Entrevista coletiva concedida pelo Presidente Lula, durante visita a obras de revitalização do rio São Francisco na cidade de Barra

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.
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Barra, Bahia, 14 de outubro de 2009. Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva

Presidente: Gente, o que vocês querem saber? Rapidinho, porque eu tenho um barco aí para pegar.

Jornalista: Qual a importância da obra para os nordestinos?

Presidente: Olha, eu penso que tem duas coisas que nós precisamos compreender: essa obra, ela visa fazer um reparo histórico para uma parte do Brasil, que ao longo de séculos foi vítima da seca e que não permitiu que o povo tivesse oportunidade sequer de ter água para beber ou água para os animais. Essa obra, todos vocês sabem, ela foi pensada ainda no tempo do Império. Dom Pedro tentou fazer essa obra em 1846 ou 1847, não foi possível por problemas políticos ou por problemas de dinheiro e era uma obra, se vocês lembrarem bem, eu nunca prometi em nenhuma campanha fazer as obras do rio São Francisco.

Entretanto, quando eu tomei posse, que tive acesso ao esboço de projeto que tinha, eu pedi para o vice-presidente José Alencar, no primeiro momento ser o coordenador e conversar com todos os governadores e prefeitos. Depois, o companheiro Ciro Gomes assumiu a elaboração do projeto e as articulações políticas. Depois o companheiro Ciro Gomes saiu para ser deputado, entrou o companheiro Geddel como ministro da Integração, e nós estamos fazendo aquilo que deveria ter sido feito há muitas décadas, há mais de um século atrás, ou seja, é tentando levar água para 12 milhões de nordestinos que moram no semi-árido beber essa água. E fazer com que uma parte dela possa ser aproveitada para o pequeno agricultor.

É uma obra que vai demorar ainda uns anos para ser concluída. Nós estamos fazendo essa visita para a gente constatar o volume de gente que está trabalhando, o avanço dessas obras e o benefício que ela vai trazer, porque quando nós pensamos a obras, nós tivemos uma atitude que foi a mais sensata possível. Antes de você concluir a transposição, você fazer um processo de revitalização em todo o rio São Francisco, ou seja, você recuperar as matas ciliares, você fazer com que o rio não desbarrancasse mais, você recuperar as margens do rio. E isso está permitindo, junto com o esgotamento sanitário que estamos fazendo em todas as cidades às margens do rio São Francisco, a gente poder dizer ao povo do rio São Francisco, ao povo brasileiro, que a gente vai ter o rio melhor cuidado, sabe, que as prefeituras não vão jogar mais dejetos in natura no rio, que a gente vai tentar trabalhar para recuperar e manter os afluentes jogando água no rio São Francisco.

Estamos fazendo dragagem para tornar o rio navegável até Juazeiro. Depois de tudo isso, nós vamos tirar o copo d’água (falha no áudio) na totalidade do rio São Francisco. São 26 metros, o que é quase nada, se comparar com o que alguns projetos de irrigação tiram de outros rios. Eu acho que será uma obra que vai marcar uma mudança em uma região do Nordeste muito pobre, vai tornar alguns rios perenes, vai tornar os açudes sempre com água. Portanto, a gente vai poder garantir que o povo vai ter água para beber, para cuidar de pequenos animais, e a gente vai viver muito melhor.

Jornalista: (incompreensível) questionado sobre a transposição do São Francisco, sobre (incompreensível), levar água na cabeça (incompreensível) a questão da água no Nordeste. (incompreensível) o senhor não tinha certeza sobre a transposição do São Francisco. Eu queria saber em que momento o senhor definiu essa certeza, o que lhe fez…

Presidente: Veja, havia um debate técnico naquele momento, de pessoas que diziam que se tirasse 26 metros cúbicos de água por segundo, iria causar problema. Aí nós constatamos, tecnicamente, que não teria nenhum problema. Essa água do rio São Francisco, chega um momento em que ela vai para o mar. Aí foi que eu disse que se eu pudesse eu ia na beira do mar, antes de ela entrar no mar, e eu traria ela volta na cabeça, para levar água para os nordestinos beberem. Eu tive certeza, na verdade, depois de eleito presidente da República, porque antes eu não tinha assumido compromisso. Nós cansamos de ver candidatos a presidente que chegavam no Ceará – que era favorável – e ele dizia que era favorável; chegava na Bahia – que era contra – e ele dizia que era contra, e assim por diante.

Então, essa obra foi sendo levada e prometida ao longo de décadas e décadas. Eu, como nunca prometi, e como sou nordestino, e como com sete anos de idade já carregava pote d’água na cabeça, eu sei o que é uma pessoa andar 15 quilômetros com um balde d’água na cabeça, com um pote na cabeça, eu sei o que é. Portanto, eu me sinto moralmente comprometido em fazer essa transposição, porque é uma necessidade. E veja que engraçado: os governadores que eram contra não foram tão contra, os estados que eram contra não foram contra, porque na medida em que a gente saiu para conversar com as pessoas e para mostrar a necessidade, as pessoas compreenderam. Hoje, essa obra está sendo feita, nós queremos mostrá-la a todo o Brasil porque muita gente no Sul e no Sudeste não conhece a importância desta obra, e nós precisamos mostrar para eles que nós estamos fazendo uma integração de cidadania neste país. A água é uma coisa elementar para qualquer ser humano e para qualquer animal. Quem tiver dúvida, é só perceber que o seu corpo tem ¾ de água e, portanto, nós precisamos de água. Nós estamos fazendo isso: levando um copo d’água para quem não tem água para beber.

Jornalista: O senhor ainda precisa convencer os maiores opositores do Projeto?

Presidente: Não, eu não tenho preocupação em convencer opositores. Agora, a obra já foi aprovada pelo Meio Ambiente, a obra já está em execução. A sociedade já tem a dimensão. Eu espero que vocês tenham visto coisas aí, importantes, que mereçam a compreensão de vocês e a obra vai ser concluída. Na verdade, sempre tem pessoas que são contra. Agora, as pessoas que são contra, certamente, não conhecem a situação que vive o povo do semiárido. Junto com isso, nós estamos fazendo cisternas; junto com isso, nós estamos fazendo as barragens que precisam ser feitas, porque não é apenas uma obra. Essa é como se fosse uma artéria, essa vai irrigar água, de forma perene, para uma região enorme do Brasil, que envolve o estado do Ceará, o estado de Pernambuco, o estado da Paraíba e o estado do Rio Grande do Norte.

Ainda assim, nós decidimos fazer o programa Água para Todos, que vai levar água a todas as comunidades que moram às margens do rio São Francisco. Além disso, vamos fazer os projetos de irrigação que estavam parados. Então, não é uma obra, é um conjunto de obras que nós achamos que vai ter como resultado final a melhoria da vida de milhões de pessoas que durante séculos foram esquecidas neste país. E nós achamos que não tem por que este país ser diferenciado. Nós queremos ser diferenciados na cultura, mas nas condições e nas oportunidades, nós temos que garantir a igualdade. E acho que nós precisamos tirar o atraso a que o Norte e o Nordeste foram submetidos ao longo de séculos, para que a gente possa chegar, ainda no século XXI, a ver o Brasil mais uniforme, mais igual e mais justo.

Jornalista: Presidente, quando de fato, a população sentirá o impacto dessa obra?

Presidente: Ora, veja, o impacto, ela começa a sentir quando ela começa a ser feita. Se você for aqui, você está vendo nesse processo de compostagem, trabalhadores ganhando o seu salário fazendo compostagem; trabalhadores trabalhando em viveiros, plantando e ganhando salário; os trabalhadores que trabalham na recuperação das margens. Agora…e você vai ver oito mil trabalhadores trabalhando na elaboração do canal. Isso já é um ganho extraordinário para uma região que vivia de frentes de trabalho. Mais ainda, quando estiver tudo pronto, que a água estiver, sabe, passando por todos esses estados, a gente vai poder então ver o povo viver melhor. Primeiro porque vai ter água para beber, segundo porque vai ter o processo de irrigação de pequenas agriculturas, os açudes vão estar sempre perenizados, sempre cheios e isso vai facilitar a vida das pessoas.
Nós queremos acabar com aquela história de que um açude é feito, você não pode fazer nenhum processo de irrigação, de plantio na beira do açude e a água fica acumulada para o sol evaporá-la. Então, nós queremos que o sol beba menos água e que o povo utilize um pouco mais da água.

Jornalista: Aqui no Nordeste o senhor tem o campo e a bola para a ministra Dilma?

Presidente: olhe, veja, veja que engraçado, eu convidei o companheiro Ciro Gomes para vir aqui por uma questão de respeito por um homem que foi, no primeiro momento, o grande elaborador desse projeto, foi a pessoa que brigou por esse projeto e trouxe a companheira Dilma e também ia trazer o companheiro José Alencar, se ele estivesse bem de saúde. Porque eu acho que em uma obra dessa a gente não pensa em fazer lançamento de candidatura, até porque a eleição está muito longe, ou seja, em uma obra dessa a gente vem dizer para o povo que essa obra vai acontecer de verdade e que eles vão ser beneficiários de uma obra gigantesca, que precisou de muita coragem política, muita capacidade de enfrentamento dos contrários, para que a gente pudesse hoje estar visitando essa obra.

Jornalista: Presidente, o senhor gosta da dupla ministra Dilma e deputado Ciro?

Presidente: Olha, eu adoro os dois, eu adoro os dois, mas me parece que eles têm vocação para serem cantores “solo”, mas de qualquer forma, eu adoro os dois e vamos ver o que vai acontecer.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Não, isso aqui é dupla (incompreensível). Isso aqui é meio-esquerda e ponta esquerda. Isso aqui tá…Tá bem, gente, eu vou ter que ir agora porque eu tenho horário, que tem um problema que eu tenho que pegar o avião antes de o sol se esconder e aqui no Nordeste o sol costuma se esconder entre cinco e meia, não é que nem lá no Sul, que vai até seis e meia, por aí. Então, aqui a gente, escurece mais cedo, a gente levanta mais cedo, o sol se põe mais cedo, mas, nós temos que ir, então.

Bom trabalho para vocês.

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