Não chore por mim

Juarez Duarte Bomfim.Juarez Duarte Bomfim.

Jovens cabeludos argentinos são recrutados à força e obrigados a servir de bucha de canhão contra o poderoso inimigo. Quando não morriam de bala morriam de frio no gélido arquipélago.

Início dos anos 1980, a sanguinária ditadura militar argentina vivia momentos críticos, que ameaçava a sua sobrevivência: inflação elevada, recessão profunda, empobrecimento da classe média, endividamento externo das empresas e do Estado, salário real cada vez mais baixo, aumento da pobreza e tensão social.

O ditador de plantão é substituido por outro igual, para enfrentar a grave crise econômica, social e política. As forças do mal que governavam aquele triste país elaboram uma cruel estratégia de busca de apoio, legitimidade e hegemonia política junto à massa ignara, apelando para o que existe de mais vil no ser humano: fazer a guerra, atacar, destruir, matar.

A motivação ideológica para tal ato insano foi brandir um manipulador nacionalismo frente à turba boçal, da necessidade de união patriótica do povo com a ditadura para vencer o inimigo e reaver um pequeno arquipélago despovoado e gelado, motivo de disputa territorial que se arrastava a séculos com o imperalista Reino Unido.

Nunca jamais havia sido visto manifestações de tanto regozijo e contententamento da rude plebe nas praças e avenidas, rugindo feroz contra o suposto inimigo e opressor, quando concentrações e comícios eram feitos em apoio ao agressivo ato do governo tirânico. Este evento ficou conhecido como Guerra das Malvinas.

O “civilizado” país europeu, responsável por espalhar guerras e destruição de culturas e civilizações por vários séculos de ação colonialista, reage à suposta agressão e organiza forças armadas fabulosas, digna de império em declínio, mas ainda império, para derrotar o pretenso invasor das suas contestadas propriedades insulares.

Jovens cabeludos argentinos são recrutados à força e obrigados a servir de bucha de canhão contra o poderoso inimigo. Quando não morriam de bala morriam de frio no gélido arquipélago.

Muitos escafederam para o Brasil, engrossando a corrente dos que aqui já se exilavam, fugindo da prisão, tortura e morte pelos tiranos militares.

Em Salvador, numerosa colônia de “hermanos” se estabeleceu no nascente bairro de Pituaçu, também chamado de bairro dos argentinos.

O saldo final da guerra foi a recuperação do arquipélago das Malvinas pelo Reino Unido e a morte de 649 soldados argentinos, 255 britânicos e 3 civis das ilhas.

Há males que vem para o bem? A humilhante derrota da Argentina na guerra levou a mesma multidão, que urrara nas praças em apoio aos generais militares, bradar contra os mesmos senhores da guerra, semanas depois – e isto apressou o fim da ditadura militar naquele trágico país.

Pergunto de novo: há males que vem para o bem? Nem sempre. A vitória britânica contra os argentinos favoreceu o conservadorismo político no Reino Unido e alçou ao poder a dama de ferro, Margareth Thatcher, que criou o neoliberalismo e iniciou uma outra guerra: contra o Estado de Bem-estar social na Inglaterra, que protegia os mais pobres. Começava uma nova guerra, agora contra o seu próprio povo.

 

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]