As vacas sagradas da Índia

Juarez Duarte Bomfim.
Juarez Duarte Bomfim.

Não surpreende que parte da numerosa população da Índia seja vegetariana, e mesmo os hindus comedores de carne dela se abstenham em dias santos.

Índia. Adorável e estranha Índia. Dos grandes templos e palácios. Dos intrigantes deuses zoomorfos. De povo pacífico e ordeiro. Das surpreendentes sagradas vacas.

Elas estão por toda a parte. Nas autopistas do caótico trânsito, no centro das grandes metrópoles, nos lugares mais improváveis. São as vacas sagradas da Índia.

No Rajastão, um dos estados mais característicos da Índia, elas competem no cenário urbano com uma profusão de Tuck Tucks, (triciclo mototaxi), velhos ônibus, caminhões, automóveis TATA, elefantes, macacos, riquixás (charretes puxada a bicicleta), carroças de camelo, burros e… ah gente, milhares de transeuntes, vendedores ambulantes, mendigos…

Um turista brasileiro comparou as plácidas e passeantes vacas indianas aos cães vira-latas brasileiros, pois estão em toda parte. Não, a comparação é imprecisa, pois enquanto os cães vira-latas brasileiros são geralmente maltratados e escorraçados pela rude plebe, as vacas sagradas são muito benquistas e zeladas pelos hindus.

É freqüente nas portas dos estabelecimentos comerciais sempre estar disponível um recipiente com água para as sagradas vacas saciarem a sua sede; barraqueiros de horti-fruti e os habitantes das cidades as alimentam e, na falta destes, há sempre o lixo urbano a que recorrer.

Inevitável a pergunta: por que as vacas são sagradas na Índia?

Estima-se uma população bovina de 250 milhões de cabeças, que são veneradas por 750 milhões de hindus. Argumenta-se que a vaca fornece tudo que o ser humano necessita para o seu sustento (“do boi nem o berro se perde”, lembram?), especialmente o precioso leite.

A veneração à vaca está relacionada aos antigos cultos da fertilidade. O pastoral povo de Bharata (Índia) depende da vaca para todo tipo de produtos lácteos, aragem dos campos e os seus dejetos são matéria-prima para fertilizantes.

Outras utilidades para o excremento bovino: é inseticida, medicamento para enfermidades, usada na construção civil e mais. Ritualisticamente, monges ingerem fezes e urinas de gado vacum pelo menos uma vez ao ano.

A vaca tem status de ser uma “cuidadora” espontânea da humanidade, ao ponto de ser identificada como uma figura quase maternal.

O Deus Krishna é ao mesmo tempo Govinda (pastor de vacas) e Gopala (protetor das vacas), e o ajudante de Shiva é Nandi, o touro.

Sendo assim, não surpreende que parte da numerosa população da Índia seja vegetariana, e mesmo os hindus comedores de carne (frango, cabra, cordeiro) dela se abstenham em dias santos.

Nos ashrams (mosteiros) é terminantemente proibido o consumo de carne – assim como nas cidades sagradas – e existem projetos de lei tramitando no parlamento indiano banindo a matança de vacas em todo o território nacional.

Cabe lembrar que as minorias religiosas (cristãos, mulçumanos etc) não dispensam um filezinho. Todavia, não encontrei em toda a Índia restaurante com o provocativo nome de “Churrascaria Vaca Sagrada”…

Existem boas alternativas à carne bovina: este que vos escreve degustou saborosos hambúrgueres de vegetais nos inúmeros fast –foods(lanchonetes) das cidades indianas que visitou. Que tal?

Sobre Juarez Duarte Bomfim 741 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]