Crônica ‘Vida de goleiro’

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.
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(a partir de um desafio de David Coimbra)

Lucrécio sempre sonhara ser goleiro. Garoto pobre, almejava poder um dia tornar-se futebolista profissional e ajudar a família. Sem largar de vez os estudos, perseguia com determinação esse objetivo. O nome atrapalhava um pouco. Ele detestava ser chamado pelo nome. Depois de ter agüentado um amigo de língua presa que o chamava de Ruclécio, resolveu que seria Écio e ponto finaL. Écio não começou, a exemplo de outros goleiros, como meia sem talento ou lateral bisonho. Desde moleque, nenhuma outra posição teve qualquer significado. Para a turma da rua, toda vez que formavam dois times, logo depois do centroavante, o garoto loirinho era o próximo escolhido. ‘O Fernando para vocês, Écio para nós’ e assim por diante. Arrojado, dotado de elasticidade e de um incrível sentido de colocação, chamou a atenção de um olheiro do principal clube da sua cidade. Chamou também a atenção de torcedoras suspirosas, para as quais o sorriso dele valia mais que suas ‘pontes aéreas’. Baluarte quase intransponível, inspirava total segurança ao time. Todos repetiam o velho bordão: ’Um bom time começa com um bom goleiro.’ Infelizmente, faltavam qualidades aos demais dez integrantes, de sorte que as possibilidades de acesso a uma divisão superior eram diminutas.

Aí, um ou outro torcedor mais idoso resmungava: ‘O que seria de nós sem o nosso Gilmar?”.

‘O nosso Gilmar’ continuava operando seus milagres costumeiros, evitando goleadas acachapantes, no entanto, nem sempre era possível garantir um dos zeros no placar. Sim, porque o outro, infelizmente, o resto do time mantinha quase sempre. Vez por outra, um golzinho acidental e, mais raramente, um par de gols reacendiam as esperanças. Todas as preces se voltavam para o mágico guarda-meta, sobrando uma ou outra reza para que o cronômetro corresse mais depressa. Quando esse conjunto de apelos a forças superiores era bem sucedido, comemorava-se um magro triunfo ou um empate dramático. Écio, festejado até nas derrotas, quase sempre saía de campo de cabeça erguida. Fazia-o por ter a sensação do dever cumprido e também, isso ele não contava para ninguém, para encontrar, lá na arquibancada, o olhar de Renata, filha de um dos diretores do clube. Torcedora fanática do time, ela não perdia nenhum jogo e, junto com um grupo de amigos, agitava a diminuta, porém fiel torcida. Nota destoante das demais torcedoras, Renata não sucumbira ao charme do arqueiro. O coração tem suas razões nem sempre influenciadas pelas virtudes futebolísticas. Ela amava o time. Dizia-se, à boca pequena, que tinha um caso com o desastrado ponteiro direito, dono de um chute torto e de uma situação financeira direita. Logo, a paixão não correspondida começou a interferir no desempenho do assim chamado ‘último reduto’. Olhar em direção à arquibancada nem sempre é uma boa idéia, fato comprovado por algumas bolas defensáveis que passaram a estufar as redes do ‘timinho’.

Goleiro apaixonado é um goleiro problemático. De nada adiantaram os papos com o treinador, preocupado com falhas inexplicáveis. A conversa nunca ia além de um: ’ O que está acontecendo com você. Vamos, não quer se abrir comigo?’, seguido de um evasivo: ‘Sei lá. Faço tudo direito e dá tudo errado. É a fase’. Pobre treinador. Agora tinha exatos onze problemas em campo. O jeito, depois de um desagradável três frangos a zero, ainda no primeiro tempo, foi colocar a estrela do time do banco.

O goleiro suplente teve um desempenho surpreendente para sua qualidade de reserva. Foi o suficiente para que Écio se tornasse de um dia para o outro ‘dono de banco’. Uma ou outra tentativa de aproximação com Renata não teve outro resultado, além de um início de briga no vestiário com o Garrincha do time.
Depois de algumas partidas, houve uma tentativa de revezamento, cujo resultado não foi dos melhores. Na saída, até as suspirosas juntaram-se ao coro ‘Frangueiro, frangueiro!’. Foi num desses dias, ao sair do vestiário, que um sujeito magrinho abordou Écio:

– Olá garoto, não é para desanimar. Eu posso ajudar você.

– Por favor, deixe-me em paz.

– E se eu lhe disser que sei qual é seu problema e que posso auxiliá-lo?

– Sabe nada. Quer fazer o favor de me deixar em paz?

– Garoto, é por causa de uma menina. Aquela loura. Quer que lhe diga mais? Eu posso fazer muitas coisas. Está vendo essa boneca? Mostrou uma pequena boneca de pano. Se eu espetar três agulhas nela, ela irá esquecer do outro e, se fincar mais uma, ela se apaixonará por você. Se nada fizer, fica tudo do jeito que está. E mais uma coisa. Terá de trocar o nome. Esse não vai adiantar. Troque por Récio. Essa letra a mais fará toda a diferença.

– Eu não acredito nessas coisas. – Écio persignou-se.

– Tudo bem. Só para você saber. Essa boneca ficará em casa. Para que tudo dê certo, será preciso que antes de eu fazer esse serviço, as quatro agulhas furem seu dedo mindinho. Venha me visitar. Meu nome é Lauro.

– Tudo bem.– Écio ia continuar falando, mas, o interlocutor sumira.

No caminho de casa, o recém-promovido a ‘frangueiro’, não parou de pensar na conversa. Durante o jantar, manteve-se quieto. Todos interpretaram o silêncio como sendo resultado do fracasso daquela tarde, e ninguém o perturbou. De noite não conseguiu pegar no sono. O raiar do sol coincidiu com a tomada de decisão. Procuraria o estranho. Iria lá de noite e uma vez lá decidiria.

Bruxo não deixa cartão de visita nem telefone para recados. Mesmo assim, Lucrécio descobriu-lhe o esconderijo. Era a terceira casa a contar da farmácia do seu Dino. Rua sem iluminação e sem calçamento, escura como os propósitos do ser misterioso. Nenhuma luz dentro da casa tampouco. Sabia claramente que jamais voltaria lá. Não havia ninguém lá dentro. Decidiu-se: roubaria a boneca e azar! Sem hesitar empurrou a porta, que, obediente, cedeu. Estava no meio de uma sala. Negrume total e um cheiro de incenso.

O que teria a ver o incenso com o vodu, se é que era vodu? Acostumou-se com as trevas e divisou uma espécie de estante. Nela inúmeras bonecas. Qual seria a ‘dele’, nefanda causadora de desgraças ou possível redentora? Não resistiu e acendeu a lanterna. Reconheceu-a imediatamente. Era a única envergando a camiseta do time que o deixara na humilhante reserva. Apanhou-a, apagou a lanterna e saiu, encharcado de suor. Nem pensou em chamar o tal bruxo. Como explicaria sua presença? Ao encostar a porta, o ranger o assustou. Parecia uma risada esganiçada. Uma vez na rua saiu em desabalada correria. Já em casa, pegou três alfinetes e seguiu a dica. Primeiro espetou seu dedo, a seguir a boneca que foi parar no fundo do armário. Não se esqueceu do quarto e fundamental alfinete, tampouco.

Não era o certo. Faltava o ‘trabalho ‘ do tal Lauro. Maldita idéia de sair correndo. Roubar aquela boneca já era insensatez. Brincar com os alfinetes, rematada idiotice, pensou. Depois criou coragem e tratou de esquecer a ‘irregularidade’. No dia seguinte, seguiu a dica e falou meio sem jeito para o treinador que gostaria que, doravante, o chamasse de Récio. Por quê? Ora, porque sonhara com isso. Algum problema? Não, se quisesse poderia ser até Pafúncio, que bobagem, gargalhou o treinador.

De tanto vê-lo insistir, deu de ombros. Pois não é que Récio fechou o gol? Agarrou como nunca. Para deixar o treino empatado inventaram um pênalti. Récio pegou. O treinador mandou repetir a cobrança e a bola estourou na trave, aí ele agarrou mais dois. O treino não terminou empatado. Era a consagração, a volta por cima. O regresso do purgatório da reserva.

Chegou o dia do jogo com o líder. O placar se mantinha em branco, com Lucrécio operando os milagres de outrora. Era dia de São Récio. De vez em quando olhava para a platéia emudecida. Faltando menos de dois minutos um tiro de meta preciso encontrou o meia livre de marcação. GOL! O lanterna estava proporcionando a zebra do ano.

Bastava segurar o resultado por intermináveis dois minutos. O time inteiro recuou. O ponta de lança deles invadiu a área. Com uma vistosa domingada o lateral tirou-lhe a bola limpamente e recuou para o intransponível Récio.

O tempo parecia ter parado. Era só rebater com o pé uma bola que vinha lenta, submissa, desfalecida.

À medida que se aproximava, o medo apoderou-se do goleiro. Olhava em direção à bola e só enxergava a insensível Renata. Por um instante pareceu-lhe que ela o estava fitando. Sem tirar os olhos dela, chutou. Seu pé passou por cima da bola. Essa prosseguiu indiferente até descansar no fundo do gol.
A tabuleta erguida informou: três minutos. Mais três minutos de agonia.

Já refeito, Récio defendeu um tirombaço à queima-roupa, garantindo ao menos o empate. Ao repor em jogo, vislumbrou o ponta livre. Era o seu rival, mas, naquele momento, pouco importava. Uma oportunidade para deixá-lo cara a cara. E daí que a gloria ia ser do outro. A consagração seria do time.
A bola saiu célere, chocou-se com a cabeça do centroavante deles, voltou e… estava consumada a virada.

A vaia o fez lembrar jogada idêntica do Manga, em 1965, contra a URSS em pleno Maracanã. Com a cabeça encostada na trave chorou todas as lágrimas do mundo. Será que ainda poderia ser titular da Seleção? Lá na arquibancada, encontrou o sorriso de Renata.

O clube lhe perdoou. Por enquanto é auxiliar de roupeiro de dia. De noite estuda Administração. Morre de medo de alfinetes e casou com Renata. Com a vinda do novo treinador pode ser que…

Crônica do livro ´´Sessão da Tarde“, Ed. Edicon.

Alexandru Solomon, empresário, escritor, é autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar` e ´Um Triângulo de Bermudas`. (Ed. Totalidade). Confira nas livrarias Cultura, Saraiva, Laselva e Siciliano.

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