Escritora alemã comenta experiência no Brasil e critica culto dos brasileiros ao corpo

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Julia Franck se diz encantada com as paisagens e o povo do Brasil, mas critica difusão da cirurgia plástica e culto excessivo ao corpo no país. Em março, a escritora lançará coletânea de memórias sobre o Muro de Berlim.

Em comemoração aos 20 anos da queda do Muro de Berlim, a escritora alemã Julia Franck organizou um livro que reúne memórias de escritores do leste e do oeste do país sobre a Alemanha dividida. O volume será lançado em março com o título Grenzübergänge(Passagens de Fronteira). Para Franck, é essencial que o livro traga depoimentos de ambas as partes, pois, antes da reunificação, ” era comum ignorar, hostilizar ou ter pena da República Democrática Alemã (RDA)”.

Nascida na antiga Berlim Oriental em 1970, Franck também teve diferentes experiências com os dois lados da fronteira. Em 1978, fugiu com a família para o oeste, onde passou pelo campo de refugiados de Marienfelde. Depois mudou-se para Schleswig-Holstein, no norte do país. Em 1983, voltou para Berlim, onde estudou Letras (Alemão), Filosofia e História das Civilizações Pré-Colombianas.

Embora já tenha seis livros publicados, somente A Mulher do Meio-Dia (Die Mittagsfrau) foi lançado no Brasil. Meses antes do lançamento em 2008, a escritora esteve em São Paulo e no Rio de Janeiro para divulgá-lo. Depois da viagem, publicou no semanário alemão Die Zeit a crônica Botox für die Seele (Botox para a Alma), que conta a história de uma alemã que vai ao Brasil para se tratar com um analista.

Deutsche Welle: Em março, será publicado seu novo livro, que recebeu o título Grenzübergänge (Passagens da Fronteira). Nele, você reuniu escritores do leste e do oeste da Alemanha para escrever sobre suas memórias sobre o Muro de Berlim. O que a levou a esta ideia? Por que esses relatos se baseiam especificamente em experiências pessoais?

Julia Franck: O ponto de partida foi minha própria experiência com a fronteira alemã, que tive quando criança com a minha família, primeiro durante a emigração, depois num campo de refugiados e, mais tarde, em visitas à antiga Alemanha Oriental.

Mas, para mim, foi muito importante incluir autores da ex-Alemanha Ocidental em um livro como este. Pois lá, antes da queda do Muro, era comum ignorar, hostilizar ou ter pena da República Democrática Alemã (RDA). Também estas vozes – essa visão bem diferente da outra Alemanha, que acabou transformando o cruzamento da fronteira numa experiência específica de origem – me interessa. No entanto, disse claramente em meu convite que histórias fictícias e “memórias” inventadas são tão bem-vindas quanto as reais.

Principalmente na Europa, tem-se atualmente a impressão de se viver num mundo onde as fronteiras supostamente desaparecem. Você concorda com isso ou acredita que novas fronteiras sempre serão criadas?

É verdade que, com a União Europeia e a moeda comum, muitas fronteiras tornaram-se mais sutis. Mas talvez as fronteiras hoje corram mais claramente dentro de cada sociedade, entre pobres e ricos, instruídos e não instruídos, religiosos e laicos. Acho que também na Europa ainda há grandes diferenças, só que elas não são mais definidas por países e muros.

Você acredita que ainda há diferenças entre o leste e o oeste da Alemanha? O Muro ainda é perceptível? Muitos alemães disseram que o queriam de volta. O que você acha disso?

Claro que quem viveu a queda do Muro e teve diversas outras experiências marcantes nesse sentido tem uma sensibilidade maior para esse tema – ainda mais quando se vive em uma cidade na qual aluguéis, salários, estruturas familiares etc.continuam marcados pelas diferenças.

Mas o processo de reunificação não para. O que não significa que a política alemã não mereça ser criticada. Toda democracia está exposta à crítica, assim como à influência da maioria dos cidadãos e eleitores. Isso nem sempre é bom, mas é melhor que qualquer ditadura.

De maneira alguma gostaria de ter o Muro de volta. Pelo contrário. Desejos como esse são, antes, sinais de uma infantilidade conscientemente provocativa ou verdadeiramente ingênua.

O seu livro A Mulher do Meio-Dia foi publicado no Brasil em 2008 e você esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo para lançá-lo. Quais foram suas impressões sobre estas cidades?

A beleza das paisagens do alto do Pão de Açúcar me comoveu. Parecia que estava em uma cápsula espacial, com o oceano azul e tranquilo, as formas das ilhas e baías. Aquilo é muito mais bonito do que qualquer obra de arte. O gosto do açaí, a beleza e a naturalidade do movimento do corpo dos brasileiros, a música, a receptividade das pessoas, tudo isso me agradou muito.

Ao mesmo tempo, as grades de segurança me impressionaram, em todo o bairro de Ipanema e ao redor das melhores casas de São Paulo e do Rio. Muitas câmeras, carros protegidos, funcionários com coletes à prova de bala. O abismo dramático entre ricos e  pobres também me abalou, não só quando se vê uma mansão de luxo e uma favela, mas pensei nisso várias vezes depois. Espontaneamente, até pensei que os altos impostos na Alemanha fazem muito sentido. Acho até que poderiam ser mais altos.

Julia Franck fala do livro A Mulher do Meio-Dia, do culto dos brasileiros ao corpo e do papel da mulher na literatura. Clique para continuar lendo.

O romance A Mulher do Meio-Dia lhe rendeu o Prêmio Alemão do Livro em 2007. Ele conta a história de uma mãe que abandonou o filho em uma estação de trem e se baseia num acontecimento real. Por que você decidiu escrever sobre este tema? Pode-se dizer que a história é verdadeira ou é uma mistura entre ficção e realidade?

O núcleo é verdade: meu pai era menino quando foi abandonado pela mãe numa estação de trem em 1945. Guerras longas desmoralizam as pessoas e desintegram as estruturas familiares. Mas toda a história criada em torno disso é inventada. Não representei ninguém que conheço no livro, mas, como em todo bom romance, o núcleo verdadeiro possibilita uma identificação parcial.

Os sentimentos de uma jovem mulher que sai pela vida na esperança de poder estudar e definir seu próprio rumo, mas que é humilhada e violentada diversas vezes e, devido à situação política, é obrigada a se casar sem amor e ter um filho contra a sua vontade exige do leitor empatia. Certamente não é um livro para ler e relaxar.

É a história de uma mulher que, em seus anos de juventude, é extremamente talentosa e inteligente. Nos dias de hoje, ela provavelmente teria uma bolsa para estudar em Harvard. Mas, naquela época, não tinha qualquer perspectiva de educação e autodeterminação. Gênero e origem – tanto sua classe social quanto as implicações de sua origem judaica – prejudicam sua dignidade, sua essência e sua identidade.

No semanário Die Zeit, você publicou a crônica Botox für die Seele (Botox para a Alma). A história fala de uma alemã que vai ao Brasil à procura de alguém que a escute e de uma cura para seu sofrimento psicológico. Você sentiu isso no Brasil?

Quando falo de beleza, não falo somente da beleza natural. Existe uma obrigação em ser bonito, o que leva a certos equívocos. Por exemplo, cirurgias de beleza são amplamente difundidas no Brasil. Se alguém tem seios muito grandes, lábios muito finos ou o tamanho errado de bunda, a culpa é dele mesmo. Ou então é pobre demais, pois os brasileiros arrumam tudo assim que tiverem um trocado para isso.

As inibições para se sujeitar a intervenções cirúrgicas no corpo a fim se autodefinir são muito menores no Brasil do que na Europa e certos ideais de beleza do momento são seguidos muito mais rapidamente. Mas a alma não se deixa mudar, curar ou embelezar tão facilmente.

Como soube de amigos brasileiros, há, além do turismo sexual, um grande boom de turistas europeus e americanos que vão ao Brasil em busca de análise, pois os analistas brasileiros são conhecidos por serem especialmente bons e discretos.

Em algumas de suas histórias, o caráter e as relações entre os personagens são muito calorosos e sensuais. Sobre sensualidade na literatura: você acha que a nacionalidade e a cultura de um autor se refletem em sua obra? Você se vê como uma escritora de literatura sensual?

É difícil imaginar que a cultura e a origem de um autor não se reflitam em sua obra. Até na literatura fantástica isso fica claro. A ideia de ficção científica de Stanislav Lem, por exemplo, não poderia vir de um católico devoto e crente do século 19. Da mesma forma como o autor do Dom Casmurro não poderia ser um comunista russo, um judeu polonês ou um cientista natural da nossa década. Não só o estilo literário, também o espaço de criação é marcado pela cultura.

Pode ser que, em meus livros, a associação entre sensualidade, calor humano e frieza chame a atenção. A decadência das relações humanas, a perda e a saudade do romantismo, das estruturas burguesas e dos antigos papéis de gênero são certamente um tema atual das sociedades europeias ocidentais e de suas literatura. Já no Egito, a literatura vem sendo crescentemente marcada por temas religiosos.

Nós temos que lidar com as mudanças rasantes de nossa sociedade e de seus indivíduos. O amor hoje é algo diferente do que foi há 200 anos. Do ponto de vista moral, seria impensável que uma mulher escrevesse, 50 anos atrás, sobre corpo, sensualidade, atração e rejeição. Da mesma maneira, um romance com uma heroína –  se não fosse um experimento como em [Virginia] Woolf – só era pensável como um panfleto emancipatório com bons conselhos e final feliz.

Temos ainda alguns tabus e preconceitos infundados na nossa sociedade, embora os jovens já tenham superado algumas destas questões. Em relação às mulheres, sua posição e sua liberdade de expressão na literatura: em algum momento você se sentiu discriminada por ser uma escritora de histórias sensuais?

Não por causa do “sensual”, mas porque as pessoas já torcem o nariz quando uma mulher ousa se pronunciar em público. Romances continuam sendo lidos principalmente por mulheres, enquanto homens demonstram pouco interesse pela literatura. Eles alegam frequentemente que não têm tempo para isso, talvez porque preferem ver televisão e escutar música.

Não existe nenhum direito à percepção ou apreciação de uma obra por homens, nem é possível garantir um certo público através de cotas de gênero. Isso seria estúpido. De forma que não é uma discriminação proposital.

Mas falemos em mecanismos. Livros escritos por mulheres são frequentemente taxados de “literatura feminina” e assim marginalizados em um estilo aquém da “alta literatura”, principalmente se tiverem uma protagonista feminina. Homens, no entanto, nunca escrevem “literatura masculina”, mesmo que seus heróis masculinos quase sempre saiam à caça de jovens estudantes.

#b#Nem nas ciências naturais, nem na medicina, nem entre atores e músicos a dominância de gênero é tão acentuada quanto nas esferas intelectuais, na literatura e filosofia, assim como na direção de ópera e de teatro. Nosso discurso estético e filosófico se encontra nas mãos de homens.

Claro que já senti ressentimentos contra meu gênero em críticas literárias, contra a ousadia de querer escrever literatura como mulher. A perversa e polêmica visão sobre a mulher no mundo literário tem tradição, ela atingiu Ingeborg Bachmann há 50 anos e atinge A.L. Kennedy nos dias de hoje.

Na nossa sociedade, uma mulher não tem que pensar. Existem exceções para a estima de mulheres na literatura, mas critérios externos devem permanecer: a lésbica judia sem filhos, a poetisa do Casaquistão que passou dois anos na prisão – mulheres que obviamente fazem parte de uma minoria desfavorecida.

Mas não são somente os homens que ridicularizam as mulheres. Também as mulheres atacam rispidamente outras mulheres quando elas ousam demais.

 *Com informação de Deutsche Welle.

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