Indizível Solidão | Por Roque do Carmo Amorim Neto

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.
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Acabo de chegar do cinema, vi The Stepfather (“O Padrasto”, em tradução literal). O filme conta a história de um assassino que se aproxima de mulheres divorciadas, mães de crianças ou adolescentes, e a elas conta a história de um suposto acidente que vitimou sua esposa… Deliberadamente ele faz comentários sobre o valor de se viver em família. Estas mulheres, por se sentirem sozinhas e sob a responsabilidade de educar seus filhos, acabam se deixando envolver por aquele simpático homem que sutilmente parece lhes oferecer o que elas mais buscam…

O que mais me chamou a atenção no filme foi o fato de que todas as pessoas ao redor da mulher que se apaixonou pelo assassino (o ator Dylan Walsh) a questionam por em tão pouco tempo levar um estranho para casa. A resposta dada para seus amigos e familiares é que aquele homem a fez sentir-se viva e amada novamente, e é isto o que importa.

Deixei o cinema em silêncio… Enquanto caminhava pela noite e sentia o ar gelado tocar meu rosto, conclui que infelizmente esta história é, de certa modo, verdadeira para todos nós ou, pelo menos, para muitos de nós. Assim como crianças que fazem tudo por um doce ou pelo presente da moda (sempre o mais caro), algumas vezes ficamos tão ávidos por afeto e atenção que fechamos os olhos para o risco que corremos.

Não quero dizer com isto que muitos de nós tenhamos trazido um charmoso assassino para casa, como no filme. Alguns talvez já! Todavia, a maioria de nós certamente já se viu mendigando afeto a todo custo, muitas vezes mutilando a própria dignidade e o aplaudido bom senso. E as migalhas que vamos recebendo vão nos alimentando, mas também despertando o desejo por mais… E, assim como quem usa drogas, sempre buscamos um pouco mais, na tentativa de reviver a primeira sensação ou mesmo de ultrapassá-la.

Talvez este aspecto do filme não tivesse me chamado tanta a atenção se nos últimos dias já não viesse pensando sobre este tema difícil de escrever, sem necessariamente ter que abrir o coração e falar de mim mesmo.

Morando em um país estrangeiro, longe da família, e apesar do contato quase diário via internet com alguns dos meus melhores amigos, muitas vezes já me senti só… E quando menos esperava me vi me sujeitando a situações estranhas apenas para poder estar na companhia de alguns “colegas” e me sentir parte de um grupo.

Horas e horas em um interminável e monótono jogo de futebol americano. Chamadas telefônicas às 2 horas da manhã atendidas com certo temor apenas para ouvir algum colega bêbado do outro lado perguntar por alguma atividade acadêmica para o dia seguinte. Tudo em nome do desejo de me sentir menos sozinho em terras estrangeiras… Tudo em vão!

Acontece que, mesmo antes de deixar meu país, eu já experimentava certa solidão, mesmo estando perto da família que amo tanto ou dos amigos pelos quais tenho a maior devoção. Acontece que todas as minhas vivências por mais que eu as tente partilhar serão sempre indizivelmente minhas. Por mais que eu seja bom em contar histórias, nunca poderei fazer com que as pessoas sintam e percebam os fatos como eu os experimento…

Minhas vitórias e fracassos são apenas meus… Eu os ofereço aos que amo, mas nem sempre os vejo recebendo como gostaria que recebessem. Algumas vezes, os vejo me ouvirem para em poucos segundos mudarem de assunto, como se o que acabo de dizer não tenha o menor valor para eles.

Certamente o meu grande aprendizado nestes últimos tempos tenha sido o de aprender a ficar comigo mesmo e assim me sentir feliz. Isto nem sempre foi possível e várias vezes tentei buscar nos outros respostas para as minhas questões, alimento para minha dependência afetiva… Tudo em vão! A resposta não está fora de mim… Nunca esteve!

Algumas vezes, como no filme que vi hoje, talvez seja necessário nos sentir em perigo, ou pelo menos muito incomodados, para perceber que o preço pela atenção e afeto dos outros, pela sensação de ser querido por alguém, é mais caro do que podemos pagar…

O filme me fez pensar neste tema e a caminhada, o vento gelado e o silêncio do meu coração me fez concluir que há alguma coisa de indizível em nós, alguma coisa que não podemos comunicar de nós mesmos… Mas que apenas podemos comunicar a nós mesmos, se silenciarmos…

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