Celso Furtado, mau-desenvolvimento | Por Kássia Caldeira

Capa do livro'A Grande Esperança em Celso Furtado: ensaios em homenagem aos seus 80 Anos'. Obra reúne ensaios de Ignacy Sachs, Hélio Jaguaribe, Aldo Ferrer, Wilson Suzigan, Ricardo Bielschowsky, Joseph Love, Leda Paulani, Octavio Rodrigues, Clóvis Cavalcanti, Francisco de Oliveira, Luiz Carlos Bresser-Pereira, entre outros.Capa do livro'A Grande Esperança em Celso Furtado: ensaios em homenagem aos seus 80 Anos'.


Celso Furtado é inesquecível. Tive o privilégio de conhecê-lo. Em 2001, em Paris, quando fazia meu doutorado, jantamos na casa do jornalista Napoleão Sabóia. Dias depois, Rosa e ele me receberam em seu apartamento, onde passamos uma manhã conversando sobre temas como crise econômica, endividamento e saída para o Brasil. Foi a primeira vez que ouvi a seguinte conjunção de palavras: “mau-desenvolvimento”.

Jamais esqueci o brilho de seus olhos recitando as possibilidades existentes no Brasil de transformação do crescimento econômico em desenvolvimento. Também nunca esqueci sua preocupação com a nova economia e o mercado. Entendia perfeitamente minha angústia de estudante e me ajudou a construir raciocínios. Sabia do meu interesse pela Socioeconomia e por ações planejadas de políticas públicas para transformá-las em desenvolvimento. Suas ideias, desde as assimetrias entre “centro” e “periferia”, que sempre apontou, persistem com nova roupagem. O que chamou de “mau-desenvolvimento” também persevera.

Em 2004, a Revista de Economia Política publicou o artigo Os desafios da nova geração, em que Celso Furtado escreveu que “… há quase meio século… não houve correspondência entre crescimento econômico e desenvolvimento (no Brasil)” e mais adiante completou: “… o País seria um caso conspícuo de mau-desenvolvimento.” E alertou para a responsabilidade de uns e de outros de zelar para que os erros do passado não sejam repetidos. Nas suas palavras, “para que não voltem a ser adotadas falsas políticas… cujos benefícios se concentram nas mãos de poucos.”

Celso Furtado faleceu em novembro de 2004. Não está aqui para ver a crise financeira atual e as políticas fiscal e monetária do governo brasileiro diante de um fato concreto. Não hesitaria em comentar, pois elas são indícios de que o crescimento econômico na era Lula está fadado a um “mau-desenvolvimento”. Isso faz sentido.

Independentemente da influência da teoria keynesiana, Celso Furtado tinha razão e vemos atualmente o quanto o planejamento e a intervenção do Estado são imprescindíveis, uma vez que as forças do mercado não são capazes de assegurar, simultaneamente, crescimento econômico e desenvolvimento. A intervenção do Estado passa por suas políticas fiscal e monetária. Não temos nenhuma das duas. Resultado: “mau-desenvolvimento” e o Brasil vai parar de novo.

Em especial por falta de um conjunto de medidas destinadas a agir sobre as condições de financiamento da economia, ou seja, uma política monetária. Mas reduzir ou zerar impostos de produtos também não é política fiscal. Como não temos as duas, no primeiro trimestre de 2009 o governo federal arrecadou R$ 11,33 bilhões a menos por falta de uma política monetária que possa fazer face à crise financeira internacional e por adotar uma política fiscal inadequada.

Os municípios vão receber socorro, mas vão continuar de pires na mão. Alguns governos estaduais estão na corda bamba. A arrecadação fechou o primeiro trimestre em R$ 159,8 bilhões, com uma queda real (acima da inflação) de 6,6%, segundo dados divulgados pela Receita Federal. Enquanto a arrecadação cai, o governo federal vem aumentando seus gastos. No primeiro bimestre de 2009 o gasto com pessoal aumentou 25,3% e o gasto com o custeio da máquina, 22,7%.

Como a economia passou a integrar nossas vidas e transformou nosso dia a dia, qualquer trabalhador sabe que dever é ficar no vermelho ou ter uma dívida. Os bancos chamam a dívida de quem gastou mais do que tem de “saldo devedor”. É “saldo” porque agora você deve para ele, o banco. Qual o problema em ter uma dívida no banco (ou cartão de crédito) ou ficar no vermelho no banco? A taxa de juros. E quem deve não tem como escolher muito, pega a primeira oferta que aparece. Quando o trabalhador paga esses juros, o valor é o lucro e vai para o caixa do banco, que usa esse dinheiro para fazer mais do mesmo. O dinheiro não é aplicado em crescimento econômico e, portanto, não gera desenvolvimento.

Para Celso Furtado, “… forçar um país que não atendeu às necessidades mínimas de grande parte da população… para que se cumpram metas de ajustamento… impostas por beneficiários de altas taxas de juros é algo que escapa a qualquer racionalidade”. Frear a inflação e reduzir o crescimento econômico para baixar taxa de juros pode até vingar um tempo, e não é uma política monetária. Mas é certamente o “mau-desenvolvimento”.

*Kássia Caldeira ([email protected]), jornalista, é doutora em Socioeconomia do Desenvolvimento pela EHESS de Paris.

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