Entrevista concedida pelo presidente Lula às rádios dos estados beneficiados pelo projeto São Francisco

Em 15 de outubro de 2009, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou às obras do Eixo Leste, um dos canais que vão integrar o São Francisco.
Em 15 de outubro de 2009, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou às obras do Eixo Leste, um dos canais que vão integrar o São Francisco.

Coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, Custódia-PE, 15 de outubro de 2009.

Rádios que participaram da entrevista: Rádio Jornal do Comércio(PE), Rádio Sociedade(BA), Rádio Verdes Mares(CE), Rádio Mirante(MA), Rádio Itatiaia(MG), Rádio 101 FM(PB), Rádio Sertânia FM (PE), Rádio Itapuama FM(PE), Rádio Verdes Mares (PI), Rádio Ilha FM (SE).

Luciano Seixas: Bom dia, Presidente Lula.

Presidente: Bom dia, Luciano.

Luciano Seixas: Vamos começar esta entrevista falando sobre esta visita às obras dos Eixos Leste e Norte do Projeto de Integração do rio São Francisco. Ontem e anteontem, o senhor esteve em Minas Gerais e na Bahia, não é isso?

Presidente: Luciano, primeiro eu quero cumprimentar todos os companheiros que estão aqui para a entrevista e dizer que estão junto comigo aqui o governador de Pernambuco, o Eduardo Campos; o nosso ministro responsável pela obra, companheiro Geddel; a ministra Dilma Rousseff, que é coordenadora do PAC; e o nosso executivo direto da obra, o companheiro João Santana, do Ministério da Integração.

Eu penso, meu caro Luciano, que essa visita nossa, ela faz parte de uma fiscalização que o governo tem que ter. Desde pequeno, a gente aprende o seguinte: o porco engorda com os olhos do dono.  Se o dono não estiver olhando o porquinho, ele morre de magro… E eu penso que essas obras são de tamanha importância para o Brasil que essa visita de fiscalização que nós estamos fazendo, de reconhecimento da obra é uma necessidade. O Geddel tem feito isso sistematicamente, eu, a primeira vez que estou fazendo, a Dilma já fez, essa é a segunda viagem da Dilma, e daqui para frente nós temos que andar muito mais, fiscalizar muito mais porque nós pretendemos inaugurar uma parte desta obra ainda em 2010.

Luciano Seixas: Está certo. Participando desta entrevista e transmitindo ao vivo ainda a rádio Verdes Mares, do Ceará; a rádio Mirante AM, do Maranhão; e a rádio Verdes Campos, do Piauí. Vamos começar com o companheiro Eduardo Costa, da rádio Itatiaia, de Belo Horizonte. Eduardo, bom dia.

Jornalista: Bom dia. Bom dia, Presidente. Os mineiros não são contra dividir água com os irmãos nordestinos até porque, o senhor conhece bem, nós temos nosso Vale do Jequitinhonha, que guarda características do semiárido e mais do que isso,  o “Velho Chico” é o rio da integração nacional. A preocupação, Presidente, de ambientalistas responsáveis, é saber se o rio vai dar conta de fornecer água para cá e continuar existindo? Agora, que o senhor já visitou, inclusive, no norte mineiro, obras de revitalização, o senhor já pode garantir isso aos mineiros e aos brasileiros? O rio São Francisco vai ser mais útil e continuará forte?

Presidente: Olha, primeiro, eu quero cumprimentar os ouvintes da rádio Itatiaia. Mas, Eduardo, há uma celeuma criada no momento em que a gente estava elaborando o projeto e no começo das obras, desnecessária e fora de tempo. Nós estamos tirando um copo d’água do rio São Francisco se for comparado ao volume de água do rio São Francisco. Essa água iria para o mar, ela não iria passar na fazenda de ninguém, na casa de ninguém, ela iria diretamente para o mar. Nós estamos tirando 26 metros cúbicos por segundo de água para atender a 12 milhões de pessoas de mais de 390 cidades, que são as cidades que compõem o semiárido nordestino.

Ora, nós tivemos o cuidado e a responsabilidade de antes de a gente começar a tirar água, a gente assumir o compromisso da revitalização do rio São Francisco. Isso pressupõe fazer esgotamento sanitário em todas as cidades, porque nenhuma tinha esgotamento sanitário. Isso pressupõe que a gente recupere as margens do rio de Janeiro [rio São Francisco], replantando as matas ciliares, fazendo um verdadeiro mutirão de recuperação das margens do rio São Francisco, em todo o seu percurso, o que significa uma obra de grande envergadura. E ao mesmo tempo, nós estamos levando água para as pessoas que moram às margens do rio São Francisco, porque não basta morar perto do rio São Francisco para ter água, é preciso bombear essa água e levar água à casa das pessoas. E nós estamos fazendo isso. Hoje eu estou convencido de que a sociedade brasileira já assimilou, porque começou com uma coisa menor, ou seja, os estados doadores e os estados receptores. Não tem estado doador e estado receptor. A água é criada pela natureza, o rio é federal, o rio, portanto, é um rio de integração nacional. Nós estamos apenas fazendo aquilo que D.Pedro queria fazer em 1847.

Jornalista: Tem aquela história também, Presidente, que a água vai… produzir para exportar, e não para gente pobre? Tem essa conversa também.

Presidente: Veja, mas a água é utilizada para exportação hoje, antes da revitalização e antes de a gente fazer a transposição. Ora, quem é que tem dinheiro para fazer irrigação hoje? São os ricos, que utilizam a água do rio São Francisco para fazer irrigação. Você tem projeto de irrigação que, sozinho, vai tirar o dobro de água do que tira o rio São Francisco para atender a 12 milhões de pessoas. No fundo, no fundo, no fundo, as pessoas têm uma mania de brigar à toa, porque se algum governador foi contra ou se algum prefeito foi contra, ele deveria, antes de ser contra, saber se ele estava fazendo a sua obrigação para com o rio São Francisco, se ele estava fazendo tratamento de esgoto para jogar o esgoto tratado e jogar água limpa no rio São Francisco, se ele estava trabalhando para recuperar as matas ciliares, recuperar as margens do rio.

A verdade é que ninguém estava fazendo isso, a verdade é que uma das razões de o rio São Francisco estar assoreado hoje é que, de forma irresponsável, as pessoas desmataram praticamente todo o cerrado em volta do rio São Francisco para fazer carvão, e, nunca, nenhum governador se importou com isso, nunca. A verdade é que você vê esgoto a céu aberto, caindo dentro do rio São Francisco, todos os dejetos humanos caindo, e ninguém cuidava. Então, nós assumimos a responsabilidade de cuidar do Velho Chico com muito carinho, e depois que a gente cuidar a gente vai pedir um copinho d’água para dar para 12 milhões de famílias que não têm o que beber. Eu acho que ninguém pode negar água para ninguém. Agora, é preciso que a gente cuide do rio São Francisco, que a gente tente recuperar os afluentes do rio São Francisco, que a gente tente fazer com que o Velho Chico volte a ser navegável. Por isso, estamos fazendo dragagem em boa parte do rio São Francisco. Você está lembrado de que em 1994, quando eu fui fazer a viagem pelo rio São Francisco, de barco, foram 14 dias, eu tentei sair de Pirapora e não consegui porque o rio estava assoreado. Então, nós tivemos que vir a Carinhanha, na Bahia, para a gente poder sair de barco. E nós agora queremos que o rio seja navegável, para que esse rio volte a contribuir na produção de riquezas para o povo brasileiro.

Jornalista: A gente agradece a participação do companheiro Eduardo Costa nesta primeira rodada de perguntas. Agora, a palavra com Geraldo Freire, da rádio Jornal do Comércio, de Pernambuco. Geraldo, bom dia.

Jornalista: Bom dia. Presidente, eu estou preocupado com esse dedo do senhor, que está baleado, com medo que o senhor não perca outro dedo. Por azar, é na mesma mão. O que houve com esse dedo?

Presidente: Essa mão aqui, eu acho que tem uma urucubaca na minha mão esquerda. Eu acho que a mão esquerda minha, eu já não tenho um dedo pequeno. Eu estou com um problema no tendão do dedão, o mais importante do ser humano. E agora, o indicador. Eu fui tomar um banho no chuveiro – faltava meia hora para eu me encontrar com a rainha Silvia, lá na Suécia -, e o chuveiro estava com aquele suporte que segura ele meio aberto. Eu fui fechar, e quando eu fui fechar, cortei, tomei cinco pontos, e cheguei combalido para conversar com a nossa Rainha. Mas eu fui bem tratado porque eu tinha mandado jabuticabas para ela. A rainha Silvia adora jabuticaba, ela de vez em quando vem ao Brasil, ela é de São Manuel, lá em São Paulo, e de vez em quando ela leva jabuticaba e coloca no congelador, para chupar. Então, como lá no Torto deu jabuticaba, este ano, para comer o Brasil inteiro, eu preparei um pacote de jabuticabas, mandei para ela, e quando eu cheguei lá ela estava toda feliz, e eu com o dedinho aqui combalido, tomei cinco pontos. Então, eu estou com a minha mão esquerda… eu estou preservando estes outros dois aqui, para ver se não acontece… eu estou ficando meio “direitoso” aqui, só a mão direita funciona bem.

Jornalista: Presidente, essa obra tem tamanho, a questão do tempo, a demora na execução. Ontem, nós estivemos lá às nove e meia da noite com o senhor, com aquelas máquinas todas funcionando, com aquele pessoal trabalhando. A pergunta é: se a gente voltar ali no próximo sábado, às nove horas da noite, aquelas máquinas estarão trabalhando?

Presidente: Meu caro, é só você que pode provar. Eu vou estar em Brasília, mas você pode, está aqui pertinho, vir aqui ver se as máquinas estão trabalhando. Veja, o fato de essas máquinas trabalharem à noite foi um pedido que eu fiz a todos os ministros que estão envolvidos em obras do PAC para, onde fosse possível, a gente colocar o pessoal para trabalhar em dois turnos ou até em três turnos, se fosse o caso, quando veio a crise, em setembro do ano passado. Nosso problema agora é fazer investimento, é acelerar o investimento e acelerar a geração de empregos. Então, nós pedimos, e tem muitas obras no Brasil trabalhando à noite. Isso é uma coisa extraordinária, Geraldo. Mas o que é mais importante, Geraldo, são os dados de ontem, do Caged. Veja uma coisa: enquanto o mundo inteiro ainda está vivendo o problema do desemprego, nós, em setembro, geramos 252 mil empregos com carteira assinada. Até agora, de janeiro a setembro, foram 932 mil empregos, ou seja, vamos terminar o ano com mais de 1 milhão de empregos gerados, o que é um fato inusitado no mundo que está em crise porque nos Estados Unidos, o presidente Obama está festejando o fato de que o desemprego caiu de 400 mil para 200 mil. Nós aqui estamos festejando, em nove meses, a criação de 932 mil empregos com carteira assinada neste país. Esta é uma coisa extraordinária.

Agora, outra coisa Geraldo, já que você falou que nós fomos à obra ontem à noite, às 9h da noite, ver as máquinas funcionando, eu te confesso que eu fiquei extremamente emocionado. Porque eu tenho uma imagem na minha cabeça do que será este País e, sobretudo, do que será o semiárido nordestino quando a água estiver passando por esses canais. Eu, que com sete anos de idade, saía da minha casa, ia lá no açude de “Tozinho”, buscar pote d’água na cabeça, eu que uma vez coloquei os balaios em uma jumenta e coloquei os potes e quando estava perto do açude, a danada da jumenta deu um pinote, me jogou para fora e quase me come vivo, eu sei o sacrifício que o povo nordestino tem com o problema da água.

Então, eu estava ontem, olhando aquelas máquinas trabalhando e vendo o que vai resultar disso. Eu queria que todos os críticos, que todos os críticos, que é muito fácil o cidadão sentar em uma cadeira de almofada, com ar condicionado, no seu gabinete lá em São Paulo ou no Rio de Janeiro ou em Minas Gerais ou em Brasília, não tem noção do que é o Nordeste brasileiro, não tem noção do que é a pobreza, não tem noção do que é o semiárido, e dando palpites, escrevendo lá: “eu sou contra porque não sei das quantas, eu sou contra porque não sei das quantas”. Era importante que ele viesse, viesse ver, agora, e viesse ver depois de pronto, para ele poder fazer uma avaliação do que está acontecendo no País.

Eu acho que, portanto, eu fiquei muito emocionado, acho que seria importante que mais gente, sobretudo, jornalistas que escrevem, que julgam, que analisam, viessem ver a obra. E viessem conversar com o povo do Nordeste, porque ser contra lá na Tijuca, no Rio de Janeiro, ser contra na Avenida Paulista é fácil. Eu sou contra, depois abro a minha geladeira pego uma Perrier geladinha, tomo e ainda coloco um pouco no uísque, é muito fácil ser contra. Agora, venha para cá, carregar uma lata d’água na cabeça, com caramujo e tudo, colocando água para “sentar” em um pote para depois tirar com uma canequinha, água barrenta para beber…  Eu já te falei que quando eu cheguei em São Paulo, em 52 [1952], eu tinha uma barriga dez vezes maior do que a que eu tenho hoje, as canelinhas pareciam com as de um sabiá, a barriga parecia um peru, de tanto verme que tinha. Então, as pessoas venham ver isso para as pessoas poderem ter responsabilidade na hora em que fazem o julgamento das coisas, precipitadamente.

Jornalista: Nesse filme aí que o senhor… “Lula o filho do Brasil”, aparece o senhor menino pedindo um chiclete emprestado da boca de outro menino, isso não é um exagero, não?

Presidente: Não. Hoje, é muito fácil a gente comprar chiclete. A gente compra chiclete em qualquer lugar e todo mundo pode chupar, mas, naquele tempo, a gente chamava de chiclete americano. Era uma coisa maluca! Eu tinha um amigo chamado Boquita, que parece até… e às vezes o Boquita estava mascando chiclete e quando ele ia jogar fora eu pedia. Sabe, era assim mesmo a gente guardava o chiclete debaixo da sola do sapato, aqui perto do salto. Hoje, não. Hoje, todo mundo pode comprar chiclete e jogar fora. Mas, naquele tempo era difícil a gente comprar um chiclete americano.

Jornalista: Obrigado Geraldo, pela participação nesta primeira rodada.
Você está ouvindo o presidente Lula em entrevista coletiva às emissoras de rádio do Nordeste e de Minas Gerais sobre o projeto São Francisco. Agora, a participação de Armando Mariane da rádio Sociedade da Bahia. Bom dia Armando!

Jornalista: Bom dia. Bom dia Presidente! Presidente, no início o senhor enfrentou muitas dificuldades, embargos de ambientalistas, ecologistas e até greve de Kombi teve às margens do São Francisco. Eu vou o usar o termo que o senhor usou certa vez. Os críticos, os opositores, estão de sacanagem com seu projeto?

Presidente: Olha, eu não diria que as pessoas estão de sacanagem. Veja, é importante, Mariane, que a gente tenha consciência de que para fazer uma obra hoje no Brasil é muito difícil. Primeiro porque durante 25 anos esse país não cresceu e pelo fato dele não crescer nós fomos criando uma máquina poderosa de fiscalização, infinitamente superior à máquina de execução.
É como se uma Seleção tivesse um time reserva melhor do que o time titular. Para as pessoas mais humildes compreenderem. A imagem é essa! É como se o time reserva fosse melhor do que o titular e quem entrasse para jogar fosse o titular.

Ou seja, para você fazer uma obra dessa envergadura, para você conseguir tudo que você precisa, sabe, no Ibama, para você conseguir tudo que precisa na Funai, para você conseguir tudo que você precisa no Iphan, para você ultrapassar as barreiras dos processos de uma empresa que impede contra a outra, para você enfrentar o Ministério Público,  é muito difícil. É muito. Uma obra que às vezes era para começar em janeiro ela vai começar em dezembro, ou seja, se perdem 12 meses de graça para se fazer uma obra. Ora, eu acho que nós criamos então, uma máquina de fiscalização poderosa, com uma máquina de execução frágil. É só você pegar o salário de um engenheiro do DNIT, ou o salário de um engenheiro do Ministério da Integração e comparar com um menino que trabalha no Tribunal de Contas. Você vai ver a diferença absurda.

Ou seja, o Tribunal de Contas não tem culpa. A culpa na verdade é dos legisladores brasileiros, sabe, que quando vão votar uma lei não pensam nas consequências dessa lei.
Você veja, hoje, um menino qualquer, do Ministério da Integração, da Casa Civil, do Banco Central, qualquer parte do Governo… se ele der autorização para uma obra acontecer e alguém entrar com um processo contra ele, sabe o que acontece? Ele tem seus bens indisponibilizados, vai para a Justiça e ele tem que contratar o próprio advogado.

Então, as pessoas começam a criar dificuldades para não liberar a obra, porque as pessoas têm medo. Agora, ao mesmo tempo, quando o Tribunal de Contas da União ou o Ministério Público ou um outro órgão qualquer paralisa uma obra por um ano, essas pessoas não são responsabilizadas criminalmente, não têm seus bens disponibilizados. Porque deveria ser a lei igual para todos, ou seja, eu dou autorização para fazer uma obra, eu errei, eu posso ser punido. Mas quem também parou a obra e provou que estava errado, teria que ser punido. Então, é muito difícil. O Geddel sofreu muito para fazer essas coisas, as coisas demoraram para andar. Agora, eu fiquei feliz porque ela está andando de forma extraordinariamente rápida, agora.

Jornalista: (incompreensível) é a menina dos seus olhos?

Presidente: Não. Eu não diria que é a menina dos meus olhos. Eu acho que é um projeto de uma força social incomensurável. Acho que somente, meu filho – posso te dizer isso com conhecimento de causa -, somente quem passou sede, somente quem andava léguas e léguas atrás de uma desgraçada de uma lata d’água é que sabe o valor de um projeto desses. Então, eu não acho que os contrários estão querendo sacanear, não. É porque, muitas vezes, as pessoas não conhecem. Você sabe que no Brasil as pessoas, às vezes, são contra sem saber por que são contra. Eu participei de alguns debates, eu vi o Geddel participar de debates, o Ciro, a Dilma, o Zé Alencar, que foi o primeiro a começar esse projeto. As pessoas que eram contrárias não se sustentavam, não tinham meio minuto de argumento, não tinham meio minuto de argumento.

Se a água fosse para a casa de alguém e eu estivesse tirando aquela água da casa da pessoa antes de ela chegar à casa, eu estaria, sim, cometendo um problema com quem estava recebendo a água. Mas a água vai para o rio, vai para o mar. Nós estamos apenas tirando um pouco para atender uma parcela, para perenizar os açudes brasileiros, para perenizar alguns rios, e para permitir que as pessoas em torno dos açudes possam plantar a pequena agricultura, para a gente não ficar fazendo reservatórios para o sol beber água. O sol consome, acho que 30% da água reservada, 25%. Então, que loucura é essa? Você colocar água no açude para o sol beber? Então, vamos permitir que o ser humano beba essa água. Então, eu acho que havia incompreensão. Eu lembro, esse projeto não é novo. Você está lembrado que esse projeto é de 1847, ou seja, dom Pedro era imperador e não conseguiu fazer, porque as forças ocultas eram muito fortes. E nós fomos com jeito, primeiro mandamos o Zé Alencar fazer um trabalho de campo. O Zé Alencar visitou muitos estados. Depois colocamos o ministro Ciro Gomes para andar, fazendo debates. Depois o Ciro saiu para ser deputado e veio o Geddel. E nós conseguimos vencer todos os obstáculos.

Jornalista: (incompreensível) fazer.

Presidente: Eu acho, veja, é engraçado, veja o que é coincidência, Armando: eu nunca prometi. Eu conheço a história política deste país, eu disputei três eleições. Em 89, 94 e 98 tinha candidato a presidente que chegava no Ceará, ele era totalmente favorável. Chegava à Bahia, era totalmente contra. Ele chegava à Paraíba, era totalmente favorável. Chegava em Sergipe, era totalmente contra. Ele chegava ao Rio Grande do Norte, era totalmente favorável. Chegava em Alagoas, era contra. Ou seja, aquela coisa do político de duas caras. Eu, como nunca prometi, eu fui… eu tenho uma aprovação de uma, uma coordenação minha na Assembléia Legislativa do Ceará, um ato de protesto lá aprovado, porque eu não assumi o compromisso de fazer a transposição. Porque eu achava que era uma obra tão importante que a gente não deveria utilizá-la como peça de campanha. Então, eu nunca prometi, como eu nunca prometi a Santarém-Cuiabá e nós estamos fazendo.

Eu lembro que em 89 [1989], na campanha, viu Geddel, eu fui a Santarém e o pessoal queria me levar em um círculo onde era o centro da rodovia Santarém-Belém e eu me recusei a ir. Eu não vou fazer promessa de campanha com essas coisas, eu quando ganhar as eleições vou estudar, se tiver viabilidade, eu vou fazer. Ganhei as eleições e estamos fazendo. Com o rio São Francisco é a mesma coisa. Agora, eu acho que é uma obra muito, muito importante para o Brasil.

Luciano Seixas: Muito obrigado, Armando, pela participação. E agora vamos contar com a participação, por telefone, do Ceará, rádio Verdes Mares, com o companheiro Paulo Oliveira. Bom dia, Paulo.

Jornalista: (incompreensível)

Luciano Seixas: Alô, Paulo Oliveira, bom dia, estamos ao vivo.

Jornalista: Alô Presidente Lula, bom dia, Presidente.

Presidente: Bom dia, Paulo.

Jornalista: Tudo bem com o senhor, Presidente?

Presidente: Tudo bem, querido.

Jornalista: Presidente, nós estivemos juntos há uns 15 dias, aqui em Fortaleza, e eu esqueci de fazer esta pergunta quanto àquela entrevista, e eu perguntaria ao senhor: esse projeto do São Francisco, há anos que nós nordestinos estamos esperando. Qual é a expectativa, qual é a emoção de o senhor ver a obra sendo desenvolvida, Presidente?

Presidente: Olha Paulo, ontem à noite eu fui ver as máquinas trabalhando, quebrando pedra e tirando pedra e hoje eu vou ver ainda eles explodirem uma parte da rocha lá, colocando dinamite lá. É emocionante Paulo, se você puder um dia desses sair aí de Fortaleza e vir fazer o percurso da obra, seria extremamente importante porque o que está acontecendo nesta região é uma revolução extraordinária no Nordeste brasileiro.

Eu sempre trabalhei com a ideia Paulo, de fazer com que o Nordeste e o Norte do País tenham as mesmas oportunidades que teve São Paulo, Rio de Janeiro e a parte Sul do País. Eu não quero ser melhor do que ninguém, mas acho que o Nordeste tem que se tornar igual do ponto de vista de oportunidade, do ponto de vista de emprego, do ponto de vista da formação profissional, do ponto de vista da formação de mestres, de doutores, porque assim o Brasil vai ser mais justo, porque assim o Nordeste vai poder produzir e consumir mais, porque assim a gente vai viver muito melhor. Então, se você puder Paulo, fazer esse percurso da obra que eu estou fazendo, você vai ter um pouco da dimensão do que está acontecendo. Hoje, hoje eu estou, neste momento, aguardando o governador Cid Gomes, que está vindo para cá para viajar conosco. Estou aqui com o Eduardo Campos, estou aqui com o Geddel, com a Dilma, o nosso querido Zé Maranhão, governador da Paraíba, o companheiro Ciro Gomes, que está aqui.

Nós estamos viajando hoje o dia inteiro e amanhã. Então, seria extremamente importante que você pudesse fazer essa viagem aí, pegar um final de semana, se quiser, faz de conta que você vai tirar umas férias. Temos 8 mil trabalhadores trabalhando nas obras, agora. Ontem à noite eu tive a oportunidade de conversar, Paulo, com os trabalhadores… A alegria dessa gente, que estava habituada aos velhos tempos das frentes de trabalho, que tiravam pedra de um lado e colocavam no outro, e esperavam a próxima seca para trazer as pedras de volta, para ganhar R$ 30 por mês. Essas pessoas trabalhando é uma coisa fantástica. Em dezembro nós vamos ter 10 mil pessoas trabalhando na obra. Aí, vai ser uma maravilha. Para o Nordeste ver tanto emprego assim, em uma obra só, eu acho que é de encher os olhos de lágrimas. É uma coisa extraordinária, eu estou muito feliz com isso. Eu já tinha ficado…Cada vez que eu visito uma obra… eu fui, por exemplo, a Maranguapinho, lá no Ceará, é isso, não é? Maranguapinho. Quando eu fui aí, Paulo, visitar aquele projeto de drenagem, de saneamento básico, eu fiquei pensando no que está acontecendo no Brasil. Aí eu fiquei pensando: somente um bairro de Fortaleza está recebendo R$ 396 milhões para saneamento básico e drenagem. É mais do que tudo o que foi feito no Brasil inteiro em 2002. Em 2002 eram apenas R$ 262 milhões que foram liberados para saneamento básico. Só em um bairro de Fortaleza nós estamos liberando R$ 396 milhões. Além de fazer o saneamento, além de fazer a drenagem, nós vamos construir 10 mil casas. Então, o Brasil está aprendendo o quanto é bom crescer, o quanto é bom gerar empregos, o quanto é bom fazer distribuição de renda, e eu espero que nunca mais desaprenda.

Vocês estão lembrados de que quando eu falava que a crise era uma marola, no Brasil, vocês estão lembrados de que eu fui achincalhado. Quanta gente me achincalhou, porque as pessoas faziam análise da minha fala pela leitura dos jornais. Então, alguns jornais brasileiros torciam – jornais, não –, alguns jornalistas torciam para que a crise arrebentasse o Brasil. Sabe aquele cara que vê o outro com a namorada bonita, e em vez de falar “eu vou arrumar uma igual”, ele fica com inveja, e fica torcendo para um caminhão atropelar na praia o cara que está com a namorada bonita? Era assim que as pessoas esperavam a crise no Brasil.

E a gente dizia: a crise vai chegar mais fraca aqui, vai chegar por último e vai acabar primeiro. Hoje, é reconhecido no mundo inteiro, se você for à Alemanha, se você for aos Estados Unidos, se você for na Inglaterra, na França, se você for na Suécia, é unanimidade mundial, hoje, que o Brasil é o país que está mais sólido, é o país que está mais preparado. Por isso que eu posso dizer para vocês: nós, em nove meses, geramos 932 mil empregos diretos. Não é pouca coisa em um mundo que não está gerando empregos. Significa que nós fizemos a lição de casa correta, portanto, nós estamos colhendo aquilo que nós plantamos. Então, Paulo, eu te confesso que fico satisfeito, porque eu acho que nós aprendemos, o povo brasileiro aprendeu que é melhor o País crescer do que ficar décadas parados como nós ficamos na década de 80. E vou repetir: se você quiser, Paulo, fazer uma viagem, faça, pegue um carro no final da semana, coloque a família dentro e venha ver, porque embora seja uma obra que está cavando buraco, é uma atração turística para os olhos dos nordestinos, de forma extraordinária.

Jornalista: Presidente, uma outra pergunta. A emoção de saber que vai beneficiar 14 milhões de nordestinos, como é que fica o coração do grande Presidente?

(falha na gravação)

Jornalista: …que ocorre aqui, na região, o rio São Francisco, Presidente, ele continua “chorando”. A maior das resistências, uma das maiores resistências a essa obra continua sendo de Sergipe. Nós tememos que, no pique dessa arremata, do que se chama de revitalização é que sobre para os ribeirinhos sergipanos apenas a “bolsa São Francisco”. Isso nós não queremos. Fazemos aqui um apelo e deixamos uma pergunta para que o senhor possa responder para o povo sergipano. O apelo é que o senhor, então, faça uma manifestação, uma caravana como esta aqui, uma mobilização e leve todos e vá presente, portanto, para visitar os municípios ribeirinhos de Sergipe. Busque ver como é que está sendo tratado o Rio de Janeiro… do rio São Francisco em Sergipe, pelo governo federal, nesse projeto de transposição. A pergunta que eu lhe faço é a seguinte: em 2006, o senhor esteve ao lado do governador Marcelo Déda. E lá, em Aracaju, o senhor assumiu compromissos em relação ao rio São Francisco. Sergipe quer saber se esses compromissos estão de pé, continuam para valer.

Presidente: Meu caro Gilmar, primeiro, bom dia. Bom dia aos ouvintes e bom dia a todo o povo de Sergipe. Gilmar, todos os compromissos serão assumidos. O que eu acho engraçado, Gilmar, de vez em quando… E eu lembro do pronunciamento que eu fiz em 2006, retrucando o ex-governador do estado de Sergipe, que adorava posar de foto em uma ilha, no meio do rio São Francisco, dizendo que a água tinha acabado, ou seja, a água não estava acabando por conta da transposição, porque ela nem existia. O rio estava assoreado por causa da irresponsabilidade dos governadores que vieram antes de nós e que não tiveram coragem de proibir o desmatamento de todas as matas à volta do rio São Francisco, para fazer carvão.

Obviamente que se você desmata, quando vem uma chuva, leva toda a terra para dentro do rio e ele vai ficando assoreado. As margens do rio vão caindo, não se cuidava. Então, Gilmar, nós vamos cuidar. Sabe por que, Gilmar? Porque eu acho que tanto faz Sergipe, como Alagoas, como Pernambuco, como a Bahia, nós temos que dar a esses estados o tratamento que nós vamos dar aos estados que são receptores da água. Nós queremos cuidar do rio São Francisco porque ele é extremamente [falha no áudio] para o país.

Agora, é engraçado, porque eu conheço rios em Sergipe que são um verdadeiro esgoto a céu aberto, e eu não vi a preocupação dos críticos daquela época em cuidar daqueles rios que eram verdadeiros canais de esgoto, que jogavam tudo no São Francisco. Nós estamos fazendo esgotamento sanitário em todas as cidades que estiverem às margens do rio São Francisco. Nós estamos recuperando as matas, e é uma coisa que vai demorar um pouco porque é uma imensidão, são mais de 2 mil quilômetros. Eu estive ontem em Barra, na Bahia, para ver o trabalho que está sendo feito, e é um trabalho extraordinário, nós temos canteiros de mudas com que nós vamos recuperar todas as matas ciliares. Pode ficar certo, Gilmar, que uma das próximas visitas minhas será a Sergipe.

Jornalista: Aos municípios ribeirinhos.

Presidente: Aos municípios ribeirinhos. Será uma coisa, para mim, extraordinária. Nós estamos fazendo aquilo que deveria ter sido feito 30 anos atrás. Cada prefeito que toma posse, ao fazer uma casa, ele tem que ter o juízo de fazer a coleta do esgoto. Agora, se a pessoa vai deixando a cidade crescer e vai jogando dejetos no rio São Francisco, se a pessoa não vai cuidando da margem do rio São Francisco, se a pessoa não vai cuidando para não permitir que o rio fique assoreado, depois não adianta jogar a culpa em cima de ninguém. Eu tenho em conta que… você também, Gilmar, poderia em uma hora, pegar o ministro Geddel, pegar o João Santana e falar o seguinte: “olha, vamos lá tirar fotografia das cidades lá em Sergipe, para a gente ver o que está acontecendo”.

O que nós queremos na verdade, gente, não é prejudicar o rio, que para nós é uma coisa, é como se prejudicasse uma artéria nossa. O rio é muito importante para o Brasil, muito, muito importante. É o rio de integração nacional, o Velho Chico é poesia para todo mundo. Agora, o que nós estamos fazendo é pegando 26 metros cúbicos por segundo de água, que iriam para o mar, e trazendo… por isso é que eu falei um dia, Gilmar: se eu pudesse, eu não mexia em nada, eu ia pegar lata d’água lá na beira do mar e trazer de volta para poder permitir que as pessoas tivessem água para beber.

Você veja que nós vamos fazer o canal de Sergipe, lá de Xingó, que é um canal extremamente grande, e é importante fazer. E nós vamos tirar água, portanto, do São Francisco, para poder levar água para outra parte de Sergipe que não tem água. E vamos fazer por quê? Porque não é justo que em pleno século XXI, quando nós temos tecnologia sobrando, a gente permita que uma parte que mora na beira do rio tenha um pouco d’água, e a parte que mora no centro do estado não tem água. Então, nós vamos tentar fazer justiça, fazer com que o rio São Francisco se transforme, realmente, no rio da integração nacional, tornando o povo do interior, do sertão mais igual ao povo da capital e ao povo das cidades mais desenvolvidas.

Jornalista: Muito obrigado, Gilmar Carvalho, pela primeira participação nesta entrevista. Agora, contamos com a participação de João Ferreira, da rádio Itapuama FM, de Arcoverde. João, bom dia.

Jornalista: Bom dia. Bom dia, Presidente.

Presidente: Bom dia, João.

Jornalista: Bom dia a todos os ouvintes, a milhares e milhares de ouvintes que estão nos ouvindo neste momento, em todo o território nacional. Cumprimentar o nosso governador Eduardo, ministro Geddel, o governador da Paraíba, que está aqui, a ministra Dilma, enfim, todas as autoridades e os colegas, companheiros da radiodifusão brasileira.

Presidente, para nós é uma alegria muito grande participar desta coletiva nesta região encravada aqui no Nordeste brasileiro, neste semiárido, no mês em que nós completamos 40 anos de radiodifusão aqui em Pernambuco, em especial na cidade de Arcoverde. Começamos como operador e hoje somos diretor-gerente. A gente vê uma obra muito grande no Nordeste, no seu governo. Mas a gente sente a necessidade da divulgação dessa obra para as pessoas, principalmente o povo, aquele que está lá perto, que ainda não conhece, não sabe ainda a dimensão dessa obra, desse projeto que vai trazer para o povo da região Nordeste. Faltou divulgação nesse projeto, para que as pessoas realmente conhecessem de perto o projeto do rio São Francisco, Presidente?

Presidente: Olha, João Ferreira, eu penso que nós trabalhamos pouco a divulgação do que é o São Francisco. E a culpa não é de ninguém, a culpa talvez seja minha, que poderia chamar o Franklin à “chincha” e falar para ele: você faça uma divulgação.

Acontece que a gente, muitas vezes, pensa que a gente não tem que divulgar porque o povo vai saber. Não é verdade, não é verdade.  Se isso fosse verdade, a Coca-Cola não fazia propaganda da Coca-Cola a toda hora, a todo minuto, toda semana, no mundo inteiro a mesma propaganda. Nós temos que fazer divulgação da obra do rio São Francisco porque não é pouca coisa o que está acontecendo no Nordeste. Eu não tenho números aqui, mas eu posso, assim, te dizer e dizer a todos vocês que, se vocês fizerem um levantamento, nós estamos investindo no Nordeste, no meu mandato, mais do que tudo o que foi investido no governo Fernando Henrique Cardoso, no governo Itamar, no governo Collor, no governo Sarney e no governo Figueiredo. Apenas para dar um exemplo. Nós estamos investindo mais nesse período do que tudo o que foi feito em 20 anos, porque a gente está falando de obra grande, a gente está falando do São Francisco, a gente está falando da Transnordestina, a gente está falando do Estaleiro Atlântico, a gente está falando da BR-101. Mas se vocês tiverem noção do que está acontecendo nas capitais deste País, nos bairros da periferia, nas cidades pequenas: investimento em habitação, saneamento básico, dragagem, adutoras, é um investimento de forma que o Brasil nunca viu.

Eu estou dizendo para você: duvido que nesses 20 anos tenha acontecido metade dos investimentos que nós estamos fazendo agora, porque foi uma determinação do governo. Nós precisamos começar a governar para todos, mas sempre estendendo a mão para parte mais frágil deste país, que são as pessoas mais pobres. Se você for à periferia de Recife, se você for à periferia das cidades médias, você pode pegar qualquer prefeito do Brasil que ele vai te dizer que ele nunca teve a quantidade de investimentos que tem agora. E isso não para. Você veja que quando veio a crise, em vez de a gente diminuir, nós aumentamos o investimento para a gente demonstrar coragem, aquele negócio de que quando um cachorro late para você, você não corre, você late para ele mais forte ou pelo menos faz uma cara mais feia do que a dele.

Foi o que nós fizemos com a crise. Ah! vai vir a crise? Vai. Então, mais PAC. Nós lançamos o programa Minha Casa, Minha Vida, no mês de março, no auge da crise, e lançamos para dar uma resposta. Nós não vamos nos amofinar e falar: não, agora não vamos gastar mais nada, não vamos mais investir, vamos cortar aumento dos funcionários, nós não fizemos nada, nós resolvemos colocar mais dinheiro.

Jornalista: Agora, Presidente, a gente, inclusive, conversando com o povo, com a população, na região, não só Arcoverde, mas em toda a região que a gente sempre cobre, mesmo porque é uma emissora regional, e a gente observa das pessoas o seguinte: Quando será, João, inaugurada essa obra?  Será que ele vai inaugurar só o eixo principal ou vai inaugurar também os derivados que abastecerão as outras regiões do estado? E já tem até gente dizendo Presidente, que vão acontecer usinas piratas. Vão tirar água do canal para gerar energia pirata.

Presidente:  Agora veja, no Brasil, nada é impossível. Em se tratando de Brasil, nada é impossível, mas obviamente, que nós vamos trabalhar com responsabilidade, com fiscalização do governo do estado, das prefeituras e do governo federal. Não é possível… nós vamos inaugurar o primeiro trecho desta obra ainda em 2010 e o nosso sonho é que esta obra esteja totalmente concluída em 2012. Portanto, não será mais no meu governo. Como é uma obra que o povo deseja, que o povo quer, que o povo reivindica, eu estou convencido de que, primeiro o povo tem que ser o grande beneficiário desta obra e, se ele for o grande beneficiário, certamente o povo vai ajudar a cuidar e se aparecer alguma coisa clandestina pelo meio o próprio povo vai se encarregar de denunciar.

Eu te confesso que a gente precisa acreditar mais no povo brasileiro. Eu não acho que seja possível alguém pegar clandestinamente a água do canal para fazer alguma coisa porque nós estaremos monitorando isso o tempo inteiro.

Jornalista: (incompreensível) …vai ser do eixo principal, ou o senhor só vai inaugurar quando tiver também as ramificações para as regiões?

Presidente: Não, primeiro nós vamos inaugurar por etapa, ou seja, cada etapa que ficar pronta nós vamos inaugurando e vamos levando água de acordo com a necessidade. O projeto principal, ele prevê o quê? Você vai trazer a água, vai perenizar alguns rios e vai perenizar os açudes brasileiros. Então, aqueles açudes que ficam com água quase nem cobrindo a unha do dedão do pé, na época da seca, vão ficar sempre cheios agora. Isso vai permitir que a gente possa fazer processo de irrigação para a agricultura familiar e tornar o país mais produtivo. E, além disso, água limpa, tratada, para as pessoas beberem, o que é muito saudável.

Jornalista: Obrigado João Ferreira, pela participação aqui na nossa entrevista com o presidente Lula sobre o projeto São Francisco a emissoras de rádio do Nordeste e de Minas Gerais. E agora contamos com a participação da Rádio Mirante AM do Maranhão, comunicador Roberto Fernandes. Bom dia, Roberto.

Jornalista: Bom dia. Bom dia, Presidente. O senhor sabe que a fome no semiárido está diretamente ligada à seca. E combater a fome significa permitir o acesso à água, água para beber, água para agricultura, o que este projeto vai permitir. No entanto, alguns críticos afirmam que este projeto tem alguns equívocos. Por exemplo, 70% dessa água seria para a irrigação do agronegócio, 25% seria para as grandes cidades. E a situação que mais nos comove, nos causa aflição, é exatamente as comunidades isoladas. Então, nesse projeto, a água não chegaria para essa gente, para essas pessoas, Presidente? A água seria ainda um sonho distante de ser alcançado?  E, depois, o governador Serra acaba de dizer que há uma absoluta ausência de investimentos na irrigação, e esses investimentos foram interrompidos nos últimos seis ou sete anos. Também gostaria de ouvir o senhor sobre isso.

Presidente: Não entendi essa afirmação, você poderia repetir, Roberto?

Jornalista: Que o governador de São Paulo, o José Serra, acabou de dizer que há uma absoluta ausência de investimentos na irrigação na região nordestina. E esses investimentos foram interrompidos há seis ou sete anos.

Presidente: Eu não sabia que o Serra tinha alguma preocupação com o Nordeste. Mas, se começa a ter um pouquinho, perto das eleições, já é um bom sinal, é um bom sinal.

Veja, primeiro, os críticos dessas obras, pode ser que tenha muita gente que tenha razão em muitas coisas. Mas, veja… Mas dizer que as comunidades ribeirinhas e outros lugares não estão sendo tratados e vamos tirar… Ora, nós criamos o programa Água para Todos, que vai levar água a todas as comunidades perto do rio São Francisco, que não têm água. E não é apenas um programa, nós não podemos jogar nas costas do rio São Francisco e nas costas do programa de transposição a responsabilidade de séculos de descaso com o povo brasileiro. Nós temos não apenas um programa, vários programas que nós queremos resolver, e se a gente continuar fazendo os investimentos que estamos fazendo, eu penso que dentro de cinco ou dez anos nós teremos o Brasil com muito mais saneamento básico, o Brasil com muito mais água boa para as pessoas beberem, o Brasil com muito mais energia. Esse é o projeto original. Portanto, Roberto, eu queria te dizer que se tiver algum problema aí no Maranhão, me avise, que nós vamos cuidar da água do Maranhão. Eu acho que não deve ter, não, porque eu fui aí esses dias e o Maranhão estava cheio d’água, que eu penso que deve ter sobrado alguma coisa aí para a época da seca. Mas nós temos a responsabilidade de cuidar deste Brasil por inteiro.

Agora, olhe, o governador Serra… o que é triste é isso, é que vai passando o tempo, as pessoas não falam, as pessoas ficam mudas, e quando vai chegando perto das eleições as pessoas começam a preparar o discurso para a campanha. O Serra que fique esperto, porque ele vai ver o que nós vamos inaugurar de irrigação, no Nordeste, nesses próximos meses, projetos que estiveram parados anos, e não parados por nossa culpa. Parados por irresponsabilidade do Poder Judiciário, da Justiça, por erro de projeto, que nós estamos recuperando. Quem sabe, eu até convide ele para participar, comigo, da inauguração de alguns projetos, para ele compreender o que está acontecendo no Nordeste brasileiro.

Jornalista: Muito obrigado, Presidente. E agora, a participação de Arimatéia Souza, da Rede Paraíba SAT de Rádio, 20 emissoras retransmitindo ao vivo esta entrevista. Arimatéia, bom dia.

Jornalista: Bom dia, Presidente. Bom dia a todos aqui presentes, na presença personificada do governador da Paraíba, José Maranhão. Presidente, tem se ampliado, os dados oficiais apontam isso, a desigualdade intrarregional, ou seja, no Nordeste, Bahia, Pernambuco e Ceará estão com índices de crescimento que fazem inveja até (incompreensível) ao país, em escala nacional. Os demais estados estão em um outro ritmo de crescimento. O que pode ser feito, ainda no seu mandato, para buscar um pouco mais de igualdade entre os estados do Nordeste, no que se refere ao impulsionamento do crescimento?

Presidente: Olha, primeiro, nós trabalhamos para que todos os estados tenham a mesma oportunidade de apresentar projetos e aprovar projetos. Você veja que quando nós decidimos fazer as obras do PAC, não foi da minha cabeça, não foi da cabeça da ministra Dilma, que é coordenadora do PAC, as prioridades. Não. Nós chamamos todos os governadores, chamamos todos os prefeitos das capitais, e foram eles que apresentaram o conjunto de projetos. E esse conjunto de projetos foi selecionado pelo governo federal, para a gente fazer investimentos. Então, se algum estado não está recebendo o que deveria receber, é porque o projeto não foi apresentado na época em que a gente pediu os projetos. Não foi uma coisa da nossa cabeça. Depois, nós chamamos todos os prefeitos das cidades com mais de 100 mil habitantes. Nós passamos um ano fazendo reunião

Nós tivemos prefeitos que apresentavam projetos para a gente, e aí, quando a gente foi ver, não tinha projeto básico, não tinha projeto executivo, não tinha licença. Então, você ficava com o dinheiro retido um ano, esperando que os órgãos dos governos estadual, municipal e federal liberassem aquela obra. Então, veja, o que nós queremos é o seguinte: é que Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Ceará, Piauí, Maranhão, que todos tenham… a Bahia, Sergipe, que todos tenham a mesma possibilidade de crescer.

Eu tenho discutido com a Petrobras Biodiesel, e tenho dito para eles que nós precisamos construir uma usina de biodiesel em cada estado do Nordeste, para a gente ajudar o pequeno agricultor. Você sabe que essa empresa foi criada há pouco tempo, ela é nova, mas a ideia é que a gente crie as condições de todos os estados ter um projeto, para que a gente possa ajudar o pequeno agricultor.

Se você imaginar o que acontece na Paraíba com o programa da compra de leite, você percebe que é uma pequena revolução que está acontecendo na Paraíba, para o pequeno agricultor. Se você começar a imaginar o que é o programa de compra de alimentos pelo governo federal nos estados mais pobres do País, você vai perceber a alegria do pequeno agricultor, que tem a garantia de que o governo não o deixará na mão.

Lógico que ainda falta muita coisa para fazer, mas muita, mas falta muita coisa, nós estamos apenas começando. Você não desfaz o desmazelo de um século em quatro anos, cinco anos ou seis anos, é um processo, isso é como construir uma escada, a gente vai construindo… Você está lembrado quando começou a fazer a Muralha da China, aquilo não foi terminada em um ano ou em dois anos, aquilo, alguém teve a coragem de começar a colocar a primeira pedra e, dali, outros que vieram foram colocando pedras, até que construíram a Muralha da China.

Então, transformar os estados brasileiros em estados mais desenvolvidos é um processo. E eu digo sem medo de ninguém: é que nós estamos priorizando o Norte e o Nordeste deste país, para ver se a gente torna ele mais próximo da parte mais desenvolvida do País. Quando você pega as pesquisas, você vai perceber o seguinte: qual é o estado que tem menos doutores e mestres nas universidades? É o Nordeste brasileiro. Quais são os estados que têm menos formação profissional? São os estados do Nordeste brasileiro. Onde é que tem mais mortalidade infantil? No Nordeste brasileiro. Onde é que tem mais desnutrição? No Nordeste brasileiro.

Bem, agora, quando você pega as coisas que deveriam acontecer, você pega o seguinte: bem, por que o Nordeste não tem? Porque durante um século não investiram no Nordeste. Durante um século, as pessoas se conformavam de que o nordestino pobre se transformasse em retirante e fosse para a região Sul do País, e Sudeste, para sobreviver. E nós estamos fazendo agora uma política, para manter o jovem na sociedade. É por isso que estamos fazendo 104 extensões universitárias, é por isso que estamos fazendo 214 escolas técnicas, é por isso que estamos trazendo grandes obras que antes eram levadas apenas para alguns estados brasileiros, para todo o conjunto em todo o país. Eu não sei se você lembra, fazia 20 anos que a Petrobras não fazia uma refinaria, 20 anos, não é…é uma geração. Agora, por conta do pré-sal, ela vai três novas refinarias, fora a de Pernambuco, com a de Pernambuco são quatro. E duas refinarias serão feitas apenas para exportação e aí, porque nós não queremos exportar óleo, nós queremos exportar valor agregado do petróleo.

Então, nós estamos fazendo essa refinaria perto de porto que tenha um grande calado, que seja de grande profundidade para poder a gente poder exportar em grandes navios. Então, é isso. Eu, eu, aqui está o governador José Maranhão, assistindo a nossa entrevista e eu digo sempre o seguinte: Olhe, muitas vezes, muitas vezes, a gente não faz as coisas porque não tem projeto e eu aprendi uma coisa no governo. O que faz uma obra, o que faz aparecer o dinheiro é o projeto, se o projeto for bom, eu duvido que você tenha um ministro da Fazenda sovina que não dê o dinheiro para fazer. Agora, é preciso que o projeto seja convincente, seja um projeto com começo, meio e fim para ele ser aprovado.

O José Maranhão sabe que eu estou preparando um novo PAC para 2011-2015 e por que nós temos que preparar o PAC agora? Porque nós precisamos começar a colocar verba já no orçamento de 2011 porque nós vamos ter Copa do Mundo, porque nós vamos ter as Olimpíadas, porque nós vamos ter uma série de coisas e nós precisamos começar a colocar dinheiro  no orçamento agora. Então, a Paraíba, Sergipe, Rio Grande do Norte, Pernambuco, São Paulo, podem começar a preparar as suas prioridades porque nós queremos colocar isso no orçamento para começar a executar.

Luciano Seixas: Muito obrigado, Presidente. Agora, a participação de Taciana Lopes, jornalista da Sertânea FM, faz parte da Rede Brasil de Comunicações, Salgueiro FM, Petrolina FM, Lagoa Grande FM e a rádio Pedras Soltas FM, de Itapeti, na região do Pajeú. Bom dia, Taciana.

Jornalista: Bom dia a todos, bom dia Presidente.

Presidente: Bom dia, Taciana.

Jornalista: Primeiramente, dizer que é um grande prazer estar aqui junto com todos vocês. O Presidente começou a entrevista falando sobre a importância de vistoriar, de fiscalizar as obras, de ver realmente com os próprios olhos o que está acontecendo. Então, ontem, o senhor esteve em Minas, Bahia, acompanhou as máquinas aqui no lote 11 trabalhando…portanto, eu quero saber o seguinte: O Presidente ficou satisfeito com o que viu? E também com relação às obras complementares, como por exemplo, adutoras e as obras dos (incompreensível), que são os planos ambientais dos eixos. Elas estão sendo bem sucedidas, presidente?

Presidente: Olhe, eu acredito que essa obra, quando ela estiver concluída, ela será um exemplo de combinação de vários fatores. Ou seja: você tem o eixo principal, mas por conta do eixo principal você tem uma outra quantidade de políticas públicas que vão tornar, muito além de levar água, esse projeto com possibilidade de desenvolvimento para o Nordeste, como já foi visto. Eu te confesso, Taciana, que eu estou muito satisfeito com o que está acontecendo. Lógico que se você…

(falha no áudio)

… discussão era que se a gente barateasse o gás de cozinha, restaurantes, padarias e outras coisas iriam pegar os botijões de 13 kg, que é o de gás de cozinha, e iriam começar a utilizá-lo no seu comércio, e aí a gente perderia o controle. Mas essa é uma coisa, Eduardo, que está na minha cabeça; está na cabeça da Graça, da Petrobras; está na cabeça da Dilma, até porque é uma coisa que nós queremos ver se a gente reduz o preço do gás, porque as pessoas pobres utilizam gás e pagam caro o tonel. Tem lugar em que está a R$ 40, tem lugar em que está a R$ 38, tem lugar… e o pobre, às vezes, paga mais.

Nós tentamos fazer uma política de entregar gás mais barato para o Bolsa Família. Mas aí, quando nós fomos estudar corretamente, não tinha uma rede para fazer esse gás chegar às pessoas. Você teria que deixar, no mínimo, em um posto de gasolina. E aí nós correríamos o risco de colocar na periferia do país botijão de gás, ou seja, você iria colocar bombas em toda a cidade. Mas essa é uma preocupação que eu tenho.

Eu posso te garantir o seguinte: olha, os preços no Brasil, a gente sempre quer que eles estejam mais baratos. Agora, a verdade é que para você manter uma inflação de 4%, não é uma coisa fácil em um país que teve inflação de 80% ao mês. Nessa época, Eduardo, eu estava dentro da fábrica, eu era dirigente sindical. Eu ia ao supermercado e eu comprava um monte de coisas, para durar três, quatro meses, porque era o jeito que eu tinha de combater a inflação. Hoje, não. Hoje você pode até guardar o seu salário embaixo do colchão, porque no final do mês ele está valendo a mesma coisa, praticamente. Então, eu acho que sempre que a gente puder, a gente vai fazer com que os preços caiam. O que é importante é que a gente não permita que os preços subam acima daquilo que é o reajuste inflacionário.

Jornalista: Presidente, para encerrar a nossa entrevista aqui, hoje, temos a participação agora, sim, de Magno Régis, da rádio Verdes Campos, do Piauí. Bom dia, Magno.

Jornalista: Bom dia, presidente Lula. Bom dia aos companheiros radialistas. Bom dia também a todos, na sintonia da Verdes Campos Sat, via satélite para todo o Brasil, pela internet e pelo portal TV Canal 13 ponto com. Presidente Lula, eu tenho acompanhado suas informações a respeito dessa questão das obras de transposição do rio São Francisco. O senhor sempre coloca a questão da dívida histórica que o governo tem para com o Nordeste. Eu pergunto ao senhor, se o senhor pudesse, portanto, aferir essa questão da dívida, eu perguntaria: está em qual estágio? Estaria no estágio inicial, estaria no estágio intermediário ou já avançado?

Presidente: Eu acho que o Wellington está aí do seu lado, pedindo para você fazer essa pergunta, hein? Você está falando da dívida dos estados?

Jornalista: Não, a dívida com o Nordeste, como um todo.

Presidente: A dívida com o Nordeste, ela vai ser paga ao longo do tempo. Eu não acho que existe a possibilidade de a gente fazer, com muito mais rapidez do que estamos fazendo, a recuperação do Nordeste. Ou seja, nós, agora, com a descoberta do pré-sal, nós mandamos uma lei para o Congresso Nacional, mudando o marco regulatório da Lei do Petróleo. E nós queremos criar um fundo, para que esse fundo cuide da pobreza. É um fundo que vai cuidar da educação, da saúde, ciência e tecnologia, meio ambiente, cultura, e cuidar da pobreza.

Então, eu acho que quando a gente começar a explorar o pré-sal, quando começar a funcionar a refinaria do Nordeste, eu penso que a gente vai ter um desenvolvimento mais rápido do Nordeste brasileiro. Mais rápido. Eu penso que se você quiser imaginar o Nordeste e o Sul mais ou menos iguais, você vai ter aí uns 30 anos pela frente com muitos investimentos, porque o atraso a que o Nordeste foi submetido foi muito grande, foi um século, praticamente, de esquecimento, em que tudo era dirigido para uma região do País em detrimento a outra. Isso vale para tudo que você possa imaginar, para tudo. Imagine uma coisa, o Nordeste foi segregado.

Então, o que nós fizemos? Foi abrir as comportas de possibilidades para o Nordeste. Você sabe que aqui, o Nordeste, é uma região onde tem mais densidade de pessoas que ganham o salário-mínimo. Portanto, o consumo do Nordeste está crescendo mais do que o consumo das Regiões Sul e Sudeste. Quando você conversa com o dono de um shopping em São Paulo e com o dono de um shopping no Nordeste, é incrível, mas o do Nordeste está mais satisfeito, porque o povo pobre está tendo acesso às coisas.

Tem muita gente que acha que o Bolsa Família é esmola. Obviamente que um cidadão que entra em um bar, janta, toma R$ 100,00 de uísque, ainda dá mais cem de gorjeta, R$ 100,00 é pouco. Mas dê R$ 100,00 na mão de uma mulher pobre do sertão, para ver como ela leva comida para casa. Dê R$ 100,00 para uma pessoa da periferia do Rio, de São Paulo, e Recife, para ver o que ela faz com R$ 100,00.

Então, as pessoas que já têm muito, perderam a perspectiva. Vocês sabem o sucesso, por exemplo, do programa Luz para Todos, sabem o sucesso do programa Luz para Todos, ou seja, já são mais de 2 milhões e 40 mil residências que receberam o programa. Por conta disso, quase 2 milhões já compraram televisão, quase 1 milhão e oitocentos já comparam geladeira, já compraram aparelho de som, já compraram liquidificador, já fizeram casa de farinha.

O programa Luz para todos é um programa caro, bancado, na sua maioria, pelo governo federal. Na Amazônia, tem ligação que custa R$ 7 mil, se a gente fosse pensar na viabilidade econômica, a gente não faria, se você fosse pensar economicamente, você não faria. Sete mil reais é muita coisa. É melhor fazer energia na cidade, com um poste só você liga dezenas de casas. Agora, você levar poste a quilômetros de distância para levar um bico de luz à casa de uma pessoa, só o Estado pode fazer e nós vamos fazer, pode ficar certa de que nós vamos completar porque eu não sei se eu vou passar para a História, mas eu queria apagar o último candeeiro deste País. Candeeiro deveria virar peça de museu neste País, e aí o desenvolvimento vem junto.

Então, há um processo de coisas. Eu lembro quando nós levamos, eu lembro quando nós levamos o Estaleiro Atlântico para Recife. Avacalharam com o Governo, que era um estaleiro virtual, que não ia fazer navio coisa nenhuma. Esta semana eu fui lá, esta semana…há dois meses atrás eu fui lá bater quilha, ou seja, descer a primeira, uma primeira parte do navio no dique seco. Você estava lá Geraldo? Nove mil trabalhadores… aquilo ali meu caro,  imagina o Nordeste produzir navio de 300 mil toneladas, 380 mil toneladas, 350  mil toneladas? A gente não estava produzindo nem canoa. Foi destruída a indústria naval deste país. Em 1970, o Brasil tinha a segunda indústria naval do mundo, a gente só perdia do Japão. A gente tinha mais de 50 mil empregos. Em 2000, tinha apenas 1,6 mil trabalhadores dentro do estaleiro naval.

Hoje, nós já estamos com 50 mil outra vez e vamos levar mais estaleiros para outros estados do Nordeste brasileiro. Nós vamos espraiar as oportunidades neste país.
Nós agora com o Pré-Sal, a Petrobras está encomendando uma quantidade enorme de navios, de sondas, de plataformas… E o que eu tenho dito? É preciso viajar, chegar no estrangeiro, que costumava vender para nós, e convidar as pessoas para virem implantar sociedade com os empresários brasileiros ou montarem a sua fábrica no Brasil, e aí sim nós estaremos criando o desenvolvimento definitivo para o Nordeste.

Eu confesso que nós vamos levar aí mais uma geração para que a gente possa ter o Nordeste mais igual e mais justo, e tratado de forma mais justa pelo Governo Federal. Agora, também é importante mudar a classe política, viu? Vamos ter consciência, sabe, de que o povo brasileiro a cada quatro anos tem o direito de colocar cada vez gente melhor.

Às vezes, eu fico frustrado porque às vezes colocam pior. Então, é preciso que a gente tenha consciência de que cada eleição, ela serve para a gente fazer reparação. Ou seja: votou em um “cabra” ruim, que não presta, troque. Não o reeleja, troque e coloque um melhor. Essa é a oportunidade mais extraordinária que nós temos, e se entrar gente comprometida com o Nordeste, gente que goste do Nordeste, gente que ama o Nordeste, certamente as coisas vão acontecer. É que tem muita gente grã-fina no Nordeste, que também prefere fazer investimento no Rio, que também prefere fazer investimento em São Paulo, que compra apartamento em Paris quando deveria comprar aqui mesmo.
Então, o Brasil está se arrumando. Eu estou muito feliz porque o Nordeste, por exemplo, é uma região que me deu uma alegria porque tem uma safra de governadores jovens, com pessoas competentes, e eu acho que o Brasil está percebendo isso.

A autoestima do Brasil é uma coisa extraordinária. Por que vocês pensam que nós ganhamos as Olimpíadas? Não foi pelos belos olhos do Lula, do Sérgio Cabral ou do prefeito. Não. É porque foi criada uma forma de as pessoas enxergarem o Brasil. Se vocês acompanharem, se vocês, companheiros, acompanharem a imprensa internacional, da Itália, da Espanha, da Alemanha, dos Estados Unidos, da Inglaterra, e vocês lerem o que eles pensam do Brasil – pensam, não –, o que eles afirmam da economia brasileira, e você pegar a imprensa brasileira, você pensa que está em outro país, porque aqui é um jogar para baixo. Aqui, eu vou contar uma coisa, vá ser azedo assim em outro lugar. Outro dia eu disse em uma entrevista, lá em Copenhague. É aquele cara que é tão pessimista, que ele chega à noite, tira o sapato na beira da cama e deita; ele se levanta de manhã: será que vai servir esse sapato? Esse sapato está apertado.” Ele tirou à noite, é o mesmo sapato, é o mesmo pé, ele não tem por que estar tão mal-humorado! Desça e ponha o sapato!

Eu aprendi, no governo, uma coisa: quem está governando não tem tempo para ficar mal-humorado. Quando a gente é oposição, quando a gente é radialista, quando a gente é jornalista, quando a gente está de fora a gente sabe tudo, a gente pensa tudo, a gente acredita em tudo. Quando você está no governo, você não pensa, você não acredita, você faz. Faz ou não faz. O que fizer, está feito; o que não fizer, você paga o preço. E não tem nada mais gostoso do que você provar a você mesmo e aos outros que é possível fazer as coisas neste País.

Jornalista: Muito obrigado, presidente Lula, por esta entrevista coletiva a emissoras do Nordeste e de Minas Gerais.

Nesta rede facultativa nós contamos com a participação da rádio Itatiaia, de Belo Horizonte; rádio Jornal do Comércio, de Pernambuco; Rede Brasil de Comunicação; rádio Sociedade, da Bahia; Rede Paraíba Sat de Rádio; Rede Ilha, de Sergipe; rádio Itapuama FM, de Arcoverde; rádio Verdes Mares, do Ceará; rádio Mirante AM, do Maranhão; e rádio Verdes Campos, do Piauí.

Estamos encerrando a rede facultativa de rádios, que transmitiu a entrevista coletiva do presidente Lula a emissoras de Minas Gerais e do Nordeste brasileiro. Mais uma transmissão da EBC Serviços, com produção da Secretaria de Imprensa do Palácio do Planalto. Até uma próxima oportunidade.

Em 15 de outubro de 2009, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra Dilma Rousseff visitaram às obras do Eixo Leste, um dos canais que vão integrar o São Francisco.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra Dilma Rousseff ao lado de trabalhadores da construção civil que realizam às obras do Eixo Leste, um dos canais que vão integrar o São Francisco.
Sobre Redação do Jornal Grande Bahia 114994 Artigos
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: editor@jornalgrandebahia.com.br.