Salvador: cuide de Você – Sophie Calle no MAM Bahia

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.
Salvador: cuide de Você - Sophie Calle no MAM Bahia.

Salvador: cuide de Você – Sophie Calle no MAM Bahia.

A francesa que transformou o fim de um romance em arte chega a salvador

Uma carta de rompimento é o mote da exposição Cuide de você, de Sophie Calle, que chega ao MAM-BA no dia 22 de setembro de 2009. No trabalho, mais de cem mulheres oferecem interpretações diferentes para a carta recebida pela artista, em foto, texto ou vídeo: de uma revisora a uma sexóloga, da compositora Laurie Anderson às atrizes Victoria Abril e Maria de Medeiros. Durante toda a exposição, atividades educativas convidam o público a aprofundar sua compreensão da obra e produzir respostas poéticas a ela.
Uma das figuras mais instigantes da cena artística internacional, a francesa Sophie Calle estará em Salvador em setembro, dentro da programação do Ano da França no Brasil. Por iniciativa da Associação Cultural Videobrasil e do SESC São Paulo, o Museu de Arte Moderna da Bahia recebe sua exposição Cuide de você(Prenez Soin de Vous), que foi vista por mais de 10 mil pessoas em São Paulo, entre julho e agosto.
Conhecida por obras que desafiam as fronteiras entre arte e vida, Sophie Calle fala de seu trabalho ao público baiano no Teatro Vila Velha, no dia 21 de setembro, e participa da abertura da exposição no dia 22, no MAM-BA. Durante a passagem da exposição pela Bahia, um vigoroso projeto de curadoria educativa propõe atividades gratuitas que ampliam o acesso de públicos variados à obra e aos conceitos da arte de Sophie Calle.
A proposta de trazer a exposição, inédita no país, partiu de Solange Oliveira Farkas, diretora do MAM-BA e presidente da Associação Cultural Videobrasil. “A busca artística de Sophie Calle é, na essência, uma busca humana”, diz Farkas. “Isso torna esta obra, exemplo da mais instigante produção contemporânea, acessível a grandes públicos.”
“Sophie Calle é uma grande artista que consegue fazer com que a arte imite a vida e a vida imite a arte, nos enredando entre o sonho e a realidade sem nenhum pudor”, completa Danilo Santos de Miranda, presidente do Comissariado Brasileiro do Ano da França no Brasil e diretor regional do SESC São Paulo.
A temporada da exposição em Salvador conta com apoio do Governo da Bahia, através da Secretaria de Cultura (Secult) e se conecta ao programa de articulações nacionais e internacionais que a diretora do MAM-BA vem implantando em sua gestão, iniciada em 2007.
A exposição de Sophie Calle na Bahia reafirma a política da Secretaria de Cultura de abrir o estado para o intercâmbio com as artes mundiais, fomentando as residências artísticas e transformando os museus em espaços culturais dinâmicos”, diz Marcio Meirelles, Secretário de Cultura da Bahia. “A exposição é importante para as nossas artes visuais, que precisam sempre estar em contato com novas questões, novos discursos, novas linguagens e outros sotaques. Por isso Solange Farkas está aqui, e é graças ao seu prestígio que ações como esta são possíveis.” “Somos gratos ao SESC São Paulo, ao Videobrasil e ao Ministério da Cultura, que, por reconhecerem o esforço da secretaria e sua política inovadora, uniram esforços para trazer Cuide de você para o MAM-BA, único lugar no Brasil a receber a mostra, além de São Paulo”, completa o secretário.
ENTREVISTA
EXPOSIÇÕES ANTERIORES
CUIDE DE VOCÊ: A EXPOSIÇÃO
OBRA LANÇADA NA BIENAL DE VENEZA EM 2007 FICA DOIS MESES EM CARTAZ NO MUSEU DE ARTE MODERNA
Uma das obras mais contundentes da 52ª Bienal de Veneza (2007), Cuide de você foi mostrada também na França, no Canadá e em Nova York. A exposição reúne textos, fotos e vídeos nos quais mais de cem mulheres interpretaram, a convite da artista, uma carta de rompimento amoroso recebida por ela de um ex-amante, o escritor Grégoire Bouillier. No intuito de “esgotar” as mensagens contidas no texto e em seus subtextos, Calle recrutou para a tarefa “leitoras” de especialidades e profissões diferentes, entre mulheres estranhas e amigas, anônimas e famosas.
O rol de mulheres que aceitaram o desafio inclui sua mãe; as atrizes Jeanne Moreau, Victoria Abril e Maria de Medeiros; a compositora Laurie Anderson; a DJ Miss Kittin; e profissionais como linguista, taróloga, juíza, antropóloga, designer, sexóloga, assistente social e clarividente, entre outras. Ao aplicar sua ótica pessoal ou o “filtro” de sua especialidade à carta, elas produziram um rico panorama de respostas – técnicas, acadêmicas, performáticas e emocionais – ao desafio da artista.
O texto é dançado por bailarinas, analisado por críticas, recriado por escritoras. A criminologista atribui a carta a “um manipulador, cujos relacionamentos com outras pessoas são baseados na dominação e na ascendência”. Para a headhunter, ela apenas revela um “candidato com discurso intrincado”. À especialista em etiqueta, a frase “Há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seu último e-mail” sugere um relapso, que “deveria ter respondido imediatamente”.
A ideia de desenvolver, em torno da carta, uma investigação que envolvesse o repertório profissional de muitas mulheres surgiu dois dias depois de receber a mensagem do ex-amante. Não é por acaso que a frase Cuide de você serve de título à obra. “Foram essas palavras que me deram o estalo para o trabalho”, conta Calle. “Esse é o meu método de cuidar de mim. Reverter as coisas em minha vantagem, para não sofrer com elas”, relata. “Recebi um e-mail terminando um relacionamento. Não sabia o que responder. Ele terminava com a frase Cuide de você. Foi o que fiz.”
 “Sophie Calle é a artista da percepção sobre o privado”, diz Danilo Santos de Miranda. “O que a faz tão singular é que este privado não é o do outro, mas seu próprio. Ela é capaz de se transformar de sujeito da ação a objeto. Passar de figura fragilizada por uma separação amorosa à artista que faz de seu momento íntimo e decepcionante um grande espetáculo, mas um espetáculo para que cada um reflita sobre suas decepções também.”
SOPHIE CALLE: A ARTISTA
MARCADAS PELOS JOGOS E REGRAS AUTOIMPOSTAS, OBRAS DA FRANCESA REVELAM A FRAGILIDADE HUMANA
É mais fácil realizar um projeto quando sofremos do que quando estamos felizes. Não sei o que prefiro: se estar feliz com um homem ou fazer uma boa exposição. (Sophie Calle)
Sophie Calle (Paris, 1953) é conhecida por uma obra em que explora detalhes de sua intimidade, desfaz as fronteiras entre autor e objeto e se vale de métodos às vezes controversos para revelar a vulnerabilidade humana, incluindo a própria. Ela faz de sua vida a sua obra. Tudo o que acontece com ela acaba virando assunto para as suas performances e exposições. Produzidos ao longo de mais de duas décadas, seus trabalhos são ora autobiográficos, ora voyeurísticos, e atestam a crença numa arte com “função terapêutica”.
O texto, a fotografia, o vídeo e a performance são os meios que usa para criar o que a crítica francesa Cécile Camart chama de “arte narrativa”. “A dimensão narrativa de suas instalações, misturando fotografia, textos e objetos, remete à primeira metade da década de 1970, em que jovens artistas como Christian Boltanski propuseram uma arte das pessoas, das coisas e das situações, que abrange um vasto leque da vida cotidiana real ou imaginária.”
Em seu primeiro projeto, Suite vénitienne (Suíte veneziana, 1979), Calle segue um desconhecido pelas ruas de Paris e depois até Veneza, fotografando-o e observando suas ações, como uma detetive. Em Les Dormeurs (Aqueles que dormem, 1979), escolhe pessoas ao acaso para dormir turnos consecutivos de oito horas em sua cama, por uma semana, enquanto os assiste e fotografa. Em La Filature (A perseguição, 1981), se faz seguir por um detetive, e expõe fotos da investigação simulada.
 Em 1983, em L’hôtel (O hotel), emprega-se como camareira em um hotel e se dedica a explorar e fotografar os pertences dos hóspedes, em imagens que mais tarde expõe. No mesmo ano, produz para o jornal francês Libération a série Le Carnet d’Adresses (Caderno de endereços), em que liga para pessoas listadas em um caderno de telefones achado na rua e as entrevista sobre o dono do objeto. Ele ameaça processá-la.
Um tema que se tornaria recorrente em sua obra, a dor ligada à perda da pessoa amada, surge na instalação Douleur Exquise (Dor de cotovelo, 1984-2003). Um encontro amoroso em Nova Délhi, cancelado, é o mote da obra, que usa fotos da viagem à Índia, recria o quarto do encontro e opõe depoimentos da artista e de outras pessoas sobre desilusões amorosas.
Em 1992, Calle serve de modelo ao personagem Maria Turner, do romance Leviatã, de Paul Auster; instigada, cria, sob o nome de Maria, uma instalação composta por uma série de refeições de cores combinadas (que seriam a dieta de sua personagem). Em Le Rituel D’Anniversaire(Cerimônia de aniversário), expõe presentes – obras de arte, objetos plásticos, chocolates – recebidos ao longo de treze anos, de familiares, anônimos e artistas como Christian Boltanski e Annette Messager.
A estreia de Cuide de você em Veneza, em 2007, foi precedida por uma grande retrospectiva da obra da artista, M’as tu vu?, realizada em 2003 no Centre Georges Pompidou, em Paris. Na abertura da exposição na Itália, o jornal inglês The Guardianapelidou Sophie Calle de “o Marcel Duchamp da roupa suja emocional”.

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