Câmara Setorial é canal para diálogo objetivo, diz deputado Zé Neto em entrevista

Zé Neto tem sido o coração do Governo Wagner. Luta pelas minorias e melhorias da máquina pública. Entrevista reveladora .
Zé Neto tem sido o coração do Governo Wagner. Luta pelas minorias e melhorias da máquina pública. Entrevista reveladora .

O deputado estadual Zé Neto, do Partido dos Trabalhadores, está no segundo mandato. Ele defende um estado de cooperação que debata com o povo suas dificuldades e possibilidades. No pingue-pongue abaixo, Zé Neto fala desse modelo de gestão e considera o varejo baiano como um caminho para a reestruturação da força comercial baiana. Reflete sobre a complexidade do meio ambiente levando em conta que a questão envolve não apenas a natureza, mas todo o contexto que engloba o ser humano e as relações com o local por onde transita. Confira.

Super Revista – O Senhor vem acompanhando as discussões para a formação da Câmara Setorial do Leite da Bahia e a recente implantação. Na sua opinião, quais as melhorias que podem e devem ser implantadas para ampliação da cadeia leiteira do estado e a distribuição da produção? Como a Câmara poderá atuar na sua avaliação?

Zé Neto – Do meu ponto de vista, o estado moderno que agora se apresenta mais fortemente, principalmente após a queda do muro capitalista dos Estados Unidos, cumulado a queda do muro de Berlim, nos dá o exemplo claro de que o Estado não é nem mínimo nem máximo, ele deve ser um estado de cooperação que compartilha com a sociedade suas dificuldades e possibilidades, e isso é possível dentro de um diálogo franco. É na Câmara Setorial que vamos conseguir estabelecer esse diálogo objetivo, que busque a eficiência da iniciativa privada e a responsabilidade social da iniciativa pública. Acho que é possível combinar as coisas e, nesse momento, principalmente no governo Wagner, há uma perspectiva de se criar não só a Câmara do Leite, mas também a Câmara do Cacau, que já foi implantada. Vamos caminhar fortemente para criar um segmento importante, que é a Câmara que vai discutir a situação dos revendedores atacadistas de alimentos.

SR – Há uma boa relação entre o senhor e os varejistas de autosserviço – através da Abase – então, com base nesse conhecimento do setor, para o senhor, quais as vantagens para o varejista baiano com a formação da Câmara Setorial do Leite?

ZN – Nesse momento vejo o varejo baiano e também a Abase, como uma referência fundamental para a reestruturação da nossa força comercial no quadro e no cenário brasileiro. A partir daí, entendo que o processo de modernização na relação da cadeia é fundamental para que tenhamos esse mecanismo representativo de entidade, de corporação, como alavancador de um diálogo que tenho convicção de que trará inúmeros benefícios. E esse não é apenas um diálogo que trata de questões meramente fiscais, ou de situações pontuais de um ou de outro comerciante, mas se fala num processo estrutural onde você engloba desde a infraestrutura, até as questões fiscais mais complexas, numa discussão com quem, de fato, pode ser o “braço” que ajude a resolver essas demandas. Nesse caso o governo estadual, inicialmente, mas também em outros momentos, os governos federais e municipais que podem nesse fórum, discutir as demandas que interessam a esse setor do Estado.

SR – O senhor tem demonstrado interesse por questões ambientais, tendo presidido a Comissão de Proteção ao Meio Ambiente (CPMA) da Assembléia Legislativa da Bahia durante dois anos consecutivos e atualmente ainda se envolve com assuntos dessa natureza. Hoje nós vemos as áreas verdes da capital baiana e Região Metropolitana sendo substituídas por construções residenciais e comerciais sucessivamente. Como o senhor avalia essa realidade?

ZN – Nesse instante da humanidade, o paradigma do meio ambiente tem que ser avaliado de forma muito mais profunda e rápida. Nós não estamos mais falando em centenas e milhares de anos para que as coisas possam acontecer negativamente em nossas vidas, nós agora estamos falando em décadas, horas, minutos. Não adianta achar que o desenvolvimento comercial ou residencial físico do concreto é mais importante do que o desenvolvimento do verde, da vida, do ar puro, das condições ambientais não só relacionadas à natureza, mas também às questões urbanas, porque quando se fala em “meio ambiente” é bom lembrar que não estamos falando apenas da árvore, das flores, da plantinha… Estamos falando de uma questão muito maior que é a do modelo de desenvolvimento. O modelo de desenvolvimento das cidades hoje tem que ter um urbanismo que conceba espaços públicos para lazer, saúde, educação, além de condições reais para que tenhamos um ar mais adequado, fluxos para que não tenhamos sobrecargas, engarrafamentos e situações que acabem gerando dificuldades, desde o barulho até as questões ambientais respiratórias mais graves. Então, nesse instante, nós temos que refletir meio ambiente não como um ornamento, como antes era feito na política, mas sim como um processo de infraestrutura muitíssimo importante.

SR – Falando-se em meio ambiente, nos últimos dias o Nordeste, incluindo a Bahia, vem sofrendo com as chuvas fortes que têm causado muitos transtornos para cidades como Salvador, Simões Filho e Lauro de Freitas, que tiveram estado de emergência decretado pelo governador Jaques Wagner. Para ao menos minimizar situações como essas é necessário uma boa infraestrutura urbana, o que falta em especial na Capital Baiana. Como o senhor avalia essa situação e as medidas adotadas pelos governos estaduais e municipais?

ZN – Salvador sofre com um crescimento desordenado em todas as suas regiões e também é vítima de uma falta de políticas adequadas que podem desenvolver o interior, fato que forçou uma migração muito grande nas últimas duas décadas. Hoje, o que nós temos em Salvador, é a segunda maior densidade demográfica do mundo e não é por outro motivo se não a falta de políticas desenvolvimentistas no interior do estado e por falta de políticas urbanas adequadas. Isso agora é uma emergência que tem ceifado vidas, e a nossa maior preocupação hoje quando as chuvas caem da forma como estão caindo nesses últimos dias em Salvador, é com as vidas que estão sendo ceifadas, com as pessoas que estão morrendo, as crianças que vivem uma maior dificuldade no que diz respeito às condições de saúde e outras condições mínimas. É preciso combinar uma ação dentro do município de Salvador que busque revitalizar o debate sobre infraestrutura. É preciso fazer com que novas situações de risco sejam criadas, mas, fundamentalmente, é preciso que tenhamos políticas que possam vetorizar o desenvolvimento econômico para o interior do Estado. A partir daí, poderemos estancar a migração para Salvador e fazer com que as pessoas passem a entender que a moradia no interior também oferece condições para uma vida digna.

SR – E de que forma o senhor pretende contribuir para que a atuação do governo estadual garanta a redução dos altos índices de violência, analfabetismo, do déficit habitacional e de desemprego, bem como para a melhoria da saúde pública em todo o estado?

ZN – São situações que estão muito integradas. Não se pode falar em violência sem falar em educação, saúde pública, e em condições dignas para que as pessoas possam morar e ter, evidentemente, como tocar a vida sem viver na lama e na exclusão. Essa, em minha opinião, é a situação que mais violenta o ser humano e que gera um amplo espaço de vulnerabilidade para as pessoas caírem no campo da violência. É esse o aspecto que temos trabalhado no Estado da Bahia e em nosso mandato, a busca de forma integrada pelo trabalho através das cadeias produtivas na tentativa de resgatá-las e recuperá-las, além de buscar a formação técnica que de imediato pode dar um suporte para que o nosso segmento seja alavancado. Trabalhar na educação de base mesmo sabendo que há um processo mais lento de resposta, mas que precisa ser trabalhado porque a cada dia vai ficando mais congestionado e complicado e, evidentemente, traçar com os diversos setores do estado um diálogo mais franco. Por isso que nós estamos trabalhando com a concepção de criar esses fóruns de debate permanentes, para que as coisas e as questões relacionadas à situação social que passa o estado, sejam debatidas no âmbito desses fóruns. Obviamente que se você conseguir convencer cada comerciante, cada industrial, cada um que tem poder econômico nesse estado de que o papel da construção dele não é apenas de um governo, e sim do conjunto daqueles que vivem no estado, acho que dá para compartilhar uma saída que seja mais rápida, eficiente e, acima de tudo, muito mais autêntica, que dê condição de aproveitarmos o recurso público de forma adequada, ao contrário de como acontecia antes.

SR – Em relação ao varejo de autosserviço e o setor atacadista distribuidor da Bahia, como o senhor, na condição de legislador, poderia contribuir a fim de que haja expansão das redes locais e, assim, aumento na oferta de postos trabalhistas?

ZN – Acho que a contribuição maior que podemos dar nesse momento ao setor, é fazer com que ele tenha um fórum de debate permanente e uma câmara construtiva para, a partir daí, traçar caminhos muito mais harmônicos. Tenho visto, como acompanhei agora em Santo Antônio de Jesus, um debate muito importante sobre a economia regional. Nós aqui não queremos fechar a Bahia para ninguém, mas é preciso lembrar que não podemos deixá-la vulnerável para que políticas realizadas em outros estados deem crédito à exportação e barre a nossa importação. Temos que tentar equilibrar o jogo e no conjunto das relações do desenvolvimento econômico-regional, é preciso que a gente faça com que cada medida que seja tomada no âmbito legislativo, normativo, ou de portarias e de situações que desrespeitam a essas mudanças, sejam discutidas com quem vive o dia-a-dia, para que cada mudança reflita sob as necessidades reais do Estado. Se pede um pouco aqui, se ganha um pouco ali, e se busca equilíbrio para que as coisas possam ser fruto de um reflexo muito mais autêntico daquele vivido por cada comerciante e representante do poder público como também por cada consumidor e cidadão comum.

SR – Qual a avaliação do seu relacionamento com o setor supermercadista e em especial com a Abase?

ZN – Na verdade, tenho amigos pessoais que tem um trajeto de vida muito voltado para o trabalho e que ao reencontrá-los nessa nova fase de minha vida, como representante do interesse público, sendo deputado e tendo um mandato, pude aprender mais sobre o setor e também me colocar mais a disposição, para ser mais um soldado na construção de um diálogo fraterno, de um campo de força mais resistente para a nossa economia e que possa viabilizar com o Estado e com os municípios, um nível de relacionamento que possa realmente refletir esse novo momento do Brasil que, aliás, o mundo tem reconhecido que o diálogo e a participação conjunta da sociedade e dos governos têm cada dia levado resultados que demonstram que a nossa eficiência, modernização, e possibilidade do lucro, não pode se distanciar da nossa responsabilidade social com quem na ponta espera um melhor serviço.

SR – Hoje a Bahia vive um governo petista, que propõe uma forma de governo bilateral. No seu entendimento, quais as mudanças que podem ser de fato observadas?

ZN – A Bahia já mudou. Nós hoje temos um site de transparência onde todas as contas do Estado se encontram à disposição de todo cidadão. Estou no meu segundo mandato, mas me recordo, muito claramente, que durante o primeiro mandato não tinha acesso a número nenhum com relação às contas estaduais. Hoje cada cidadão tem condição de questionar onde as coisas estão certas e erradas, além de saber aquilo que está sendo feito com o seu dinheiro. Acho que esse é um ponto muito positivo para mostrar claramente qual o pilar dessa construção. Esse pilar é de relações institucionais e são maiores e mais importantes do que as relações políticas partidárias. Nós do PT conhecemos de perto o que é ser oposição, fomos oposição por muitos anos e a nossa maioria veio da ditadura, onde o apagão intelectual, cultural e democrático nesse país, nos trouxe feridas muito profundas e cicatrizes que não sei se irão desaparecer. Nós é que sabemos exatamente a importância de fazer com que essas questões sejam colocadas como um aprendizado para que no diálogo que estamos propondo, tanto em nível nacional com o presidente Lula, como estadual com o governador Wagner, a gente construa, como já estamos construindo, uma Bahia onde as licitações acontecem não para os amigos, mas para o interesse público.

*Entrevista deputado estadual José Cerqueira Neto (Zé Neto, PT) à Super Revista, veiculada na  edição de maio de 2009.

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