Canção da Saudade | Por Luiz Carlos Amorim

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A saudade era imensa. Quando via ou ouvia alguma coisa bela, uma flor, muita cor, luz, sorrisos, um animal, pássaros, árvores, natureza, música, risos, choro de criança, lembrava dele. Seu pai se fora há tanto tempo, mas a saudade era imensa: ele fazia muita falta.

Aquela teimosia em querer as coisas da maneira certa e esperar que os outros também fossem corretos, por exemplo, era coisa dele. Ele se decepcionava com a falta de responsabilidade e de bom senso das pessoas, mas não mudava a sua maneira de ser.

Herdou dele a honestidade e a retidão. Não herdou aquele riso alto e bobo, a achar graça de algumas coisas corriqueiras e engraçadas que as outras pessoas nem percebiam. Ah, aquele riso feliz… Aqueles olhos que viam beleza onde os nossos olhos não alcançavam…

Ele ensinou isso a ela: a olhar e ver. Ensinou-a a valorizar o sorriso raro e desgastado de quem ainda tinha forças para sorrir, a se compadecer e ajudar um pobre animal velho e abandonado, a apreciar as cores e descobrir a beleza das flores mais comuns. Ensinou-a a ouvir e a gostar de música clássica, assim como das cantigas singelas que cantava com ela na infância, do som de água de uma cascata de águas limpas e claras, do som harmonioso de uma flauta doce, do canto de pássaros livres na natureza, no amanhecer. Ensinou-a a gostar de ler, a reconhecer nos livros, muitos deles, fontes de descobrimento e conhecimento. Ensinou-a a ter fé numa força superior que rege nossos destinos e nossa esperança e força para caminhar rumo ao futuro.

Aquelas mãos rudes que seguraram tantas vezes as suas, com carinho e ternura, deveriam continuar presentes. Aquela voz serena, que sabia ser dura, quando era preciso, lhe ensinara muitas verdades, mesmo quando já soava fraca e cansada.

A vida era mais fácil quando havia seu ombro e seu peito para encostar a cabeça e chorar, até, se fosse inevitável. Hoje, ela apenas pede a ele que venha sentar-se à soleira de seu coração para lhe contar uma história qualquer, com aquela voz serena e grave, num sonho bom e feliz. Sonho bom em que ele, pai, encostaria a cabeça num pedacinho da alma dela e lhe cantaria uma canção de ninar, sonora e melodiosa. Depois, pediria a ele, antes que o sonho terminasse, que lhe dissesse um poema de amor, um daqueles que ninguém mais sabe e só ele poderia lhe dizer…

Então acordaria, feliz, ainda que a saudade perdurasse, e sorriria como ele gostava que sorrisse.

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