Escritor baiano resgata vida e militância do dirigente comunista Contreiras | Por Oldack Miranda

Oldack Miranda fez parte da resistência democrática e foi preso e torturado por prepostos da ditadura militar.
Oldack Miranda fez parte da resistência democrática e foi preso e torturado por prepostos da ditadura militar.

O jornalista e escritor baiano Elieser César lançou (22/05/2009), no Centro de Cultura da Câmara de Vereadores de Salvador, o livro-reportagem intitulado “Contreiras camarada engenheiro – Uma história de luta e coerência”, editado pela Caros Amigos.É suave a leitura. Li e reli as 119 páginas sem dificuldade, no dia seguinte. Elieser César escreve bem. É autor de várias obras: “O azar do goleiro” (Contexto), “O escolhido das sombras” (Contos, BDA), “Os cadernos de Fernando Infante” (poesia, Fundação Cultural), “O romance dos excluídos –Terra e política em Euclides Neto” (Editus) e ainda “A garota do oudoor” (Fundação Cultural). O poeta integra a coletânea “A poesia baiana do século XX”, organizada por Assis Brasil.

O engenheiro Luiz Fernando Contreiras de Almeida, nascido em 1923, em Mundo Novo, interior da Bahia, foi testemunha e protagonista ativo de muitas lutas pelas transformações sociais. Como militante e dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) viveu sempre, como diz Elieser César, sob o fio da navalha. Aos 3 anos de idade viu a Coluna Prestes invadir a pequena Rio de Contas, na Chapada Diamantina, onde seu pai, Abílio, era o chefe da estação de telégrafo. Cresceu, portanto, com o imaginário da coluna de barbudos. Já em Salvador, católico militante, “abriu dissidência com Deus” e ingressou no Partido Comunista.

Em 1937 não era assim tão simples chegar à capital. Foram cinco dias de viagem. Dois dias e meio, a cavalo, de Rio de Contas a Contendas do Sincorá. Depois, mais um dia no trem da Central do Brasil até São Félix, dali, atravessou de canoa o rio Paraguassu até Cachoeira e então seguiu de vapor para Salvador. Foi então, aos 14 anos, que conheceu a luz elétrica e experimentou um sorvete. Estudou, tornou-se engenheiro, comunista e casou-se com Amabília, professora que depois de ser aposentada compulsoriamente pelo golpe militar de 1964, fundou a Escola Experimental, enfrentou a luta pela anistia, foi eleita vereadora e depois deputada estadual.

Em sua longa caminhada, Luiz Contreiras enfrentou três vezes os cárceres. A primeira prisão aconteceu por organizar em 28 de fevereiro de 1948, aos 25 anos de idade, um histórico comício na Praça da Sé, em comemoração do centenário do Manifesto Comunista de Marx e Engels e pela legalização do PCB, cassado pelo governo Dutra. A segunda prisão ocorreu durante a campanha “O petróleo é nosso”, em fevereiro de 1953. Aos 30 anos de idade, passou 15 dias trancafiado na Casa de Detenção, antigo Forte de Santo Antônio.

Mas, a mais violenta prisão aconteceu durante a ditadura militar de 1964. Torturado com eletrochoques pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chegou a sofrer uma tentativa de assassinato por parte do delegado Sérgio Fleury, num sítio chamado pelos militares de “fazendinha”. Elieser César faz duas referências sobre o episódio. Afirma que o dossiê “Filhos deste Solo”, de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio é o mais completo livro sobre a “Operação Radar”, em 4 de julho de 1975, que matou militantes e dirigentes do PCB e levou dezenas à prisão e à tortura. E também cita “Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento”, de Emiliano José, que descreve cenas de terror nos porões da ditadura.

Além de testemunha e protagonista da história, Contreiras é um sobrevivente. Aos 85 anos, aposentado, tem memória prodigiosa. Lembra de suas viagens à URSS, Cuba e Europa. Abandonou a idéia da ditadura, do socialismo real, passou a defender o socialismo democrático, se libertou do dogmatismo e das verdades absolutas, mas não se engana com o capitalismo, incapaz de resolver os problemas da fome e da miséria.

Descendo as escadas do Centro de Cultura da Câmara dos Vereadores de Salvador, esbarrei com o ex-comunista Roberto Freire, do PPS, que já estava de saída. Lembrei-me então do texto do hoje deputado federal Emiliano José (PT-BA) publicado no livro de Elieser César: “O PCB foi um partido essencial, que vinculou o socialismo com a democracia (…) que afirmou a democracia como valor universal (…) já o PPS não teve e não tem muita importância (…) é um arremedo do PCB (…) e tem se aproximado até da direita mais extremada”.

Eu diria que o PCB viveu a tragédia brasileira, o PPS vive a farsa.

*Por Oldack de Miranda é jornalista, escritor (foi co-autor do livro biográfico Lamarca, Capitão da Guerrilha), é Assessor de Comunicação e Ouvidor Especializado do DESENBAHIA – Agência de Fomento do Estado da Bahia S.A.

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