Minha gripe suína só existe na mídia

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Estou com gripe. Apesar da intensa e apocalítica cobertura que a mídia tem feito desde abril deste ano, não tenho a menor ideia de como distinguir se sofro da influenza A-H1N1 (gripe suína) ou de uma simples gripe sazonal. Claro, poderia ir ao médico. Mas aqui, sentado no meu apartamento, rodeado de lenços umedecidos e remédios, como posso encontrar uma informação útil em meio a tantas manchetes exageradas?

Considerada uma pandemia “imparável” pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a gripe suína já infectou 98 mil pessoas e matou 440. Desde que o vírus surgiu e em pouco tempo se converteu em pandemia, a primeira epidemia mundial em 41 anos, o pânico se multiplicou entre os habitantes deste vulnerável planeta através dos meios de comunicação tradicionais, da blogosfera e das redes sociais como o Facebook e o Twitter. Nas ruas e aeroportos, as pessoas começaram a exibir a nova moda 2009: uma máscara que lembra os filmes apocalíticos de Hollywood. Logo, a mídia foi acusada de causar pânico desnecessário e desinformar.

Tudo isso teve consequências na vida cotidiana. Para os especialistas do jornalPágina 12, “na dimensão social se instalou o medo do outro, de tudo que se encontra próximo, de quem chega muito perto… aquele que se prepara para espirrar, para pegar um lenço ou pigarrear para consertar a voz provoca um conjunto de olhares de reprovação”.

No entanto, ao mesmo tempo, os meios de comunicação divulgam que a gripe suína está castigando o hemisfério sul em pleno inverno. No Peru, os casos de A-H1N1 continuam aumentando. Na Argentina, a situação não parece ter freio (mas só foi divulgada depois das eleições legislativas). No Brasil, 1.175 casos da doença foram notificados até agora (o que provavelmente não corresponde ao número real de infectados).

Então, reproduzo na web os sintomas: febre repentina, tosse, dor de cabeça, dores musculares, dores nas articulações e coriza. De acordo com eles, não há dúvidas: estou infectado. Se bem que tenho os mesmos sintomas de quando pego, uma vez por ano, a gripe comum.

Enquanto os médicos peruanos protestam para exigir do governo uma melhor prevenção contra a gripe e há no país uma onda de doenças respiratórias, escuto no rádio que os hospitais de Lima estão lotados de gente (como eu?) com gripe e quer saber se é a suína. Decidi não ir ao médico. No caso de eu não ter contraído o vírus A-H1N1, na sala de espera do pronto-socorro seria contagiado de qualquer forma.

O que fazer, então?

Segundo a BBC, a gripe suína tem atingido alguns setores da economia, mas está trazendo lucros a áreas inimagináveis, como as locadoras de vídeo, o estacionamento dos carros daqueles que ficam em casa e, sobretudo, os negócios virtuais e a vida na rede: observa-se um grande aumento nas transações online, foram criados novos programas de educação à distância na internet, e existem até mesmo blogueiros com a doença que se dedicam a contar sua experiência.

Por aqui, sigo trancado no meu apartamento. Já li cerca de 30 artigos sobre a gripe suína. Não sei se a tenho. Acho que todo ano que visito Lima pego um resfriado. Tudo começa com as alergias, que se manifestam em minha cidade natal desde eu era pequeno. Logo, elas passam a ser uma gripe. Passo três dias doente. Me recupero depois de tomar uns três copos de pisco puro (algo como a cachaça brasileira). E me sento outra vez para ver TV, ler jornal e meu RSS. Nos portais, sempre há casos de alguém que morre. E, em duas semanas, estarei em Buenos Aires.

 *Com informação de Knight Center.

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