Apresentados ao pecado na sagrada cidade de Rishikesh

Juarez Duarte Bomfim.
Juarez Duarte Bomfim.
Apresentados ao pecado na sagrada cidade de Rishikesh.Apresentados ao pecado na sagrada cidade de Rishikesh.
Apresentados ao pecado na sagrada cidade de Rishikesh.

A visão de uma bela mulher ocidental, com o corpo à mostra, era motivo de observação minuciosa pelos jovens rapazes indianos. Mas não transmitiam no semblante olhar de lubricidade. Recordavam sim o primeiro homem, Adão, curioso e atônito por conhecer o que existia por baixo da folha de parreira da tentadora Eva. (Obs.: esta é uma crônica literária, qualquer semelhança com pessoas ou situações existentes é mera coincidência).

Da Praia de Pajussara ao banho no Rio Ganges, provocando grande furor. Esta foi a façanha da formosa alagoana Lindaura Maria, compartilhada involuntariamente por todos os brasileiros daquela excursão à cidade sagrada de Rishikeshi, norte da Índia.

A exuberância de tão vistosa manceba lhe proporcionava o poder de escolha. E ela fixou o olhar, qual rija flecha, no mais garboso dos mancebos do grupo. Era o jovem rapagão Tadeu Romeu. Belo, alto, loiro, rico, bem empregado, paulistano morador da zona nobre, o genro que mamãe pediu a Deus.

O apolíneo Tadeu Romeu, que mais se assemelhava a um astro de Bollywood (a poderosa indústria cinematográfica indiana) caminhando garbosamente pelos espetaculares monumentos indianos, como o Taj Mahal, rompia o milenar recato das mulheres indianas, que lhe dirigiam furtivos olhares, apesar da rígida vigilância de pais, maridos e irmãos.

Todavia, era preciso fisgar promissor mancebo. A começar pela indumentária. E a Lindaura Maria desfilava suas sinuosas curvas e generosos decotes pelas margens do sagrado Rio Ganges, arrastando atrás de si uma multidão.

Uma multidão composta de jovens rapazes, quase meninos, peregrinos religiosos ao Ganges. Andavam em bandos e passavam o dia pra lá e pra cá, andando de um lado a outro, em busca de entretenimento. Matavam o tempo em brincadeiras pueris e banhos de imersão nas águas geladas do Ganges.

A visão de uma bela mulher ocidental, com o corpo à mostra, era motivo de observação minuciosa. Se reuniam em volta da gostosa do grupo, ops, digo da formosa do grupo como enxame de abelhas em torno da taça de mel.

Mas não transmitiam no semblante olhar de lubricidade, concupiscência ou lascívia, como é mister em locais de turismo sexual como Bahia e Cuba. Não olhavam para a formosa Lindaura Maria com expressão de cobiça luxuriosa…

Recordavam sim o primeiro homem, Adão, curioso e atônito por conhecer o que existia por baixo da folha de parreira da tentadora Eva, a responsável pela queda do homem.

Dessa maneira, pela voluptuosidade da bela Lindaura, aqueles jovens e ingênuos peregrinos indianos eram apresentados ao pecado da carne, da luxúria, que não os libertaria de samsara (ciclos reencarnatórios).

Pois é, o doce veneno das Alagoas, Lindaura Maria, no afã de seduzir um único homem do planeta, acabara de apaixonar (quase) 700 milhões de indianos…

Entretanto, aquela curiosa turba admirando, observando a esplêndida Lindaura não transmitia ameaça – a princípio. O ordeiro e não violento povo indiano surpreende pelo seu pacifismo. Inclusive nos divertíamos com a insólita situação:

– Lindaura Maria, você se elegeria facilmente Miss Rishikeshi 2009!

Porém, a cada vez mais numerosa platéia ali reunida, que continuava a aumentar, passou a preocupar a todos. Inclusive as autoridades policiais, que dispersavam a turba ignara.

Agressão por parte daqueles pacíficos rapazes não houve. Todavia, o limite para a continuidade daquela excepcional situação foi quando um pequeno grupo deles se adiantou e pediu para a garbosa Lindaura posar para uma fotografia, após sair gloriosa do purificador banho no Ganges. Talvez a busca da comprovação, na volta para suas vilas, de que existem sim mulheres dadivosas como aquela.

A recusa da tentadora alagoana em posar para os quase meninos os forçou a tentar tocá-la, a posicionando para o foco da máquina. Erigido em cavalheiro defensor da integridade da manceba, Tadeu Romeu a retirou do constrangedor cenário a empurrando levemente para um dos inúmeros templos existentes ali, às margens do Ganges.

Os guias turísticos da excursão, capitaneados pelo indefectível Sanju, se erigiram a partir de então em escolta pessoal da tentadora turista, que revolucionara a cidade sagrada de Rishikeshi.

Sobre Juarez Duarte Bomfim 741 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]