Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e pelo Presidente da França, Nicolas Sarkozy

Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e pelo Presidente da França, Nicolas Sarkozy.

Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e pelo Presidente da França, Nicolas Sarkozy.

Palácio da Alvorada, 07 de setembro de 2009.

Presidente: Excelentíssimo senhor Nicolas Sarkozy, presidente da República francesa,
Senhores integrantes da delegação francesa,
Senhores Ministros de Estado brasileiros que participam desta reunião,
Senhoras e senhores profissionais da imprensa francesa e brasileira,

O Brasil se sente honrado em receber novamente o presidente Sarkozy, desta vez, no dia de nossa Independência. Hoje consolidamos, definitivamente, a parceria estratégica que lançamos em 2005 e o plano de ação que definimos em dezembro passado. Comungamos valores e ideais, lutamos pela paz, queremos uma ordem global mais sustentável e solidária, e estamos confiantes das nossas responsabilidades no mundo. Esses princípios moldam nossa aliança para a mudança. Brasil e França estão juntos para reforçar o diálogo entre as economias industrializadas e os países emergentes, cuja voz precisa ser ouvida.

Por isso, estamos aprovando hoje instrumentos que consolidam uma aliança Norte-Sul de novo tipo, sem assimetrias. Os acordos em matéria de super computadores e projetos avançados de informática aeroespacial e nuclear reforçarão nossa competitividade em setores estratégicos de ponta.

No lançamento do programa do pré-sal, há dias, afirmei que estávamos celebrando nossa segunda independência, uma independência que também tem que ser tecnológica. Sem ela não se constrói um país soberano. Por isso são tão simbólicas as decisões que tomamos no dia de hoje com a França, no campo da defesa, e as que certamente tomaremos no futuro.

Vamos produzir, conjuntamente, equipamentos que reforçarão a capacidade tecnológica do Brasil, para proteger e valorizar suas riquezas naturais. Esse é um componente fundamental da estratégia de defesa que o meu governo aprovou. Queremos criar consórcios regionais na área da indústria de defesa, gerando sinergias com nossos vizinhos. Queremos fortalecer nossas estratégias de dissuasão para preservar o continente como zona de paz. O Brasil aposta em um projeto regional de defesa voltado para a construção da confiança, da integração e do desenvolvimento. Isso é o que França e Brasil estão fazendo em suas fronteiras. A ponte sobre o Oiapoque aproximará nossos povos e terá oportunidade de desenvolvimento conjunto. Se Deus quiser, vamos inaugurá-la ainda em 2010.

Com esse mesmo objetivo, estamos intensificando a cooperação fronteiriça em matéria policial e consular. Nossa parceria se assenta em números fortes. O estoque de investimentos franceses no Brasil aumentou 50% nos últimos três anos. O comércio mais do que dobrou desde 2003, atingindo, no ano passado, quase US$ 9 bilhões. A crise mundial nos deixou o desafio de superar esses níveis de intercâmbio. Essa é a tarefa da primeira reunião do Grupo de Trabalho de Alto Nível que se reúne amanhã, em São Paulo, para identificar novas possibilidades de negócios. As oportunidades estão aí, com os preparativos para a Copa de 2014, as grandes obras do Plano de Aceleração do Crescimento, a exploração do pré-sal. E – não está escrito aqui – o trem-bala, que nós queremos fazer, ligando o Rio de Janeiro a São Paulo.

O Centro Franco-Brasileiro da Biodiversidade vai multiplicar capacidades em pesquisa, conhecimento e inovação tecnológica na Amazônia. Valorizando os produtos e serviços da floresta, avançaremos mais na redução do desmatamento.

Nosso grupo de trabalho bilateral sobre mudança climática se reúne amanhã, para aproximar nossas posições para a Cúpula de Copenhague. O Brasil está fazendo a sua parte. Vamos apresentar números que confirmam nossa contribuição para a redução das emissões. Contamos com a França para sensibilizar os países industrializados a cumprirem seus compromissos no Protocolo de Quioto. O desafio de preservar nosso planeta sem prejudicar as expectativas de desenvolvimento dos países mais pobres é um pilar de nossa aliança para a mudança.

O presidente Sarkozy e eu temos nos coordenado intensamente, nos principais fóruns multilaterais, para defender mudanças na governança global. Nosso próximo encontro será em Pittsburgh, na Cúpula do G-20. Queremos uma efetiva transferência de poder de voto para os países em desenvolvimento, no FMI e no Banco Mundial. Vamos insistir na regulamentação transparente dos agentes financeiros. Não podemos ser complacentes com os sinais preocupantes do retorno à especulação desenfreada. O Brasil, afinal de contas, não emprestou US$ 10 bilhões ao FMI para tudo ficar como era antes.

A coordenação, no âmbito do G-20, evitou que a crise mundial se agravasse, mas seria prematuro suspender as medidas anticíclicas que têm ajudado a reduzir seus efeitos em muitos países. A retomada do crescimento mundial será muito mais rápida se concluirmos as negociações da Rodada de Doha em bases justas e equilibradas. Só assim corrigiremos as assimetrias no sistema multilateral de comércio.

Seria uma ilusão, no entanto, imaginar que construiremos um mundo mais justo sem uma reforma profunda das Nações Unidas. Tenho dito que não podemos resolver os problemas de ordem multipolar, no século XXI, com os instrumentos de 60 anos atrás.

O firme apoio da França ao pleito brasileiro por um assento permanente no Conselho de Segurança é mais do que um voto de confiança no Brasil. É uma demonstração do compromisso do presidente Sarkozy com a ordem mundial democrática e solidária. É esse também o espírito de nossa aliança na África.

Espero poder assinar, durante a Cúpula Brasil-União Europeia, uma parceria trilateral para o desenvolvimento de bioenergia. Sei que o presidente Sarkozy compartilha meu entusiasmo pelos combustíveis renováveis. Com a ajuda da França, podemos repetir na África a exitosa experiência brasileira na produção de energia limpa, barata e geradora de emprego e renda.

Por todos esses motivos, estou convencido de que nosso diálogo é cada vez mais indispensável. Mas tudo isso que estamos realizando juntos não seria possível se não fosse a afinidade entre nossos povos. A maior prova disso é o enorme êxito do Ano da França no Brasil. Os brasileiros estão tendo a oportunidade de conhecer e sentir uma França rica e diversa, aberta ao mundo e próxima ao Brasil. Esta é a mensagem maior da visita do meu amigo presidente Sarkozy e da aliança que hoje celebramos.

Meu querido Sarkozy,
Eu sei que você ficou alegre porque percebeu que eu terminei meu discurso político, querido, mas eu queria lhe dizer umas palavras que não estavam escritas aqui. Peço, inclusive, desculpa aos intérpretes.

Acho que para o Brasil e para mim, como Presidente do Brasil, a visita do presidente Sarkozy é mais do que uma visita. Na verdade, é a consolidação de uma parceria estratégica entre dois povos que têm muita coisa em comum. E a parceria que estamos fazendo não é uma simples parceria comercial. A França não quer só vender ao Brasil e o Brasil não quer só vender à França. Nós queremos pensar juntos, criar juntos, construir juntos e, se for possível, vendermos juntos.

Por isso que essa parceria, sobretudo na área de defesa, para o Brasil é muito importante. O Brasil é um país, presidente Sarkozy, que prima pela paz. Mas, ao mesmo tempo, este país tem 360 milhões de hectares de terra na Amazônia que precisamos preservar e, ao mesmo tempo, permitir que mais 25 milhões de pessoas que moram na região possam se desenvolver, trabalhar e viver dignamente.

Mas agora descobrimos uma outra riqueza, que é o pré-sal. O pré-sal está situado em uma área de 149 mil quilômetros quadrados, a praticamente 6 mil metros de profundidade, e nós sabemos a quantidade de reserva de petróleo que nós temos lá. E fazer investimentos na área de defesa é a gente cuidar do nosso território e da nossa soberania com muito mais cuidado. Afinal de contas, deve sempre passar pela nossa cabeça a ideia de que o petróleo já foi motivo de muitas guerras, de muitos conflitos, e nós não queremos nem guerra e nem conflito.

O Brasil está vendo essa oportunidade do pré-sal como a possibilidade de, nos próximos 15 ou 20 anos, o Brasil se transformar em uma grande economia mundial. E nós assumimos alguns compromissos que são fundamentais. Eu canso de ver país com muito petróleo, pobre, e conheço país que não tem petróleo, rico. Nós queremos fazer uma combinação: estamos criando uma empresa pública, uma empresa estatal, que vai cuidar de administrar essa riqueza do petróleo, criando um fundo para investir, prioritariamente, na educação, na ciência e tecnologia, em meio ambiente e em cultura. São as quatro áreas prioritárias – certamente que tem outras – mas, investindo na educação é que eu acho que, mesmo que o petróleo acabe, se o povo estiver bem formado, eu acho que a nossa riqueza continuará para todo o sempre.

De forma que essa parceria estratégica, na área da defesa, para nós tem um valor extraordinário quando percebemos que podemos construir juntos as coisas que precisamos construir.
Então, eu quero terminar dizendo à imprensa brasileira e à imprensa francesa que hoje não é apenas o Dia da Independência do Brasil. Hoje é o dia em que nós acabamos de consolidar, definitivamente, essa parceria estratégica com a França. E a partir de agora nós só temos uma palavra para dizer aos nossos ministros: a palavra se chama “trabalho, trabalho e trabalho”, porque não basta os dois presidentes decidirem, se os nossos companheiros mais próximos, ministros, não tiverem a disposição de fazer a coisa andar. E, ainda, quando vocês decidirem fazer a coisa andar, nós temos que acompanhar, porque lá embaixo tem uma coisa chamada “máquina burocrática” que, às vezes, trabalha muito para que as coisas não aconteçam.

Pode ser que tenha gente que não queira essa boa parceria entre França e Brasil. Eu tenho certeza de que os franceses querem, e tenho certeza de que o Brasil quer. E se nós dois quisermos, quem é que pode ser contra essa parceria extraordinária?

Por isso, presidente Sarkozy, mais uma vez, obrigado pela sua disposição de trabalhar junto com o Brasil.

Presidente Sarkozy: (em francês)

Presidente: Aqui, só para a imprensa brasileira amanhã não cometer um equívoco. Ontem… Eu estou prometendo há um ano um churrasco ao presidente Sarkozy. E ontem ele chegou aqui às 8h30, o churrasco já estava quase no ponto, só que essa churrasqueira moderna tem um vidro temperado de cada lado, e acho que se colocou carvão demais na churrasqueira, estourou o vidro e caiu todo o vidro em cima da carne, ou seja, não poderia oferecer um churrasco com vidro.
Mas a Marisa tinha providenciado… a Marisa intuiu que ia chover e ela deixou a moqueca capixaba preparada. Então, em vez do churrasco, nós comemos uma moqueca capixaba, um feijão tropeiro. E eu fiquei muito satisfeito porque o presidente Sarkozy gostou muito do feijão tropeiro, significa que ele já está se sentindo em casa.

___________: A seguir, os presidentes responderão a duas perguntas da imprensa brasileira e duas da imprensa francesa. Chamamos Jean-Pierre Langellier, do Le Monde.

Jornalista: Senhor presidente Lula, minha pergunta é para o senhor. Hoje, pela manhã, o senhor anunciou a abertura de negociações entre o Brasil e o grupo Rafale, para a compra de 38 aviões de combate, aviões de caça. A minha pergunta: isso significa que os concorrentes do Rafale, os dois outros concorrentes, estão definitivamente excluídos da competição?
Muito obrigado.

Presidente: Olha, isso significa, pura e simplesmente, o que está escrito em nossa nota. Eu anunciei que o Brasil tomou a decisão de entrar em negociações com o GIE para a aquisição de 36 Rafale. Ou seja, eu já tinha feito uma entrevista com você, no dia anterior, e eu tinha dito que para nós o avião é muito importante mas, para nós, o importante mesmo é ter acesso à tecnologia para que a gente possa produzir esse avião no Brasil. E é isso que estamos negociando agora, com o meu Ministro da Defesa, [com o] meu Comandante da Aeronáutica, com o Ministro da Defesa da França, com a empresa que produz. No fundo, no fundo, o Brasil quer comprar um avião que dê ao Brasil a garantia de uso total desse avião, com transferência de tecnologia.

Jornalista: Boa tarde. Boa tarde, Presidente. Eu queria insistir um pouquinho só, Presidente, nessa questão. Saber se, então, já acabou a concorrência com o governo sueco e com o governo norte-americano, e qual é o valor desse pacote, já que a França também anuncia, nesse momento, que vai comprar, do Brasil, 10 Hércules brasileiros, digamos assim.

Presidente: Deixa eu lhe dizer uma coisa. Os nossos companheiros trabalharam até quase duas horas da manhã. Eu sequer tive tempo de fazer uma reunião com o Ministro da Defesa para discutir toda a profundidade das discussões que eles tiveram.
O que significa, claramente, é o que está na nota, nada mais e nem menos que isso, ou seja, nós decidimos começar as negociações para a compra do Rafale.

Jornalista: Esse valor de 10 bilhões…

Presidente: Veja, eu não sei o total ainda. Você pode ficar certa de que esta semana eu estarei, junto com o ministro Jobim, junto com o Comandante da Aeronáutica, discutindo pormenores, porque são eles que vão ter que viajar e discutir esses assuntos.

Jornalista: Obrigada.

_________: Chamamos Bruno Daroux, da Rádio França Internacional.

Jornalista: Para o presidente Sarkozy. Senhor Presidente, com a abertura dessas negociações, podemos dizer que é o fim da maldição do Rafale? E o senhor poderia nos dizer um pouco mais sobre a contribuição das empresas francesas no futuro avião de transporte militar brasileiro? A França se comprometeu a comprar cerca de uma dezena desses futuros…

Presidente Sarkozy: (em francês)

Jornalista: Quanto ao prazo das negociações, ao tempo das negociações, em relação ao Rafale, o senhor pensa que pode ter o mesmo tipo de duração?

Presidente Sarkozy: (em francês)

___________: Chamamos Denise Crispim, de O Estado de S. Paulo.

Jornalista: Boa tarde, senhores Presidentes. Eu gostaria de mudar um pouquinho de tema, e saber dos senhores qual pode ser uma posição conjunta que Brasil e França podem vir a colocar no G-20, na reunião de Pittsburgh, levando-se em consideração, digamos, a comunhão de ideias que existem entre os países sobre a mudança, uma maior regulação dos mercados financeiros, o temor com relação à especulação, à retomada da especulação financeira, e também sobre a reforma dos organismos de Bretton Woods. Eu gostaria da opinião dos dois Presidentes, por favor.

Presidente: Olhe, primeiro, eu acredito que o G-20 está cumprindo um papel importante numa nova ordem econômica mundial, que deverá surgir depois dos acontecimentos do ano passado.
Obviamente que as coisas acontecem com maior lentidão do que aquela que Sarkozy e eu gostaríamos que acontecesse, porque somos 20 países, temos que levar em conta as diferenças de pensamento entre nós.

Mas já ficou claro que o mundo não pode sobreviver a uma terceira onda de especulação como essa que nós vivemos, que começou com o subprime. Eu tenho dividido, Sarkozy, a crise em dois momentos: uma coisa foi a crise imobiliária americana em que se discutia o financiamento e a possibilidade de pagamento dos mutuários americanos. E a outra parte da crise, mais grave, foi quando quebrou o Lehman Brothers, que o dinheiro desapareceu do mercado. Dizem os especialistas que se o presidente Bush tivesse colocado US$ 60 bilhões, ainda em 2007, não teria acontecido a crise de crédito que aconteceu e, certamente, o Lehman Brothers não teria quebrado.

Concretamente, nós vamos trabalhar para que os países só alavanquem, de financiamento, aquilo que os bancos têm competência para pagar. Ninguém pode emprestar o que não tem. As pessoas só podem emprestar aquilo que têm, e que esses empréstimos tragam como resultado a produção de um bem material, ou seja, que se produza alguma coisa. É isso que vai trazer riqueza e não a especulação que nós tínhamos antes.

A segunda coisa é que também já está claro que tem que mudar o FMI, tem que mudar o Banco Mundial, porque essas instituições todas precisam emprestar dinheiro para gerar desenvolvimento, e não emprestar dinheiro com determinadas imposições que praticamente impossibilitam os países que pegarem o dinheiro de fazer alguma coisa.

Eu conheço situações na África em que o país tem dinheiro e o FMI não permite que o país possua uma estrada porque tem que fazer ajuste fiscal. Ora, não cabe ao emprestador impor quais são as condições em que se vai se utilizar o dinheiro. Ou seja, o que o emprestador tem que querer é a garantia de que vai ser ressarcido pelo empréstimo. E eu acho que isso tem que mudar.
O Brasil, na discussão do presidente do FMI… nós discutimos muito com o presidente do FMI antes de ele ser eleito. Eu penso que todos nós temos que ter muita clareza de que o mundo não pode esquecer o que aconteceu no ano passado. Se não quebrou foi porque os Estados voltaram a exercer um papel extraordinário, porque a lógica de que o mercado iria resolver tudo faliu. O mercado pode resolver uma parte, mas o Estado não pode abrir mão de ser o indutor.

E aqui no Brasil, vocês acompanharam, nós tivemos que induzir a compra de bancos, nós tivemos que induzir mais dinheiro na produção, nós tivemos que fazer com que os bancos públicos colocassem mais crédito. Ora, se não existe o Estado, as coisas não funcionam com a facilidade que alguns imaginavam que iriam funcionar.

De forma que eu tenho convicção de que os nossos Ministros da Economia tiveram uma reunião agora e que sempre houve concordância no comportamento da França e do Brasil. E, certamente, eu e o Sarkozy vamos para a reunião para cobrar que, definitivamente, cada país faça a sua parte, para que essa crise não resulte no sofrimento dos mais pobres que não tiveram nada a ver com a crise.

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Redação do Jornal Grande Bahia
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