Contos de fadas: O real e o imaginário | Por Marcelo Vinicius

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.

Resolvi escrever este artigo depois que li um texto, intitulado “Contos de Fadas”, da minha amiga escritora paulistana Valéria Nagy, que é também revisora, consultora e palestrante. Nele, ela abordava, entre outros aspectos, “as críticas literárias (de descrentes literários, falsos intelectuais ou de pessoas que fingem ser o que não são), ‘metendo o pau’ em obras como Harry Potter, O Senhor dos Anéis, As Brumas de Avalon e afins, os quais dizem ser trabalhos de qualidade duvidosa, de fantasia extremada, que não acrescentam nada ao intelecto e etc.”

Ela continua pronunciando que “para eles, o bom está relacionado ao que há de mais turvo e pesado na essência humana. De certo que o existencialismo de Sartre, a política de Marx, o crime e o castigo de Dostoiévski, entre outros, são memoráveis e geniais, porém, a vida vai além desses tentáculos do realismo. A fantasia é necessária ao bom desenvolvimento do ser humano…”. Eu concordo com a escritora e acrescento a minha apreciação.

Não sou contra as obras como Harry Potter e O Senhor dos Anéis. Tanto estas, classificadas como fantasiosas, como também as obras realistas, têm os seus méritos e devem ser respeitadas como elas são.

Precisamos lembrar que a escrita (romance, poema, conto) é uma arte, assim como a música, o teatro, a pintura e etc.

Por isso não podemos eliminá-la, seja uma obra fantasiosa ou realista, pois não se suprime uma arte. O que seria do mundo sem arte? Todas elas passam uma mensagem significante para o ser humano. A experiência artística pode intensificar a expressão de vivências, ter uma compreensão do sentimento ou situação.

O uso da criatividade, seja ela na fantasia ou na realidade, é um meio de entendimento do próprio autor, dos outros e na resolução da problemática existencial. Pois, por mais que a tal obra seja uma fantasia extrema, uma ficção, existe um autor que expressa algo nela. Há sempre uma mensagem nas entre linhas e que é a expressão do autor com as suas questões.

A visão das histórias de contos de fadas, fábulas, do ponto de vista da Psicanálise, revela o quanto essas histórias representam estruturas inconscientes inatas do ser humano. Assim o objetivo da arte, no caso a literatura, tem uma função cognitiva, fornecendo ao sujeito informações sobre si próprio e oferecendo algo para sociedade.

Então não vejo necessidade de “meter o pau” em livros de fantasias extremadas. Pois, se observarmos mais de perto, elas utilizam das expressões simbólicas, dos arquétipos, das fantasias e de muita subjetividade. Isto é ótimo para as crianças, já que as mesmas se identificam com esse mundo e assim incentiva futuros leitores.

Uma pesquisa científica, que saiu também na Revista Galileu, constata a importância dessa leitura fantasiosa. Uma pesquisa realizada por psicólogos da Universidade Católica de Pernambuco mostrou que crianças que tiveram maior contato com contos de fadas e histórias infantis gostam menos de brincadeiras e enredos de filmes e jogos violentos.

Essas crianças também demonstraram mais criatividade e segundo os psicólogos, o contato com a fantasia desses contos adia o fascínio pela violência além de estimular a imaginação e a leitura. Além disso, essa literatura é ótima para os adultos, uma vez que estes podem interpretar e entender a mensagem que tal livro passa.

Se me perguntarem se uma obra fantasiosa passa uma mensagem, eu direi que sim, ela passa. Não só as obras realistas, mas as fantasiosas, as de ficções, também transmitem informações interessantes.

As obras fantasiosas são ricas, pois os empobrecidos são alguns leitores críticos que se prendem as aparências e não vêem as coisas mais do que ela aparenta ser. Você deve estar se perguntando: como assim, além das aparências?

Pois bem, grandes artistas usam a arte para expressar o que sentem, para desabafarem e passar uma mensagem. A arte, no fundo, é uma terapia. Sem essa necessidade terapêutica não haveria a arte. O processo criativo envolvido na atividade artística é terapêutico e enriquecedor da qualidade de vida das pessoas.

O que é arte, basicamente? Geralmente ela é entendida como a atividade humana ligada a manifestações, expressões, feitas por artistas a partir de percepções, emoções e idéias, com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores.

O artista faz arte segundo seus sentimentos, suas vontades, seu conhecimento, suas idéias, sua criatividade e sua imaginação, o que deixa claro que cada obra de arte é uma forma de interpretação da vida!

Então não existe arte ruim ou boa quando se fala, no caso, em obras que envolvem fantasias ou realidades. Porque estamos falando de arte! Sendo assim, os livros de histórias fantasiosas seriam também artes? Eles, do mesmo modo, envolvem idéias, criatividades, imaginações, sentimentos… Por isso são artes.

Mesmo assim há perguntas que não querem se calar: como essas obras são artes, se falam de idéias loucas, fora da realidade, imaginária? Como elas conseguem passar uma mensagem, como o conceito de arte determina?

Eu digo: As obras que envolvem fantasias são umas das artes mais ricas, pois os que não podem ser expressos pelo real, pela fala, “pelos meios normais”, são expressos através dos símbolos, das metáforas… Cabendo o leitor ter uma visão holística e compreendê-las.

As obras de ficções ou fantasiosas exigem tanto do leitor como as obras realistas. As realistas demandam uma compreensão psicológica, lógica e filosófica da trama, enfim uma interpretação profunda.

Contudo, as obras fantasiosas também demandam do leitor um entendimento profundo que estabelece a decodificação das metáforas, dos símbolos compreendendo as mensagens que passam nas entrelinhas, mas não apenas nas entrelinhas, já que existem também episódios com mensagens explícitas.

Ela, a obra fantasiosa, pode exigir um pouco mais do leitor do que a obra realista, uma vez que existem coisas que não podem ser ditas pela expressão real, direta e simples, tornando necessárias às inserções dos símbolos, fantasias, oníricos, metáforas, misticismos e conseqüentemente a necessidade de decodificá-las, compreendê-las, porém são somente possíveis através do sentimento e não das palavras.

O “símbolo” é um elemento essencial no processo de comunicação, pois ele pode ser mais rico do que mil palavras, cabendo o leitor entendê-lo!

Então quem disse que essas obras de fantasias são trabalhos de qualidade duvidosa, que não acrescentam nada ao intelecto, é porque não tem a capacidade de interpretá-las. Então, não vamos subestimar esta literatura tida como simples fantasia.

Carl Gustav Jung, grande psiquiatra e criador da Psicologia Analítica, percebeu que a compreensão da criação de símbolos era crucial para o entendimento da natureza humana. Ele então explorou as correspondências entre os símbolos que surgem nas lutas da vida dos indivíduos e as imagens simbólicas religiosas subjacentes, sistemas mitológicos, e mágicos de muitas culturas e eras.

Por isso as leituras de contos de fadas cobram muito do leitor adulto, que é crítico. Ele, então, precisa ter um conhecimento considerado da filosofia, psicologia e/ou mitologia e seus símbolos? Se tiver vai ser bom, mas caso não tenha, ele pode trabalhar a sua subjetividade nas obras. Entendê-las de acordo com os seus próprios significados é possível, pois todos têm, subjetivamente, símbolos que constelam sentimentos profundos de apelo universal.

E é exatamente por esse motivo que a arte nos sensibiliza de forma tão arrebatadora, pois ela está repleta de significados e experiências comuns a todos. Assim como uma obra realista, a obra fantasiosa também tem a sua natureza complexa e que merece respeito. Não podemos somente se entregar às aparências, aos devaneios, as fantasias. Ela vai muito além disso. A fantasia pode ser o fator de ligação entre a realidade interna e a realidade externa e deste modo possível de ser interpretada.

Portanto, elas nos levar a um melhor conhecimento de nós mesmos. E assim, não tenho nada contra aos contos de fadas. A criatividade é universal pertencendo ao fenômeno humano e não só a alguns seres tido como talentosos.

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