O dia seguinte de uma eleição que não tranquilizou o país | Editorial do Jornal Público de Portugal

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.

Sócrates ganhou as eleições, mas os eleitores castigaram o “socratismo” absoluto. Os próximos tempos serão difíceis, mesmo que o triunfo relativo de Portas possa vir a funcionar como um bálsamo para o primeiro-ministro.

Escrevi aqui, na sexta-feira, que estas eleições seriam um referendo a José Sócrates ou, se se preferir, ao “socratismo”. José Sócrates venceu-o porque o PS foi o partido que ganhou as eleições. O “socratismo”, pelo menos enquanto estilo e forma de governar em maioria absoluta, saiu derrotado pois o PS foi o único partido parlamentar que perdeu votos, e muitos, nestas eleições: mais de meio milhão, para ser exacto.

Num tempo de eleições muito personalizadas, Sócrates e o PS ganharam ao conseguirem introduzir as alterações necessárias no seu discurso, na sua prática e no seu estilo de se apresentarem aos portugueses de forma a recuperarem da pesada derrota sofrida nas eleições europeias. E também ganharam porque o PSD não só não conseguiu convencer muitos dos descontentes com a governação socialista (que optaram antes pelo CDS, à direita, e pelo Bloco, à Esquerda), como não conseguiu que parte do seu eleitorado tradicional voltasse a acreditar no partido, ficando em casa.

Em contrapartida, o “socratismo” saiu ferido destas eleições. Desde 1991 que o PS não tinha, em eleições legislativas, um resultado tão baixo. Mesmo em 2002, quando Ferro Rodrigues perdeu para o PSD de Durão Barroso, os socialistas recolheram praticamente o mesmo número de votos mas uma percentagem mais elevada, tendo eleito apenas menos um deputado. Mais: desde 1985, quando Cavaco Silva formou o seu primeiro governo, minoritário, que nenhum partido vencia as eleições com uma percentagem tão baixa dos votos.

A capacidade de luta de Sócrates permitiu-lhe recuperar em pouco mais de três meses e deixar o segundo partido, o PSD, a 7,5 pontos de distância. Em contrapartida a forma como Ferreira Leite conduziu o seu partido nesta campanha permitiu-lhe fugir a um resultado pior do que o de 2005, mas também provou que uma campanha que deliberadamente fugiu ao marketing hoje dominante tem muita dificuldade em passar. Ao contrário de Sócrates, que travava a batalha da sua vida, Ferreira Leite deu muitas vezes sinais de que regressara ao PSD mais para resgatar o partido do populismo do que com a ambição de chegar a São Bento – uma ambição que nenhum candidato à liderança do PSD alimentava há ano e meio, quando substituiu Luis Filipe Menezes.

Mais do que para salvar o seu futuro à frente do PSD, Ferreira Leite ainda terá de travar, no dia 12 de Outubro, a batalha das autárquicas, que o PSD tem muito boas condições para ganhar. Se o conseguir, Ferreira Leite e os que a rodeiam terão boas condições para influenciar uma possível sucessão no partido – se a houver, pois ontem isso não ficou claro.

Ontem Paulo Portas cumpriu um velho sonho: trazer de novo o CDS à condição de terceiro partido e, sobretudo, eleger o número de deputados suficiente para não poder ser ignorado por um PS que deixou de poder pôr e dispor na Assembleia da República e que não consegue fazer maioria com nenhum outro partido à excepção do PSD – e com o PSD não quererá por certo fazê-lo. O problema é saber o que fará Paulo Portas com esse poder, isto é, se o CDS regressará ao tempo dos acordos pontuais com o PS protagonizados por Guterres e Manuel Monteiro (cenário improvável) ou se exigirá mais.

É que, à esquerda do PS, o PCP manteve e até melhorou a sua boa votação de há quatro anos e meio e o Bloco de Esquerda cresceu muito e cresceu sobretudo à custa de eleitores que, no passado, seriam eleitores típicos do PS. Nenhum destes dois partidos teve tão bons resultados como anunciavam algumas sondagens, mas ambos colocam uma enorme pressão sobre o PS: qualquer aliança à direita do PS fá-lo correr o risco de conhecer um destino idêntico ao do seu partido-irmão da Alemanha, o SPD, que ontem sofreu uma pesada derrota às mãos dos partidos à sua esquerda.

Mas, para além destas considerações, há muitos factores que influenciarão o futuro próximo. Uns económicos, outros políticos, outros pessoais. Nenhum deles deve ser menorizado.
Os problemas econômicos são conhecidos. E, também, desconhecidos. Não está a ocorrer nenhum milagre em Portugal e a gestão do período de tempo que vai daqui até às eleições presidenciais – com múltiplas agendas políticas a cruzarem-se – cria tensões difíceis de gerir. Tal como serão igualmente muito difíceis de gerir as relações pessoais entre os três homens que terão de tomar decisões fulcrais para assegurar um mínimo de governabilidade: Cavaco Silva, José Sócrates e, desde ontem, Paulo Portas. Sendo que este fez ontem o discurso mais inteligente da noite ao mesmo tempo que Sócrates voltou a ser incapaz de fazer o discurso magnânimo que se espera, em democracia, de quem ganha as eleições. Pelo contrário.

*Com informação de José Manuel Fernandes | Editor do Jornal Público de Portugal

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