Cachoeiranos vão reviver o 13 de Maio de 1888

Juarez Duarte Bomfim.
Juarez Duarte Bomfim.

Revisitar o histórico 13 de Maio de 1888. É o que pretende fazer a população de Cachoeira, na próxima quarta-feira, dia 13 de Maio de 2009, quando completará 121 anos do fim da escravatura no Brasil. Para rememorar aquele dia, quando Cachoeira parou para festejar a notícia da assinatura da Lei Áurea, os cachoeiranos preparam o encontro da filarmônica Sociedade Orpheica Lyra Ceciliana, fundada em 13 de maio de 1870 pelo maestro abolicionista Manoel Tranquilino Bastos, com a Sociedade Lítero Musical Minerva Cachoeirana, na Praça Teixeira de Freitas, às 20h30min.

O encontro será no mesmo local, onde há 121 anos, em frente à sede do Montepio dos Artistas Cachoeiranos, se uniram os músicos da filarmônica Lyra Ceciliana, da Orphesina Cachoeirana e da Euterpe Ceciliana para celebrar o fim da escravidão. Cerca de oito mil pessoas, de acordo com os registros de jornais da época, teriam seguido as filarmônicas, entoando hinos de exaltação à liberdade, realizando assim a grande passeata histórica pelo fim da escravidão.

Todos os seguimentos da população de Cachoeira e da vizinha cidade de São Félix estão sendo mobilizados para o encontro das filarmônicas e, em seguida, a passeata da próxima quarta-feira. A intenção é refazer o trajeto do 13 de Maio pelas ruas de Cachoeira e seguir  até o Alto do Rosarinho, espaço urbano de relevante simbolismo para os afrodescendentes cachoeiranos. É no Rosarinho que está erguida a Igreja e o Cemitério dos Nagôs.

Naquela época, de acordo com historiadores, o Recôncavo também concentrava a maior população da província e a maior quantidade de escravos. A Bahia possuía 165 mil escravos (12,8% da população geral) em 1872, e mesmo quando este número caiu para menos da metade (76 mil) em 1887, ainda representava a quarta população cativa no Império.

A pretensão dos organizadores da mobilização é reproduzir o cenário da festa de 1888 com a participação da filarmônica e de um grande número de pessoas. A cidade de Cachoeira e a vizinha São Félix de acordo com historiadores, abrigaram importante e atuante movimento abolicionista. Desta forma as pessoas empenhadas no resgate daqueles 13 de Maio de 1888, pretendem contribuir para retirar o do esquecimento “as lutas e as esperanças e de liberdade e cidadania no Brasil.”

RESGATE HISTÓRICO – Além da mobilização popular que está sendo articulada pela prefeitura municipal de Cachoeira, por meio da Secretaria de Cultura e Turismo e da Assessoria de Comunicação, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, além de filarmônicas outras entidades cachoeiranas, o 13 de Maio é tema de uma programação acadêmica especial promovida pela UFRB por intermédio da PROPAE – Pró Reitoria de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis e da Superintendência de Cultura e Desenvolvimento. “O evento que tem como tema central O 13 de Maio e as Lutas pela Cidadania no Brasil, tem como objetivo provocar reflexões sobre os significados do 13 de Maio e as conseqüências  da abolição da escravidão no Brasil”, como assinala  o prof. Dr. Walter Fraga, professor adjunto de História, superintendente de Projetos de Cultura e Desenvolvimento da UFRB, estudioso das trajetórias de ex-escravos após a abolição da escravidão e autor do livro Encruzilhadas da Liberdade.

O historiador lembra que o 13 de Maio foi bastante festejado na Bahia e em vários pontos do Império. O final da escravidão resultou de uma luta que envolveu escravos, livres, libertos, diversas camadas da população. Para Walter Fraga, o fim da escravidão foi uma vitória. “Havia o sentimento de que o Brasil pudesse dar um salto em termos de transformações sociais, a sensação de que se vivia o momento fundador de uma nova era”, diz Fraga para explicar a razão das comemorações pelo fim da escravidão.

Sobre o evento que está sendo programado pela UFRB e a manifestação popular para resgatar a importância histórica do 13 de maio, o historiador destaca a importância das iniciativas lembrando que durante algum tempo, a data foi estigmatizada e até esquecida. “A grande imprensa até hoje dá pouca importância a esta data”, critica Walter Fraga. “No entanto este dia marca os 121 da abolição do cativeiro no Brasil, uma conquista notável do povo brasileiro”, acrescentou.

Na avaliação do estudioso, o esquecimento desta data acabou silenciando a participação de negros escravizados, libertos e diversos setores da sociedade que se engajaram na luta contra a escravidão e pela cidadania. “Foi uma luta longa e difícil, mas que fez emergir novos projetos de liberdade e cidadania”, ele frisa. Ainda segundo o pensamento de Walter Fraga depois do movimento pela Independência a luta pela abolição “foi o grande movimento  social que o Brasil testemunhou no século XIX”.

Sobre Juarez Duarte Bomfim 745 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: juarezbomfim@uol.com.br.