeávamos pelo jardim, ela entrou com duas servas; depois fechou a porta e mandou embora suas acompanhantes. Então, um jovem que se achava escondido ali, aproximou-se e pecou com ela. Nós nos encontrávamos num recanto do jardim. Diante de tal desavergonhamento, corremos para eles e os surpreendemos em flagrante delito. Não pudemos agarrar o homem, porque era mais forte do que nós, e fugiu pela porta aberta. Ela, nós a apanhamos; mas quando a interrogamos para saber quem era o jovem, recusou-se a responder. Somos testemunhas do fato”.

Confiando nesses homens, que eram anciãos e juízes do povo, o júri popular condenou Suzana à morte por lapidação.

Então ela exclamou bem alto: “Deus eterno, vós que penetrais os segredos, que conheceis os acontecimentos antes que aconteçam, sabeis que isso é um falso testemunho que levantaram contra mim. Vou morrer, sem nada ter feito do que maldosamente inventaram de mim”.

Deus ouviu sua oração. Quando a levavam para a execução, o Senhor suscitou o espírito íntegro de um adolescente chamado Daniel, que proclamou com vigor: “Sou inocente da morte dessa mulher!” Simulando ser ele o jovem que supostamente estava no jardim.

Todo mundo virou-se para ele: “O que significa isso?”, perguntaram-lhe.

Então, no meio de um círculo que se formava, disse: “Israelitas, estais loucos! Eis que condenais uma israelita sem interrogatório, sem conhecer a verdade!”

– Recomeçai o julgamento, porque é um falso testemunho a declaração desses dois homens contra ela.

O povo apressou-se em voltar. Os anciãos sarcasticamente disseram a Daniel: “Vem sentar conosco e esclarece-nos, pois Deus te deu o privilégio da velhice!”

Separai-os um do outro, exclamou Daniel, e eu os interrogarei. Foram separados.

Então Daniel chamou o primeiro e disse-lhe: “Velho perverso! Eis que agora aparecem os pecados que cometeste outrora em julgamentos injustos, condenando os inocentes e absolvendo os culpados; no entanto, é Deus quem diz: não farás morrer o inocente e o íntegro.

– Vamos! Se realmente a viste, dize-nos debaixo de qual árvore os viste juntos.

– Debaixo de um lentisco, respondeu.

– Ótimo! Continuou Daniel, eis a mentira, que pagarás com tua cabeça.

Afastaram o homem. Daniel mandou vir o outro e disse-lhe: “Filho de Canaã! Foi a beleza que te seduziu, e a concupiscência que te perverteu. Foi assim que sempre fizeste com as filhas de Israel, as quais, por medo, entravam em relação convosco. Mas eis uma filha de Judá que não consentiu no vosso crime. Vamos, dize-me sob qual árvore os surpreendeste em intimidade”.

– Sob um carvalho, respondeu.

– Ótimo! Disse Daniel, tu também proferiste uma mentira que vai te custar a vida.

E Daniel falou de si mesmo: “Eis aqui o anjo do Senhor que, segundo a sentença divina, vai dividir teu corpo pelo meio. Eis aqui o anjo do Senhor, que empunha a espada, prestes a serrar-te pelo meio para te fazer perecer”.

Logo a assembléia se pôs a clamar ruidosamente e a bendizer a Deus por salvar aqueles que nele põem sua esperança.

Toda a multidão revoltou-se então contra os dois anciãos os quais, por suas próprias declarações, Daniel provou terem dado falso testemunho.

De acordo com a lei de Moisés, aplicaram o tratamento que tinham querido infligir ao seu próximo: foram mortos. Assim, naquele dia, foi poupada uma vida inocente.

Helcias e sua mulher louvaram a Deus por sua filha Suzana, com Joaquim, seu marido, e todos os seus parentes, pois nada de desonesto havia sido encontrado em seu proceder.

E Daniel gozou, desde então, de uma alta consideração entre seus concidadãos.

Sobre Juarez Duarte Bomfim 745 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]