Férias na Índia | Por Juarez Duarte Bomfim

Juarez Duarte Bomfim.
Juarez Duarte Bomfim.

O quarto de hotel (cinco estrelas) que nos foi reservado era digno de marajás, devido à sua excelência.

Férias. Idílicas férias. O que antes era um privilégio dos nobres e burgueses, foi ampliado para a classe trabalhadora assalariada, entre outros, para este que vos escreve.

O desenvolvimento das redes de transporte, como o avião a jato, a expansão do crédito e um provável aumento de renda da classe trabalhadora, propiciou o incremento  de um tipo de turismo para assalariados.

É o tipo de turismo em grupo ou pacote turístico, que as agências de viagens oferecem a grupos de turistas “com tudo incluído”.

Compramos, eu e a minha senhora, um desses pacotes turísticos ainda no sul da Índia, e o voo de ida (Bangalore-Nova Delhi) já trouxe surpresas, pois voamos numa dessas empresas aéreas econômicas, que cobram pelo improvável lanchinho.

Improvável porque quando comunicamos à aeromoça (ainda se usa este termo? Aeromoça?) que desejávamos um “sanduba” (no linguajar paulistês da minha consorte), fomos informados que este – o “sanduba” – já havia terminado…

Tivemos que optar então por salgadinhos com pimenta, biscoitos com pimenta, pimenta, pimenta… Bem, sobre a apimentada culinária indiana escreverei mais adiante.

Na chegada a Delhi, fomos recepcionados ainda na esteira de retirada das bagagens, por um guia turístico que ao mesmo tempo era o dono da agência de viagens que contratamos, de nome Sanju, com ares de banqueiro de bicho carioca, devido à profusão de colares, pulseiras e anéis dourados que usava.

A figura, num precário portunhol, sabendo que se tratava de um grupo de turistas recém-saídos de um ashram (mosteiro) indiano, nos saudou com expressões de caráter religioso:

– Namastê!… Sai Ram!…

Ele não era convincente na sua sinceridade mística. Impressão ligeira, apenas, pois apesar do Sanju aparentar profissão de magarefe ou auxiliar de pedreiro, devido aos gestos e fala brusca, demonstrou ao longo daquela apressada semana, ser um zeloso guardião do indefeso grupo de brasileiros frente ao desconhecido.

Um providencial micro-ônibus (éramos em número de 23 turistas brasileiros) nos resgatou do inumano calor de 38 Graus da área externa do Aeroporto Internacional Indira Gandhi (Nova Delhi) e, após uma rápida e peculiar aventura pelo desordenado trânsito da capital indiana, chegamos a um luxuoso hotel cinco estrelas.

O quarto que nos foi reservado era digno de marajás, devido à sua excelência. Aparelho de televisão LCD 42 polegadas, eficiente e silencioso ar condicionado central, ducha para banho que desprendia verdadeira cortina d’água do céu (digo, teto).

Um quarto de hotel todo automatizado. A um leve apertar de botão era como que tudo ganhasse vida.

Ao deitarmos na cama, por exemplo, o toque em um simples botão lateral garantia um surpreendente desenrolar de perfumados cobertores, que saia do pé da cama e nos cobria até a altura do peito.

Ao acordar, no dia seguinte, frente ao límpido espelho de cristal do lavatório do banheiro – espelho muito amigo, pois nos emagrecia uns três quilinhos – ao breve tocar de um botão à direita um braço mecânico embutido se desprendia da parede e pronto entregava-nos uma escova de dente, já com a pasta sobre as cerdas!

Serviço para os clientes destros. Pois para os canhotos o botão localizava-se à esquerda do espelho.

Todavia, o mais inconcebível e estranho, que provocou protestos por parte dos usuários, foi o tecnológico vaso sanitário. Após o seu uso, ao apertar o botão de descarga, uma prestativa mãozinha mecânica surgia por trás do indefeso e desnudo usuário para fazer o asseio glúteo do freguês…

Ouvíamos gritos e protestos indignados dos clientes dos quartos ao lado, em diversas línguas, quando eram incomodados por prestativa mãozinha, reclamando da infeliz surpresa.

Um exasperado espanhol bradava:

– “Hombre, que pasa, deja mi culo!…”

Os diversos sotaques e expressões regionais brasileiras denunciavam as vítimas do informático desatino de modernoso hotel:

– Oxe, deixa disso, sou muito homi seu cabra safado!…

– Orra meu!… Pára com isso…

– Tchê, que barbaridade…

Bem, após o susto inicial, todos desceram prontos para o inusitado café da manhã.

… Continuamos depois…

Juarez Duarte Bomfim
Sobre Juarez Duarte Bomfim 740 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]