O épico e o estético da linguagem

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Juarez Duarte Bomfim.
Juarez Duarte Bomfim.

A jovem poetisa e escritora Liliane Neves nos brinda com esta jóia de crônica literária a seguir. Além de ótima literata Liliane é linda e encantadora mãe da nenê Clarissa.

No Oriente distante, lugar onde tradição, mistério e tecnologia andam de mãos dadas, sul coreanos cortam a língua para falar bem inglês. Assim estava escrita a noticia que lia numa manhã de quarta-feira nublada.

O café quente queimou a minha língua e enquanto eu pensava neste desatino, me veio à mente uma questão maior. Perguntava-me… Para que serve uma língua?

O gosto do adoçante ainda me aguçava o paladar quando descobri que sem ele, metade dos meus prazeres deixariam de existir. A questão não é só, reparem bem, sentir o gosto das comidas que todos os dias me alimentam, mas a experienciação que delas ocorre. Todas as vezes que sinto o aroma do café quentinho da manhã, inevitavelmente lembro-me da minha avó coando o pó do café no mesmo coador de pano que sempre usou. E apesar da sua ausência no “mundo dos vivos”, é nela que penso toda vez que o café quente me invade a boca, mesmo que hoje ele não saia de um pano gasto, mas de uma cafeteira preta.

Esta mesma língua lembra-me a infância, os episódios em que brincávamos de inventar dialetos e códigos e deles criar uma atmosfera de mistério sobre assuntos hoje banais, mas de extrema importância ao universo que os continham. Foi de uma criança como fui, tímida e observadora, que ouvi um trava línguas contemporâneo: Mulheres molham malhas molhadas. E apesar da redundância fiquei pensando se eu também não molhava malhas já molhadas e insistia em certos aspectos vãos, onde qualquer esforço é tão útil como jogar água em algo que já está encharcado.

Neste instante uma pessoa descobre que a língua também foi feita para beijar, e outra mais adiante se entrega pela primeira vez a este ato. Num apartamento, uma criança começa a silabar e em uma casa vermelha uma mulher profere mágoas ao seu companheiro. Tudo isto só acontece porque existe língua.

Ela é coadjuvante, talvez, se levarmos em conta as questões que comumente nos ocupam os dias. Mas quem há de negar que a sutileza protagoniza a natureza? Só pensamos na língua quando a mordemos ou quando somos capazes de, em meio a uma censura, olhar o órgão vibrando na boca e perceber que as palavras são signos lingüísticos que se perdem no ar, tudo o mais são valores que depositamos em suas asas e deixamos voar. Eis que vamos após.

Na Coréia do Sul corta-se o freio da língua para que seu falante melhor se adéqüe à linguagem da globalização. Um garoto de seis anos acaba de sair da cirurgia, tão logo voltará ao curso e receberá elogios dos professores pela melhora da sua performance. Mas naquele instante ele estava mudo. E aquela mudez, em primeiro lugar, era um estado físico. Ele estava bebendo a si. A própria coisa cortada sentia o azedume do sangue lhe encharcar a cavidade da boca. E ele, por ser também a língua, não pôde deixar de tecer este pensamento metafórico. A vontade de bem suceder aos pais foi o impulso criado para que visse com bons olhos a mutilação. Mas, naquele momento de mudez, entre as luzes brancas da sala pós-cirúrgica, não era nenhum valor herdado que lhe conferia a solidariedade com o modus operandi do seu tempo. A criança não estava aplicando seu entendimento numa aceitação. Sua mudez representava tão somente o resignio, não o de quem por força da vida vê-se obrigado a calar, mas o de quem fala pela mudez. E isto ele fazia involuntariamente.

Em segundo lugar, se a própria mudez dizia algo tão substancial, era porque uma ascese se punha em movimento. A criança ouvia dentro de si que certos valores não possuem nomes, mas nem por isto se confundem uns com os outros. Não era uma língua estrangeira que ele estava aprendendo a escutar, mas aquela mudez lhe trouxera a capacidade de ouvir um estranho observador que habitava dentro de si. Nem de longe sua profunda linguagem desvalorizava a língua que deveria aprimorar em breve. Há um grande engano sobre a atividade da comunicação e, se muitos conflitos nascem disto, outros grandes diálogos deixam de existir por ignorância dos entendimentos que se pode obter de um único enunciado. Mas naquela cabeça do menino mudo não havia espaço para tais desordens, ele havia feito a ligadura de um elo a muito esquecido. A fala não é um jogo de palavras estruturadas numa boa sintaxe e proferidas foneticamente bem, falar é, mesmo com uma língua travada, mesmo com outras palavras, ou então pelo silêncio que berrava naquela sala, chegar à belíssima conclusão de que o ato da fala é o que vale. E então entender que a sua língua presa denota para si um estado de singular grandeza, o resto são meros refinamentos cruéis.

O médico entrou para o check-up e tentou expressar naturalidade, mas acanhou-se de um modo que só a sua profissão permite-se acanhar, pois em verdade não sabia se aquele menino que ali se encontrava mudo, era o mesmo que anteriormente atendera. Achou que o menino estava dopado da anestesia, aquele médico de língua também cortada que sempre discursou em altas rodas internacionais, mas nunca se indagou a respeito da língua que usava para falar consigo quando, sozinho num quarto de hotel, fazia esforço para entender o real sentido de estar ali.

Pois que ao olhar-se no jornal o menino coreano sorriu pensando: Não cortaram minha língua, eu agora tenho duas.

¹ Liliane Neves é graduanda em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia.

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Sobre Juarez Duarte Bomfim 758 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: juarezbomfim@uol.com.br.