Discurso do presidente Lula proferido em Roraima: estamos fazendo parte de uma geração que queremos mudar a lógica perversa deste país

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Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante assinatura de atos do governo federal com os governos do estado e de municípios de Roraima. Boa Vista-Roraima, 14 de setembro de 2009.

Se me permitem, eu queria cumprimentar o Governador, e em nome do Governador cumprimentar todos os companheiros da mesa, porque a nominata já foi lida várias vezes. Vocês são todos homens e mulheres muito conhecidos, e o fato de eu citar o nome de vocês aqui não vai acrescentar nenhum voto para vocês nas próximas campanhas.

E, também, eu estou um pouco prejudicado porque toda vez que fala muita gente antes do Presidente… É gostoso você falar por último quando tem dois para falar, mas quando tem cinco ou seis, você vai falar, todo mundo já falou o que você queria falar.

Eu só espero, eu só espero que a nossa gloriosa imprensa de Roraima publique amanhã, nas primeiras páginas, todos os acordos e os contratos que foram firmados aqui, para que o povo saiba o que eu vim fazer aqui hoje. Porque, durante algum tempo este estado, liderado por algumas pessoas, passou a contar mentiras sobre o meu governo. Eu recebia fotografias de outdoor em Brasília e eu nunca me preocupei, porque estou acostumado a viver assim, a vida inteira. Diziam que eu tinha acabado com o estado de Roraima, que eu estava dando todas as terras para os índios e que isso aqui…

Ontem, só para vocês saberem, eu saí de casa… hoje de manhã, com a notícia de que alguns tinham comprado todos os ovos e todos os tomates de Roraima para jogar em mim e na minha delegação. Eu, primeiro, tenho consciência de que nenhum trabalhador, nenhuma trabalhadora e ninguém que vive de salário iria comprar um ovo para jogar em alguém, porque preferiria comer esse ovo. Mas sempre tem gente que tem demais e aí pode jogar um ovo, pode, porque pode comer outras coisas melhores que ovo. Quem vive de salário não tem luxo.

Mas eu comecei dizendo isso porque uma das coisas que fez o Brasil não avançar mais rapidamente é pela irresponsabilidade das mentiras que se conta, de vez em quando, neste país.

Ora, quando nós precisamos fazer a demarcação das terras indígenas, eu passei três anos tentando fazer um acordo, três anos. Aliás, quase quatro anos tentando construir um pacote que pudesse contemplar os interesses de todo mundo no Estado. Até que alguém entrou na Justiça, e na hora que entra na Justiça, nem o Presidente, nem o delegado de polícia, nem o ministro da Justiça podem fazer absolutamente nada. A Suprema Corte decidiu, a gente acata cumpre e não reclama, porque é a última instância de decisão neste país.

Mas, também, essa discussão não é nova. Eu me lembro quando o Collor demarcou as terras dos Yanomami. Eu lembro o que diziam: que ia acabar o estado de Roraima. Quem esteve aqui comigo na Caravana, em 93, eu fiz um debate aqui na social [associação] comercial, e tinha alguns empresários dizendo: “vai acabar o estado de Roraima, porque vai dar todas as terras para os índios”. Eu dizia: companheiros, e companheiras o que nós precisamos é discutir como utilizar a terra que tem .

Porque a verdade é que o que tem de Roraima que não é terra indígena nem é parque estadual, ainda equivale a cinco estados de Sergipe. Portanto, tem terra para a gente plantar comida, para a gente criar gado, para a gente desenvolver indústrias, para a gente desenvolver a agricultura.

O que é preciso é a gente discutir esses assuntos delicados com muita responsabilidade, porque a desgraça de uma mentira é que você é obrigado a passar a vida inteira mentindo para justificar a primeira mentira que você contou.

Hoje, como presidente da Republica, eu fico até constrangido, porque eu tenho que ser muito diplomata. Mas falta um ano e quatro meses para eu deixar de ser presidente e, certamente, eu virei a Roraima para fazer tantos debates, e aí a gente pode discutir com muito mais seriedade, quem sabe até na linguagem que os meus adversários conhecem, para a gente discutir as mentiras contadas pela imprensa, aqui, contra o governo federal. Mas fica, fica para um outro momento, fica para um outro momento.

A gente vai discutir isso com muito cuidado porque eu vou demorar muito para morrer, se Deus quiser, e vou vir muitas vezes e vou continuar viajando pelo Brasil. Não pensem que quando eu deixar a Presidência eu vou para Harvard, eu vou para Nova Iorque, eu vou para São Francisco estudar. Não, eu vou continuar percorrendo este país para que cada vez mais eu conheça o chão desta terra, porque ainda tem muita coisa para a gente fazer no Brasil.

Bem, mas eu queria dizer para vocês que a história de um país não é contada em um mês, em um ano, em dois anos. Às vezes, a história é contada em décadas. Veja, por exemplo: Juscelino Kubitschek só foi transformado em um bom presidente da República 50 anos depois que ele morreu, 50 anos depois que ele morreu. Ou seja, porque a Globo fez uma novela, e a novela fez um reparo às críticas que o Juscelino sofreu durante todo o tempo que ele governou este país.

Em algum momento, quando eu deixar a Presidência, vai ter professores universitários, vai ter economistas, vai ter cientista político que vai fazer a aferição sobre os vários governos do Brasil. E aí é que eu quero ver a comparação entre um torneiro mecânico e os doutores que governaram esse país antes de mim. Eu quero que os estudiosos pesquisem, porque tem algumas respostas que talvez eu não saberia explicar. Mas nós temos presidentes da República que passaram por este país, governaram quatro, seis ou mais anos e não fizeram uma única universidade federal neste país.

Ora, se este país tem uma dívida com o seu povo, esta dívida é exatamente a educação, porque é a educação que garante a igualdade de oportunidades entre os seres humanos, é através da educação que a gente vê a sociedade evoluir. Não existe modelo de país desenvolvido, no mundo, se não tiver um forte investimento na educação. Quando a gente tiver uma grande educação neste país, a gente vai perceber que exportar conhecimento vale muito mais do que exportar minério de ferro, do que exportar soja, do que exportar qualquer outra coisa que é importante a gente exportar.

Então, vai chegar um dia em que as pessoas vão perguntar por que hoje, setembro de 2009, o presidente Lula e os seus ministros vêm a Roraima anunciar o investimento de R$ 509 milhões em saneamento básico aqui, só até 2010. E no governo passado, no ano inteiro, eles investiram – não em Roraima, no Brasil inteiro – apenas R$ 262 milhões. Era porque existiu um tempo neste país que governante não gostava de fazer saneamento básico, porque você fazer um buraco, enfiar uma manilha e por ela passar o esgoto, passar a água suja e depois você tratar para jogar ela no rio, limpa, é tudo embaixo da terra, não dá para você colocar o nome da mãe, da tia, da avó em uma placa, não dá. Então, as pessoas preferiam fazer pontes e viadutos, porque aí dava para fazer verdadeiros outdoors eternos com o nome das famílias.

Pois bem, veja o que é a ignorância, porque tem muita gente que confunde inteligência com conhecimento escolar ou intelectual. Então, muita gente não fazia saneamento básico porque não dava para colocar placa.  Imagine eu colocar uma manilha embaixo da terra e colocar uma plaquinha em cima: “aqui tem uma manilha chamada dona Lindu”. Não pegava bem, não estava legal.

Agora, a ignorância era tão grande, que esses políticos deveriam perceber que não tem outdoor mais digno do que uma criança poder pisar na rua, com os pés descalços, sem pisar em fezes, sem pisar em esgoto a céu aberto. E é isso o que nós estamos fazendo, é quase um processo de reparação, que os governantes que governaram este país nos últimos 40 ou 50 anos, porque foram permitindo que o povo fosse se amontoando, fosse construindo favelas, palafitas, vivesse em um processo de degradação familiar. E as pessoas não se importavam, porque a verdade é que tem uma parte da classe política que só lembra do pobre em época de eleição. Essa é a verdade.

A eleição é a época em que banqueiro não vale nada, a eleição é a época em que grande empresário não vale nada, quem é bom é o pobre. Todo mundo fala maravilhas, beija criancinha, abraça, levanta, seja branco ou negro, não tem problema. Mas, depois que termina a eleição, que toma posse, nunca um pobre é convidado para um almoço, para um café ou para uma janta com a maioria dos governantes deste país.

Então, nós estamos fazendo parte de uma geração que queremos mudar a lógica perversa deste país. Não existe, companheiros, nada mais fácil para a gente fazer no Brasil do que cuidar dos pobres. Não existe nada mais fácil. Rico, quando entra no gabinete da gente, ele só quer bilhão. É um bilhão para cá, um bilhão para lá. Pobre, às vezes, quer o que comer, o pobre quer tomar café de manhã, almoçar, jantar, estudar, ter direito a ter uma casinha e o transporte, é uma diferença enorme. E eu não entendo por que esta gente, a vida inteira, não melhorou a vida do povo mais pobre deste país. Ora, quando eu vejo um moleque de 24 anos sendo preso porque cometeu um delito qualquer, eu fico imaginando o que levou aquele jovem a cometer um delito. Qual foi a esperança que o Estado deu para ele? Qual foi a educação que o Estado deu para ele? Qual foi a possibilidade de trabalhar que o Estado deu para ele? Qual foi a formação profissional que ele teve? Nenhuma. Até porque este país passou mais de 20 anos sem crescer.

Eu vou dar um número para vocês, para mostrar o desmonte deste país. Em 1988, o Brasil tinha 52 mil engenheiros trabalhando em empresas de projetos e consultorias, em 1988 o Brasil tinha 52 mil engenheiros trabalhando em consultorias e projetos. Em 2003, quando eu assumi a Presidência, o Brasil só tinha 8 mil engenheiros trabalhando em consultorias e projetos.

Um país que desmonta a formação de engenheiros e nega emprego para engenheiros é um país que está predestinado a não se desenvolver, porque o Estado não fazia obras, o Estado não contratava e, portanto, as pessoas se formavam engenheiros e iam trabalhar em bancos, iam trabalhar em qualquer outra coisa, menos trabalhar na função de engenheiro.

Então, este país, teve um tempo em que conseguiram colocar na nossa cabeça, através de um processo de massificação, que o Estado não valia nada, “o Estado não presta para nada, o que vale mesmo é o mercado, é o mercado que vai resolver todos os problemas da Humanidade”, e muitos de nós acreditamos, e muitos de nós filosofamos.

Agora, aconteceu essa crise financeira, causada por quem? Pelo deus-mercado. E quem salvou? O diabo-Estado é que salvou essa crise econômica, para que os países não quebraram [quebrassem], colocando dinheiro na economia.

Aqui no Brasil, quem não deixou o país quebrar foi o governo, com investimentos no PAC. Nós tínhamos 504 bilhões, aumentamos para 646 [bilhões], e o povo pobre, que não parou de comprar. O povo pobre continuou comprando as coisinhas que ele precisa, todo santo dia, e é por isso que o comércio não diminuiu uma única vez durante toda a crise.

Meus companheiros de Roraima e minhas companheiras de Roraima, companheiros e companheiras de Boa Vista. O Brasil está vivendo um momento excepcional. Não acredito que na história do Brasil a gente tenha vivido um momento [como o] que a gente está vivendo. Primeiro, nós temos US$ 215 bilhões de reservas. Segundo, a gente devia ao FMI, e hoje é o FMI que deve para nós, porque nós emprestamos dinheiro para eles. Terceiro, enquanto na Europa está tendo muito desemprego e nos Estados Unidos, este ano nós vamos criar quase 1 milhão de empregos com carteira profissional assinada. Segundo [Quarto], a gente sabe perfeitamente bem que tudo que os trabalhadores tinham de crédito em 2003 eram  R$ 2 bilhões, e hoje os trabalhadores rurais têm R$ 15 bilhões.

Eu vi uma faixa, aqui, falando do Luz para Todos. É verdade que nós estamos em dívida com o programa Luz para Todos aqui, no Amazonas, no Acre, no Amapá. Mas tem estado em que nós já fizemos 187% daquilo que a gente se propôs a fazer. O ministro Lobão já conversou com o Governador, e nós vamos colocar luz na casa do povo de Roraima, porque eu quero.

Eu fico pedindo a Deus, todo dia, que eu seja o presidente que possa apagar a última lamparina neste país. E faço isso por que tenho consciência do que é uma mãe viver à base do candeeiro, o que é fazer comida, o que é costurar, o que é cuidar de um filho doente à base do candeeiro. É por isso que nós queremos levar luz para todo mundo. O ministro Lobão sabe que eu vou cobrar dele sistematicamente, porque quem fez o que ele fez no restante do país não pode deixar Roraima, que é o estado menor, ainda com muita gente sem energia elétrica.

Vocês sabem, companheiros e companheiras, que nós este ano começamos a crescer. Vocês viram na televisão que a economia voltou a crescer. A economia brasileira vai crescer bem no ano que vem. Se a economia brasileira crescer bem no ano que vem, Roraima vai crescer bem, porque o que nós fizemos hoje aqui não foi dar títulos de terra. O que nós fizemos hoje aqui foi dizer para Roraima: desde que Roraima foi transformada em estado, ela não conseguiu ser estado porque as terras estavam todas na mão do governo federal. E o governo federal precisa devolver para Roraima o que é de Roraima, que são as suas terras legalizadas, para que as pessoas possam virar cidadãs.

Aqueles companheiros que vocês viram subir aqui e pegar o título são companheiros que moram há 30 anos na terra, há 20 anos, há 15 anos, mas sem aquele documento que eles pegaram hoje eles não tinham sequer direito de entrar no Banco do Brasil e pedir um empréstimo de três contos de réis, ou de quatro contos. A partir de agora eles podem empinar o nariz e dizer: “eu, agora, sou brasileiro por completo porque tenho a minha propriedade e posso nela produzir e sobreviver à vontade”.

Meus companheiros e companheiras, eu queria terminar dizendo uma coisa para vocês, dizer uma coisa para vocês, porque para vocês são oito e meia e para mim já são nove e meia. Eu vou chegar em Brasília às 2h30 da manhã e já tenho reunião às 10h30 da manhã. Eu queria dizer uma coisa para vocês. Eu estou vendo ali um pessoal do turismólogo, eu nem sabia que chamava assim o pessoal que estuda turismo, que querem criar, querem ser reconhecidos, eu vi muitas faixas aqui. Eu só queria pedir uma coisa para vocês, de coração, não levem a mal o que eu vou dizer. Não me levem a mal. Vocês vejam, aqui está a imprensa de Roraima, que vocês conhecem todo dia, e aqui está a imprensa nacional. Então, eu queria dizer para vocês: eu não quero que vocês deixem de reivindicar o aumento de salário que vocês acham que têm direito. Sabe, sabe qual é a minha preocupação? É que o presidente da República vem a Roraima, a Boa Vista, traz consigo metade dos ministérios… A minha preocupação é que a imagem que a imprensa nacional vai contar não é nada do que nós fizemos aqui. Foi apenas a vaia que os professores praticaram aqui.

Não é…Eu estou dizendo para vocês com muita, com muita experiência, eu sei que muitas vezes as pessoas tentam fazer as coisas por bem, mas nem sempre quem bate a fotografia ou quem escreve a manchete está pensando de acordo com o que a gente está pensando.

De qualquer forma, eu quero dizer para vocês que eu tenho consciência que o Anchieta não é do meu partido e é de um partido adversário. Eu tenho consciência. Mas é preciso que vocês saibam que se um dia vocês chegarem à Presidência da República, vocês vão agir exatamente como eu. Não há possibilidade de o presidente da República não atender um prefeito, ou um governador, porque ele não pertence ao seu partido. Porque quando eu faço um acordo com o Anchieta, no fundo, no fundo esse acordo é para beneficiar o povo do estado de Roraima, e não o Anchieta ou um prefeito qualquer.

Então, eu queria, gente, dizer para vocês que eu estou muito alegre de ter vindo a Roraima. Vou voltar outras vezes, porque nós vamos ter mais obras para inaugurar. Eu espero que o prefeito me convide para inaugurar as obras, espero. Espero que o prefeito… Eu tirei uma fotografia com o prefeito, eu quero ver quem que a imprensa vai achar mais bonito, se eu ou o prefeito. É importante ver, porque eu acho que deste cabrinha aqui eu ganho. Tenho certeza que eu ganho.

Então, eu voltar aqui, eu já assumi o compromisso de, em abril, vir na festa dos povos indígenas, aqui, eu vou vir passar um dia com eles aí. Mas eu quero, sobretudo, vir inaugurar obra aqui no estado de Roraima e na Prefeitura de Boa Vista.

Queria dizer às pessoas que receberam o título e aos que ainda não receberam: ponham na cabeça que não existe nada deste presidente da República, do meu governo, contra qualquer pessoa que tenha propriedade de terra. O que nós queremos é que as pessoas que tenham a terra tenham o seu título, possam produzir adequadamente, possam ter financiamento, porque se não tiver produção, este estado também não vai para a frente. É importante que este estado evolua e evolua muito.

Quero agradecer, Governador, o tratamento carinhoso, a você, a sua esposa. Quero agradecer ao Prefeito, quero agradecer aos companheiros senadores e deputados e, sobretudo, eu quero agradecer, do fundo do coração, a todos vocês.

Um abraço e até a volta, se Deus quiser.

*Com informação de Luís Inácio Lula da Silva, Presidente da República Federativa do Brasil.

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