“O que a oposição quer é que o país pare para eles poderem ter razão”, diz presidente Lula; Confira entrevista

Presidente Lula participa de cerimônia de sanção do projeto de lei que define regras para a organização da Defensoria Pública da União e nos estados, ocorrida em 7 de outubro de 2009.
Lula: o que a oposição quer é que o país pare para eles poderem ter razão, e o que a situação quer é trabalhar mais para não dar razão para a oposição.

Entrevista coletiva concedida em 5 de outubro de 2009 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em Floresta, Pernambuco, após visita aos canteiros de obras na tomada dágua do Eixo Leste.

Presidente: Vamos fazer as perguntas aqui.

Jornalista: Presidente…

Presidente: Espera aí, um de cada vez.

Jornalista:

Presidente: Olha, primeiro o convite ao companheiro Ciro Gomes é pelo reconhecimento do trabalho que ele fez para que este projeto pudesse estar acontecendo. O Ciro fez todos os debates que era preciso fazer, enfrentou situações adversas, e eu não poderia deixar de trazê-lo aqui, na primeira viagem que eu faço para fazer reconhecimento das nossas obras. Junto com ele era para ter vindo o companheiro José Alencar que não veio porque está doente. Mas é um reconhecimento, é um reconhecimento de um homem que, primeiro, prestou muitos serviços ao País sendo meu ministro, foi um companheiro da maior integridade, então, eu tinha que trazê-lo aqui, porque é quase que obrigação minha trazer as pessoas que deram muito. Como diria um jogador de futebol: “Deu o seu melhor para…”

Jornalista: Só um parentesezinho: o retorno do Brasil ao Conselho de Segurança da ONU, mesmo sem ser membro permanente e sem poder de veto, como é que o senhor vê a importância disso? E quais são (incompreensível)

Presidente: Deixa eu dizer para você uma coisa: há 15 anos o Brasil tem reivindicado uma reforma no Conselho Permanente da ONU, no Conselho de Segurança. Nós estamos convencidos que a ONU está superada. A ONU de 1948 não representa a correlação de força existente no mundo hoje, nem geograficamente, nem politicamente, nem economicamente. É preciso que se leve em conta a participação dos países de vários continentes. A África pode ter um, dois ou três países representados no Conselho de Segurança. A América Latina pode ter um, pode ter dois. Não tem como explicar o Japão estar fora, não tem como explicar a Alemanha estar fora, não tem como explicar a Índia estar fora. Se a ONU quiser voltar a ter representatividade, tomar decisões, e essas decisões serem executadas, ela tem que ser reformada e colocar outros países.

A questão do Oriente Médio, por exemplo, não pode ser uma coisa particular dos Estados Unidos. Quem deveria estar negociando a paz entre judeus e palestinos era a ONU. E por que ela não faz isso? Porque ela não tem força, ela não tem força. Então, o que nós queremos é que a ONU tenha muita força.

Eu estou convencido de que esse negócio do Conselho de Segurança é como uma fruta madura. Ou seja, ela já está passando do ponto de colher, daqui a pouco ela cai. E se os dirigentes da ONU, sobretudo dos países que hoje mandam no Conselho de Segurança permanente, não aceitarem a reforma, eles serão responsabilizados pela fragilidade da ONU.

Vamos pegar o que aconteceu agora com Honduras. O que a OEA fez até agora? Fez as reuniões, tomou as decisões, simplesmente o golpista não atendeu nada. Ora, por quê? Porque se a ONU tivesse maior representatividade política, a ONU decidia, cada país cumpria e aí as coisas aconteciam. E é isso que o Brasil defende e eu, sinceramente, eu estou muito otimista de que este ano nós iremos conseguir fazer uma reforma no Conselho de Segurança da ONU, nos seus membros permanentes.

Jornalista:

Presidente: Olha, eu acho que esta é uma obra, possivelmente, a mais importante do Nordeste. Ela é mais importante do que a refinaria de Pernambuco, do que a refinaria que vamos fazer em Fortaleza, do que a refinaria que vamos fazer em São Luís do Maranhão. Ela é mais importante do que a Transnordestina por uma razão: é porque ela trata de um direito elementar e básico do mundo animal e do ser humano, que é água para beber. Ou seja, não é possível que as pessoas não se dêem conta de que a gente não pode ficar a cada verão chorando a seca no Nordeste brasileiro. Então, o que nós resolvemos foi tomar uma decisão de transformar, de forma estrutural, a questão hídrica no Nordeste, atendendo ao Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Jornalista:

Presidente: Ela é irreversível. Veja, eu fico imaginando, nós vamos ter um canal pronto e vamos ter outro que vai estar mais ou menos 70% pronto. Se alguém parar uma obra que falta 30% para terminar, é de uma irresponsabilidade que não tem tamanho. Eu acho que as pessoas que vierem depois de mim vão terminar e vão fazer outras obras mais importantes ainda.

Jornalista:

Presidente: Olhe, eu vou lembrar dois fatos importantes para vocês: em agosto de 2003, eu fui a Ford e disse aos trabalhadores da Ford que eles iriam assistir logo, logo ao espetáculo do crescimento. A imprensa inteira, sobretudo os analistas econômicos, zombaram de mim, muito, os chargistas cansaram de fazer charge ridicularizando a minha proposta. Só que ninguém tem humildade para pedir desculpas porque, em 2004 – eu falei em agosto de 2003 – em 2004, a economia cresceu 5,8%. E eu não vi ninguém pedir desculpas a mim, não vi ninguém.

Eu disse que a crise chegaria por último ao Brasil e iria embora primeiro, que ela seria uma marola no Brasil. Se não fosse o medo de um setor empresarial, puxado pela indústria automobilística, que pisou no breque de forma abrupta, sem necessidade, a gente teria um crescimento positivo, este ano, de pelo menos 2,5 a 3%. Ou seja, o que aconteceu é que nós tivemos uma parada brusca entre dezembro, janeiro e fevereiro.

Agora, vejam o que aconteceu: ontem, o Caged foi 252 mil novos empregos. Neste ano, até setembro, nós já chegamos a 932 mil empregos. Significa que nós vamos ultrapassar 1 milhão de empregos positivos no ano de 2009, enquanto todos os países do mundo… Porque vocês sabem que eu sou o presidente que quando eu viajo, eu me encontro com a maioria dos sindicatos dos países do mundo. Muitos países, os presidentes nunca conversaram com os dirigentes sindicais, e todo país que eu vou, eu converso com os dirigentes sindicais daqueles países, porque eles se sentem iguais a mim.

E todo mundo, todo mundo, está vivendo uma situação de desemprego muito grande, na Alemanha, na França, na Inglaterra, na Itália, nos Estados Unidos. E no Brasil nós vamos gerar um milhão de empregos no ano de maior recessão. Esse é um fato inusitado. O que eu acho? Eu acho que nós, no Brasil, governo, empresários, trabalhadores, políticos, aprendemos que este país só se transformará numa grande potência se ele não parar de crescer. E para não parar de crescer, o Estado tem que ter capacidade de investimento, o Estado tem que ter capacidade de planejamento, o Estado precisa trabalhar junto com governadores e com prefeitos. Por isso é que agora nós vamos fazer um outro PAC 2011-2015. Nós temos a Copa do Mundo, nós temos as Olimpíadas. Até 2016, nós vamos ter tarefas incomensuráveis para fazer neste país. Além disso, o próprio Banco Mundial está estimando que em 2016 o Brasil será a quinta economia do mundo. Então, eu só tenho razões para acreditar e para estar muito otimista.

Jornalista:

Presidente: Você imagina, se dependesse da oposição, eu não fazia o primeiro, não faria o segundo, e ninguém faria nada. Porque o que a oposição quer é que o país pare para eles poderem ter razão, e o que a situação quer é trabalhar mais para não dar razão para a oposição. O dado concreto é que eles tiveram uma chance de fazer e não fizeram, e nós estamos fazendo. Você elabora um plano de investimento não é uma coisa que acontece em um dia. Entre você fazer um projeto executivo, você demora quase que um ano. E nós precisamos deixar uma prateleira de projetos, e deixar dinheiro previsto no Orçamento, para que quem vier possa começar bombando, trabalhando muito, porque o Brasil aprendeu a gostar de crescer, o povo aprendeu a gostar de trabalhar. Vocês viram a cara desse povo aí, trabalhando. Quando é que a gente via essa imagem no sertão nordestino? A gente não via. Então, eu acho que todos nós aprendemos que não existe possibilidade de o Brasil parar de crescer. E agora com o pré-sal, então, nem me fale.

Jornalista:

Presidente: Olha, você quer saber o que eu penso? Eu penso que, primeiro, nós temos ainda pelo menos seis meses pela frente, para que a gente tenha uma definição do quadro eleitoral de 2010: quem é que vai ser candidato a presidente, quem vai ser candidato a governador, todo mundo tem claro. Eu só queria dizer uma coisa para você, com muito carinho, aqui, o Eduardo Campos… Se a gente não se entender nacionalmente, que eu acho que se entende… Vocês não perceberam que o Ciro e a Dilma estão sempre juntos? A Dilma e o Ciro estão sempre juntinhos? Olha aí, ó. Ou seja, para a gente não se entender, eu quero dizer para vocês, eu não me vejo, vindo a Pernambuco, sem estar no palanque desse moço aqui, eu não me vejo indo ao Ceará sem estar no palanque desse moço aqui, porque nós construímos essa relação. Então, nós vamos trabalhar. Nós temos ainda seis meses para maturar, muita coisa vai acontecer, e aí nós vamos anunciar. Eu gostaria – e o momento vai prever se vai ser possível ou não – que todos nós tivéssemos apenas um candidato, que fizéssemos uma eleição plebiscitária, ou seja, nós contra eles, pão, pão, queijo, queijo. Se isso não for possível, paciência.

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