Ser feliz ou ter razão na escolha de um comportamento ético? | Por Ivandilson Miranda Silva

Escolha difícil essa, não é? Estou num verdadeiro “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

Mas vamos tentar fazer essa reflexão juntos, ponderando sobre os paradoxos e aproximações entre esses conceitos.

Vivemos um momento histórico de muitas mudanças que para alguns intelectuais caracterizam a transição entre o moderno e o pós-moderno. Saímos de um mundo hierarquizado, estruturado lógica e ideologicamente, onde a ciência, o Estado e a religião fixavam a verdade e dividiam a existência humana em certo e errado, evolução e criação, esquerda e direita, capitalismo e socialismo, razão e emoção.

O que tudo isso tem haver com a nossa discussão? Muita coisa, mas muita coisa mesmo! SER e TER, RAZÃO e FELICIDADE (EMOÇÃO) são questões que fragmentavam e separavam as pessoas no passado, pois elas tinham que optar entre uma coisa ou outra. Escolher ser feliz era renunciar a razão (pelo menos na perspectiva de racionalidade da época), as histórias de amor desse período deixa claro essa questão. Ela rica e ele pobre sofriam pressões de todos os lados porque era irracional aquela união por conta da diferença, de nível econômico, social, cultural. Os escritores românticos adoravam construir suas obras com essa dualidade entre a pobreza e a riqueza, a razão e a emoção, o ter e o ser. Esse era o modelo medieval de amor que tinha em Tristão e Isolda e Romeu e Julieta suas principais referências.

Atualmente, as histórias de amor tendem a durar menos. São poucos os casais que querem o amor “até que a morte os separe”. Isso já é conseqüência dos efeitos do espírito de nosso tempo, conduzido pela velocidade, impaciência e muita ocupação. O tempo está engolindo o tempo.

Ainda sobre a discussão entre a razão e emoção, homens e mulheres eram esquematizados dentro dessas categorias. O homem representava a força, a lógica, a frieza, a dureza, o poder, a racionalidade, a mulher representava o afeto, a sensibilidade, a flexibilidade, a criatividade, a emoção. A guerra dos sexos estava posta. Homem não deve chorar porque é sinal de fraqueza, mulher não pode comandar porque não tem firmeza nas decisões. Impressionante como esses valores ainda estão nos corações e mentes masculinos e femininos da nossa sociedade. Afinal de contas são mais de dois mil anos de história, juntando a idade antiga, média, moderna e parte da contemporânea até a segunda metade do século XX.

Essas escolhas e paradoxos faziam parte da construção da identidade, sedimentava valores, modelava o ETHOS moderno. E hoje, esses problemas acabaram? Ainda estamos vivendo e existindo sob a influência da dualidade?Pois é! Esse é o grande dilema do nosso tempo. São tantas as mudanças que não há como apresentar, discutir, polemizar tudo, mas algumas podem ser provocadas nesse instante.

Para mim, o mundo não é mais dual, maniqueísta, isso ou aquilo, certo ou errado. O mundo é plural, há vários olhares e os antagonismos do passado, agora caminham juntos, quer queiramos ou não.

A possibilidade de construção da realidade a partir das várias perspectivas de vida é que pode conduzir essa sociedade para um outro caminho menos autoritário e dogmático. Ainda estamos nos entendendo com o novo tempo e muita coisa está fragmentada e necessita a nossa crítica, pois não podemos derrubar um paradigma e negligenciar a nossa participação na construção de outros caminhos.

Então, contribuindo com o debate e tentando responder a provocação: Ser feliz ou ter razão na escolha de um comportamento ético? Respondo que a felicidade (emoção) é a principal questão da existência humana (sei que existem os niilistas, os seguidores da angústia.), sem ela a vida fica vazia, sem graça e quem nega essa vontade de ser feliz pode se considerar um morto-vivo. A razão ou ter razão é algo de fundamental importância para todos, a partir dessa conquista os seres humanos criaram a filosofia, a ciência, a política, a arte ganha movimentos e fundamentação teórica. Sabemos que a racionalidade ou o modelo de razão da modernidade produziu guerras, racismos e separações entre as pessoas. Essa era a razão instrumental bem caracterizada e criticada pela escola de Frankfurt que por ironia nasce e se desenvolve na Alemanha. Mas a razão é válida e não podemos abrir mão dela.

Sobre o comportamento ético devemos consolidar uma conduta verdadeiramente humana, pois considero ética como aquilo que não causa nenhum dano a mim, nem aos outros, ética é a boa convivência, e é ela quem vai orientar a nossa prática diária na sociedade.

 Respondo a questão invertendo a lógica da pergunta. Posso ser feliz e ter razão, pois possuo as duas características e não vou ficar dividido entre uma coisa e outra. Eu sou inteiro e dentro de mim há razões e emoções, sou resultado dessa diferença e dessa aproximação. Se sou razão e emoção, as escolhas que faço vão dialogar com a minha necessidade de ser feliz e de conviver bem com as pessoas. Se faço isso, sou ético, não prejudico os outros, respeito as opiniões religiosas, políticas, morais e vivo dentro de uma pluralidade de atitudes, olhares e conceitos.

Portanto, não há contradição entre ser feliz e ter razão, pois a ideia de felicidade é criação da própria razão, do homo sapiens. Quero ser feliz porque penso no prazer, na vontade de encontrar alguém, na satisfação de ser reconhecido profissionalmente e tudo isso é o que nos identifica e nos diferencia das outras pessoas e nos torna humanos, demasiadamente humanos.

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