Em coletiva Lula declara: não me agrada mais uma base americana na Colômbia

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Entrevista coletiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva após encerramento do seminário empresarial Brasil-Chile São Paulo-SP, 30 de julho de 2009.

Apresentador: Boa tarde, meus amigos, para a entrevista coletiva. Serão duas perguntas da imprensa chilena e duas perguntas da imprensa brasileira. Começamos com Simón Oliveros, CNN Chile.

Presidente: Bem, com relação à recondução do Secretário-Geral da OEA, o Brasil já se definiu publicamente em apoio ao companheiro Insulza, que estará lá dignamente representando toda a OEA e, sobretudo, com o compromisso de ser chileno e merecer de nós um carinho especial.

Agora, com relação ao Hernández, nós temos diferenças jurídicas entre os dois países e já há uma decisão da Suprema Corte Brasileira. Agora, a decisão dessa Suprema Corte é incompatível com a decisão da penalidade que ele sofreu no Chile, porque no Brasil o número maior de tempo que as pessoas podem ficar em uma cadeia é de 30 anos.

Eu espero que, não apenas entre os nossos diplomatas, mas, sobretudo os nossos ministros da Justiça, possam se colocar de acordo para que a gente possa atender ao interesse do Chile, que quer de volta o seu compatriota para cumprir a pena lá. Se isso for possível, porque a legislação brasileira… para extraditar, ele teria que cumprir apenas a pena que ele está condenado no Brasil. Ele não poderia cumprir a totalidade da pena que tem no Chile. Se isso for resolvido, teria imenso prazer, até porque o preso já demonstrou interesse de cumprir a pena no Chile.

Apresentador: Segunda pergunta, Clarissa Oliveira, O Estado de S. Paulo.

Jornalista: Boa tarde. Presidente, eu gostaria de começar perguntando para o senhor… Na semana passada, o senhor disse que havia uma necessidade de uma providência nessa crise do Senado. Há uma expectativa de que talvez o senhor converse com representantes do partido, com o presidente José Sarney. Queria que o senhor fizesse um pouco uma avaliação sobre esse quadro e o que pode ser feito para melhorar esse problema.

E eu gostaria de aproveitar para perguntar para os dois. Hoje de manhã a ministra Dilma tomou um café com a presidente Bachelet e elas conversaram sobre, inclusive, como é ser uma presidente mulher. E eu queria saber se vocês acham que a Presidente é uma boa inspiração para a ministra Dilma, para 2010.

Presidente: Olha, primeiro deixe-me dizer uma coisa para você. Eu não vou fazer comentário sobre a conversa da Dilma com a Michelle Bachelet porque homem não se mete em conversa de mulher. Com relação à segunda parte da pergunta, eu posso te dizer que a nossa companheira Michelle pode servir de exemplo em muitas coisas para as mulheres do mundo inteiro, na questão do caráter, na firmeza ideológica, na competência e na companheira de confiança que ela tem sido para toda a América do Sul e o comportamento dela de muita sobriedade, seriedade e, eu diria, com muita altivez. Portanto, acho que ela serve de exemplo até para outros homens, não apenas para as mulheres.

Com relação à crise do Senado. Olha, o que eu posso dizer para vocês? No Brasil, o Senado e a Câmara têm autonomia com relação ao Congresso Nacional… ao Poder Executivo. Na verdade, é o Poder Executivo que depende muito das ações do Senado e não o Senado das ações do Poder Executivo. Então, o que eu espero? Todo mundo sabe que a paralisia do Legislativo pode criar problemas para o País, projetos importantes podem ser retardados. Tudo o que eu espero é que o Congresso agora, com a cabeça fria, dez dias de férias para todo mundo, cada um foi viajar, descansar, é que o Congresso volte, se reúna, como homens adultos que são, todos com mais de 35 anos de idade, e decidam normalizar a atuação do Senado. Mais do que isso eu não posso pedir nem para o Senado, nem para a Câmara, nem para o Poder Judiciário, porque eles são poderes autônomos.

Mas eu estou convencido de que as pessoas têm compreensão do momento que o Brasil vive, de que tem medidas que nós mandamos para poder combater a crise econômica que ainda estão para ser votadas e, portanto, nós não podemos perder tempo, nós temos que votar essas coisas. Eu espero que os senadores se acertem e que passem a fazer o debate político que precisa ser feito e a votar as coisas que precisam ser votadas, só isso.

 Jornalista: (inaudível)

Presidente: Veja, não há nenhum pedido de conversa com o presidente Sarney. O presidente Sarney e o Presidente da Câmara, na hora em que eles pedirem uma conversa comigo, terão a conversa comigo, porque é de boa política o presidente da República atender os presidentes dos Poderes.

Jornalista: (inaudível)

Presidente: Veja, é uma pergunta, minha filha, que não é um problema meu. Eu não votei para eleger o presidente Sarney [para] presidente do Senado. Nem votei para ele ser senador no Maranhão, nem votei no Temer, nem votei para o Arthur Virgílio, não votei para ninguém. Eu votei nos senadores de São Paulo. Então, quem tem que decidir se o presidente Sarney continua presidente do Senado é o Senado. Somente o Senado, que o elegeu, é que pode dizer se ele vai ficar ou não. Não sou eu.

Apresentador: Terceira pergunta, (incompreensível) Rádio Cooperativa.

Jornalista: (em espanhol)

Presidente: Olha, perguntar desse jeito que você perguntou, sobre a Copa América, fica difícil. Mas eu vou lhe dizer duas coisas: primeiro, o meu ministro da Saúde, em nenhum momento, proibiu qualquer brasileiro de ir ao Chile. O que o meu ministro da Saúde comunicou, em programa de rede nacional de rádio e televisão, foi que as pessoas que tivessem baixa imunidade tomassem cuidado para não viajar à Argentina e ao Chile, porque são pessoas que têm mais de 60 anos e pessoas [de] até dois anos de idade que teriam facilidade de pegar a gripe A. Mas foi essa a única orientação que ele deu. Até dois anos e acima de 60 anos, ou pessoas que tivessem baixa imunidade. Uma pessoa que está fragilizada, ele recomendou não viajar. Então, é isso.

Com relação à Copa América. Veja, eu recebi um pedido da companheira Michelle Bachelet de que o Chile gostaria de realizar a Copa América em 2015. Vocês sabem que o Brasil realiza a Copa do Mundo em 2014, em 2013 o Brasil faz a Copa das Confederações, e eu estou sabendo agora, eu nem sabia, Michelle é quem me alertou, que o Brasil quer realizar a Copa América em 2015. E nós estamos reivindicando as Olimpíadas para 2016, ou seja, seria a década do esporte no Brasil. Eu acho, eu acho que o que o Chile está propondo é viável. Eu me comprometi com ela a conversar com os homens do futebol no Brasil para que possa fazer uma troca. O Chile tem 2019 para fazer a Copa América e o Brasil tem 2015. Como o Brasil já vai fazer dois eventos importantes seguidos, que o Brasil trocasse com o Chile, e a gente fizesse depois da Copa do Mundo de 2018, a Copa América, e o Chile fizesse a Copa América agora… E eu me comprometi com a Michelle Bachelet de fazer esforço junto aos homens do esporte no Brasil, do Ministro do Esporte ao Ricardo Teixeira, aos homens do esporte de outros países da América do Sul, para que seja uma distribuição justa das atividades esportivas na América do Sul. E eu acho que o Chile tem direito.

Apresentador: A quarta e última pergunta. Ricardo Lessa, da Globo News.

Jornalista: Presidente Lula, primeiro o senhor. Boa tarde, tudo bom? Boa tarde Presidente.

Jornalista: Primeiro, Presidente, a gente queria saber se o PT, a bancada do PT no Senado, vem se inclinando – a gente não sabe os números exatamente – pelo afastamento do presidente Sarney. Então, a gente queria saber se o senhor vai comprar briga com a bancada do PT e com o seu próprio partido, que parece (incompreensível) estar se posicionando pelo afastamento.

A segunda pergunta seria para os dois presidentes, seria a respeito da instalação do forte americano na Colômbia. Qual é a posição dos senhores, e se os senhores consideram importante a intervenção da Unasul no conflito que está se desenhando aí, entre Colômbia e Venezuela?

Presidente: Deixa, deixa eu hablar, Michelle. Eu acho… Você sabe que, de vez em quando, eu fico pensando, quando o meu pessoal… tem 20 jornalistas e diz que vão fazer só duas, como é que vocês devem discutir que duas perguntas que vocês vão fazer. E, por coincidência, as duas são iguais. Como é que você acha que eu posso dizer sobre o destino da bancada do PT se eles estão de férias e vão voltar na segunda-feira? Não posso, não posso dizer, não posso dizer absolutamente nada. Você faz o seguinte: quando chegar segunda-feira, você liga para o líder do PT na Câmara ou liga para a líder do PT no Congresso e eles saberão te dizer, com categoria, o que eles já fizeram. Depois, você sabe que faz três anos que eu não participo de reunião do diretório do Partido. Portanto, eu não acompanho o dia-a-dia do Partido. Você, na segunda-feira, pode ligar para o Ricardo Berzoini que, certamente, ele gostará de te dar as informações de como o Partido está vendo as divergências dentro do PT. É só isso que eu posso falar.

Com relação à base americana. Eu penso que… pedi, inclusive, para a companheira Michelle Bachelet e, que quem sabe fosse o momento de a gente pedir para os nossos ministros convocarem, ou quem sabe a própria Michelle, os ministros… o Conselho de Defesa que nós criamos. Já que nós vamos nos reunir no dia 10 em Quito, na Unasul, poderíamos convocar o Conselho de Defesa para que nós fizéssemos uma reunião em Quito sobre o problema da segurança das nossas fronteiras e, sobretudo, sobre o problema da Colômbia ter a base americana.

A primeira, Michelle e eu concordamos, que a soberania de um país é intocável e nós não entramos em discussão sobre a soberania de nenhum país. Agora, também, em algum momento nós vamos ter que conversar com o presidente Obama, porque nós já mandamos uma carta, ainda quando era o presidente Bush, sobre a questão da Quarta Frota. Mandamos uma carta dizendo que nós não víamos com bons olhos a ideia da Quarta Frota, porque me parece que a linha territorial dela é quase em cima no nosso pré-sal. Essas coisas nós temos que ver com muito cuidado para não gerar conflito nem com o Uribe, nem com os Estados Unidos, nem com os vizinhos.

Nós vamos estar todo mundo junto no dia 10. Então, nós vamos poder ter muita franqueza de conversar entre nós e encontrar uma solução. Eu posso dizer que a mim não me agrada mais uma base americana na Colômbia. A mim não me agrada mas, como eu não gostaria que o Uribe desse palpite nas coisas que eu faço no Brasil, eu prefiro não dar palpite nas coisas do Uribe. E vamos conversar pessoalmente porque nós temos liberdade e confiança para ter um diálogo livre, aberto, no dia 10, em Quito.

Apresentador: Encerrada a entrevista coletiva. Muito obrigado a todos pela presença.

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