Entrevista coletiva concedida pelo presidente Lula, em conjunto com o presidente da África do Sul, Jacob Zuma

Presidente Lula: cabe a nós, aqui, desempenharmos o nosso papel e fazer com que cresça muito o fluxo entre os dois países.Presidente Lula: cabe a nós, aqui, desempenharmos o nosso papel e fazer com que cresça muito o fluxo entre os dois países.

Caro amigo e companheiro Zuma, presidente da África do Sul,

Ministra Maite Nkoana, ministra das Relações Internacionais e Cooperação, por meio de quem saúdo os demais integrantes da Comitiva sul-africana,

Ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, por intermédio de quem eu cumprimento os demais ministros brasileiros,

Amigos e amigas,

Companheiros da imprensa brasileira e da imprensa africana,

A presença do presidente Zuma, da África do Sul, em Brasília, nos enche de alegria. Ele é testemunho do poder transformador da vontade de uma nação.

No passado, celebramos a luta do povo sul-africano contra o apartheid. Hoje, homenageamos líderes como o companheiro Zuma, que sacrificaram a própria liberdade em defesa da liberdade de seu povo. Admiramos a diversidade da democracia que estão construindo.

Como o Brasil, a África do Sul está agora engajada em outra batalha. Nossas nações estão superando uma herança de séculos de exclusão. Temos pressa em eliminar todas as formas de discriminação.

O governo e a sociedade brasileira estão mobilizados para derrotar o racismo, essa forma particular e perversa de exclusão. Esse objetivo é mais que um imperativo da democracia. É o reconhecimento do legado maior da África à nossa cultura: a capacidade de moldar uma rica comunidade de diferentes etnias, de distintas religiões, de diversas origens nacionais.

Caro amigo Zuma,

Sua visita reforça os laços entre países que nasceram para ser amigos e sócios. Consolidamos a estabilidade macroeconômica; estamos unindo desenvolvimento com justiça social; construindo uma democracia com cidadania para todos.

A África do Sul e o Brasil se inserem soberanamente no mundo. Queremos ser mais parceiros. Nosso comércio triplicou em poucos anos, chegando a US$ 2,5 bilhões, em 2008. Empresas brasileiras – como a Marcopolo, a Vale e a Odebrecht – já fazem investimentos na África do Sul.

Firmas sul-africanas apostam no Brasil. Criamos um Grupo de Trabalho para catalisar essas iniciativas. Tenho certeza de que essa também é sua convicção após visitar São Paulo, ontem, acompanhado de importante delegação empresarial. A missão que, em breve, meu Ministro da Indústria e Comércio fará à África do Sul consolidará definitivamente essas oportunidades de negócios.

As possibilidades se multiplicam ainda mais com as Copas do Mundo de 2010 e 2014 em nossos países e as Olimpíadas no Rio de Janeiro, em 2016. Precisamos trabalhar para aumentar o turismo, multiplicar as conexões aéreas e explorar as possibilidades abertas pelos acordos que assinamos de cooperação esportiva.

O futuro de nossa parceria também passa por setores de ponta como a biotecnologia, astronomia, nanotecnologia e informática. Este é o sentido das atividades do Comitê Conjunto de Cooperação Científica e Tecnológica, que realizou sua 1a reunião em maio deste ano.

Outro campo de enorme potencial é o energético. A experiência brasileira em biocombustíveis e o domínio sul-africano em matéria de liquefação de carvão e gás natural nos fazem parceiros naturais no momento em que a comunidade internacional busca alternativas energéticas limpas e renováveis.

Queremos incluir nossos vizinhos em nossa parceria. É o que estamos fazendo com a assinatura, este ano, do Acordo de Comércio Preferencial entre o Mercosul e a União Aduaneira da África Austral.

Senhor Presidente,

Estamos construindo um mundo mais justo, mais democrático e multipolar, no qual os países em desenvolvimento sejam protagonistas. Queremos um mundo sem guerras e, por essa razão, também cooperamos no campo da defesa, zelando pela paz no Atlântico Sul.

O Fórum Índia-Brasil-África do Sul é a face mais visível de nossa cooperação. A ajuda trilateral a países carentes é nossa resposta ao desafio de aprofundar as relações Sul-Sul. No momento em que o planeta enfrenta desafios sem precedentes, estamos unindo forças e projetando visões alternativas.

Na ONU, na OMC, no G-5 ou no G-20, ajudamos a fundar uma nova ordem internacional. Estamos empenhados em uma reforma que devolva representatividade e legitimidade às Nações Unidas e a seu Conselho de Segurança.

Com o firme apoio da África do Sul, vamos movendo o centro de gravidade da economia mundial. Deslocamos o G-8 do centro da governança econômica e financeira global. Abalado pela crise gerada no seio do mundo desenvolvido, o seleto clube de ricos não resistiu à realidade dos fatos: não é mais possível ignorar o mundo em desenvolvimento.

Também na OMC atuamos lado a lado para corrigir distorções inadmissíveis do comércio agrícola mundial. Iremos provar em Copenhague que preservação ambiental e desenvolvimento são compatíveis. Fazemos nossa parte para reduzir emissões. Mas a principal responsabilidade em dezembro será dos países desenvolvidos, que há mais de 100 anos despejam CO2 na atmosfera.

Amigo e companheiro Presidente,

A América do Sul e a África são continentes com vocação para a democracia e a integração regional. Em ambos os lados do Atlântico, estamos aprendendo a encontrar soluções compartilhadas para problemas comuns. Nossos países têm responsabilidades na definição do novo perfil de nossos continentes, centrado na justiça social, na promoção da estabilidade política e dos direitos humanos.

A América do Sul tem muito a aprender com os avanços da União Africana na consolidação da paz, segurança e desenvolvimento naquele continente. Foi o que assegurei na Cúpula da União Africana e na reunião América do Sul-África.

O Brasil quer ser sócio no desenvolvimento da África. Contamos com lideranças como a sua para fazer de nossa vizinhança uma verdadeira aliança transatlântica.
Muito obrigado.

Presidente Jacob Zuma: ___________

Jornalista: Boa tarde Presidente. Por favor, presidente Lula, o senhor acha que a concessão do Prêmio Nobel da Paz ao presidente Obama foi uma decisão precipitada ou foi uma forma de pressão, já que o país tem duas guerras em andamento? Eu gostaria de saber, também, se o senhor almeja esse Prêmio. E, falando em paz, eu queria saber se o senhor podia comentar: tem preocupação com a violência do MST aqui no Brasil? E se o presidente Zuma quiser falar sobre o presidente Obama eu também agradeceria.

Presidente: Olha, primeiro, eu já mandei um telegrama ao presidente Obama e, talvez, eu converse com ele hoje à tarde, eu vou tentar ligar, porque eu acho que o Obama certamente vai partilhar o Prêmio que ele ganhou com o grande gesto do povo americano nas eleições, últimas, nos Estados Unidos, quando elegeu pela primeira vez um negro para ser presidente dos Estados Unidos. Esse é um feito extraordinário que eu acho que precisa ser premiado de todas as formas.

A segunda coisa, é que eu acho que o Prêmio Nobel é uma conquista de um presidente que anunciou medidas importantes para conter o armamento nuclear, eu acho que isso, certamente, fez com que os homens dessem o Prêmio para ele. Acho que o Prêmio está em boas mãos, eu espero que a paz aconteça definitivamente no mundo e que a gente não tenha bomba nuclear. É importante lembrar que o Brasil é um dos principais países do mundo que tem na sua Constituição a proibição de utilização de arma nuclear.

Ora, com relação ao MST. Todo mundo sabe que eu sou defensor das lutas sociais neste país, que eu sou defensor das lutas que o povo se manifesta pelo Brasil inteiro. Agora, entre uma manifestação reivindicando alguma coisa e aquela cena de vandalismo feita na televisão, obviamente que eu não posso concordar com aquilo, porque não tem explicação para a sociedade você derrubar tantos pés de laranja apenas para demonstrar que você está reivindicando. Você poderia demonstrar sem precisar fazer destruição, em máquinas, em pés de laranja. De qualquer forma, eu acho que todo mundo no Brasil já aprendeu que este país tem lei, tem Constituição, quem tiver dentro da lei pode fazer qualquer coisa, quem não tiver pagará o preço por fazer.

Ah, do Imposto de Renda, você perguntou?

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: É… essa coisa, essa coisa não se almeja, ou seja, eu, no dia que almejar, eu me inscrevo. E vou pedir para você assinar o abaixo-assinado, me defendendo.

Jornalista: Presidente Lula, estou ouvindo comentar, senhor Presidente, que o comércio entre o Brasil e a África do Sul está muito distorcido em favor do Brasil, como podemos fazer para equilibrar as condições? E, em outubro do ano que vem haverá o final de alguns acordos de preferências, por exemplo, no âmbito do IBAS e outros. Eu gostaria de ver em que medida o seu sucessor… como seu sucessor tratará esse desequilíbrio que existe com a África?

Presidente: Primeiro, eu gostaria que o companheiro jornalista que fez a pergunta estivesse na capital da África do Sul quando nós formos lá, em julho do ano que vem – eu espero que a data seja mais ou menos combinada com a Copa do Mundo – porque nós, Brasil e África do Sul, vamos trabalhar de forma intensa para que a gente possa concluir, até a minha visita à África do Sul, um acordo estratégico entre África do Sul e Brasil. Até lá, os nossos ministros, vários deles, de Ciência e Tecnologia, Energia, Saúde… vão viajar à África do Sul, muitos ministros da África do Sul virão para cá antes dessa viagem, mais reuniões empresariais, para que a gente possa concluir um grande acordo estratégico entre África do Sul e Brasil.

Quem me acompanha na política, nesses sete anos, sabe que eu sempre defendi um comércio equilibrado, o comércio tem que ser uma via de duas mãos, ou seja, nenhum pode ganhar demais e nenhum pode perder demais, tem que ter um certo equilíbrio. E eu acho que África do Sul e Brasil ainda não exploram 20% do potencial que nós temos no fluxo comercial entre os dois países, possivelmente porque estivemos olhando para outros lados e não para as possibilidades e para as complementaridades que têm a África do Sul e o Brasil.

E qualquer pessoa que vier a assumir a Presidência da República hoje, no Brasil, sabe que o Brasil tem uma política muito forte com relação à África, sabe que a África do Sul é um país extremamente importante. Portanto, nós vamos começar a fazer um trabalho agora, consolidar a parceria estratégica, aumentar o comércio entre África do Sul e Brasil, trabalhar para que seja equilibrado. Nós temos muita coisa para comprar da África do Sul. E, portanto, eu acho que nós vamos, daqui para frente, até a minha visita à África do Sul, daqui a alguns meses, a gente vai fazer mais rapidamente a nossa integração definitiva, até porque os dois países são estratégicos na relação Sul-Sul.

A África [do Sul] é um dos principais países do continente africano. O Brasil tem uma boa relação com a África do Sul. Eu tenho certeza que da mesma forma que o povo brasileiro gosta do povo sul-africano, o povo sul-africano gosta do Brasil. Então, agora cabe a nós, aqui, desempenharmos o nosso papel e fazer com que cresça muito o fluxo entre os dois países.

Jornalista: Presidente, o senhor autorizou a retenção da restituição do Imposto de Renda, e essas restituições vão ser pagas até o fim do ano? E o senhor não acha que reter o Imposto de Renda não é culpar a sociedade pela crise, pela baixa do fluxo de caixa do governo? E por falar em crise, o senhor considera que terminou essa crise no Enem e ele perde um pouco a credibilidade?

Presidente: Olha, primeiro, eu acho falta de compreensão achar que um governo teria interesses econômicos em reter o Imposto de Renda, porque nós pagamos a taxa Selic. Portanto, nós não temos nenhum interesse de reter. E não é a primeira vez na história do Brasil, nem na história mais velha, nem na história mais nova, de que em momentos, por problemas ou da Receita ou de quem faz a emissão dos pagamentos, tem problemas e pode atrasar 10 ou 15 dias. Nós também já pagamos adiantado.

Não há nenhum interesse de que essas coisas aconteçam, porque o que nós queremos é que o povo tenha mais dinheiro para consumir e que, portanto, se o povo tiver dinheiro na mão, quem vai ganhar é o consumo, são os índices de produtividade das empresas, os índices de comércio, que vão crescer muito mais.

Olha, eu acho que o Enem é daqueles incidentes que ninguém quer. Eu, sinceramente, não posso acreditar que no momento que está vivendo o Brasil, alguém tivesse a intenção de roubar uma prova do Enem e levar para a imprensa, porque antigamente se levava para vender aos cursinhos. Eu não sei se tinha alguém que se sente prejudicado pelo Enem ou que se sentia prejudicado pelo Enem e resolveu fazer com que o Enem não desse certo este ano. Se a pessoa pensou que estava prejudicando o governo, a pessoa, na verdade, foi um irresponsável que prejudicou a tentativa de milhões de jovens, através do Enem, de entrarem na universidade. Retardou, pelo menos, a pretensão desses jovens. A gente não pode afirmar a serviço de quem que isso aconteceu. Eu não sei quem é que se sente prejudicado com o Enem, você poderia me ajudar nisso, fazer uma investigação, quem é que se sentia prejudicado com o Enem, porque pode ter haver com quem roubou a prova do Enem.

Jornalista: Boa tarde, senhor presidente Lula, presidente Jacob Zuma, obrigado pela oportunidade. Não sei se os senhores têm algum conhecimento devido ao grande tráfico que existe entre a África do Sul, aliás, entre o Brasil e a África do Sul, tráfico de drogas entre os dois países. Presidente Lula, segundo dados da Polícia Federal, existem mais de 100 cidadãos sul-africanos em penitenciárias brasileiras no momento. Qual é o esforço que está sendo feito entre os dois países para combater esse tráfico?

Presidente Lula, existe a possibilidade de extradição de prisioneiros, cidadãos aqui no Brasil, seguirem a sua sentença na África do Sul?

Presidente: Olha, se tem uma coisa que eu aprendi a respeitar é a Constituição de cada país e a lei de cada país. Se tem cidadãos brasileiros presos na África do Sul porque infringiram a lei sul-africana, e se tem cidadão brasileiro, um cidadão sul-africano preso no Brasil porque infringiu a lei brasileira, essas pessoas têm que ser julgadas e têm que ser punidas, depois poderemos discutir sim ou não a extradição. Acho que nessa parceria estratégica que nós estamos construindo, certamente irá participar a Polícia Federal dos dois países, irá participar o Ministério da Defesa dos dois países para que a gente possa intensificar em toda e qualquer fronteira o combate ao narcotráfico porque nós não podemos permitir que o narcotráfico se transforme em uma indústria como tem se transformado no mundo.

Palácio Itamaraty – Brasília-DF, 9 de outubro de 2009

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Redação do Jornal Grande Bahia
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