Salvador, 460 anos

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

É comum dizer-se que o Brasil nasce como empresa e nele o Estado surgiu antes que a sociedade – e a cidade chegou antes que o campo.

O certo é que quando Tomé de Souza, primeiro governador geral do Brasil, aqui desembarcou em 1549 para fundar a cidade de Salvador, capital do Governo Geral do Brasil, não trouxe de Portugal somente o objetivo de criar uma cidade, mas também seu plano e estatuto.

Ordenou o rei mandar nas “ditas terras fazer uma fortaleza e povoação grande e forte”. Por ser el-rei informado que “a Bahia de Todos os Santos é o lugar mais conveniente da costa do Brasil para se poder fazer a dita povoação e assento”, assim como pela disposição do porto e rios que nela entram como pela “bondade, abastança e saúde da terra” que na “dita Bahia se faça a dita povoação e assento”.

O “Governador das terras do Brasil e Capitão da fortaleza e terras” já trazia também em suas naus uma completa organização judiciária, fazendária, administrativa e militar.

Era um numeroso grupo de altos e pequenos funcionários, nomeados pelo rei de Portugal, que comporiam a administração: ouvidor-geral, provedor-mor da Fazenda, capitão-mor da costa, escrivão e tesoureiro das rendas, contador, escrivão da ouvidoria, feitores da armada e da cidade, médico, porteiro da alfândega e cerca de trezentos soldados e mais uns seiscentos operários, especialmente de construção, entre os quais uma porção de degradados. A cidade surgia como nenhuma outra em seu tempo, com considerável população de 1.000 pessoas.

Depois do fracasso quase geral da experiência de colonização através do sistema de Capitanias Hereditárias, o rei de Portugal decidiu juntá-las e formar um governo único, com sede em uma cidade que deveria situar-se no meio do extenso litoral, para facilitar o controle do mesmo. O sítio escolhido deveria ter também determinadas características topográficas que lhe deixassem bem protegido de possíveis ataques dos índios, por terra, ou por mar, de navegantes estrangeiros.

Portugal busca a solução tipo Acrópole para a sua capital colonial, seguindo a norma antiga de localização das cidades nas margens do mar e dos rios, em pontos elevados com um porto. Daí que rapidamente se elegeu o lugar mais adequado para o povoado grande e forte: o cume de uma colina, que caía em forte declive até a extremidade das margens de uma baía abrigada, sobre um dos lados que separam a baía de Todos os Santos e o Oceano Atlântico.

A colina serviu a Tomé de Souza para construir, em 12 meses, sua cidadela de casas de adobe, cobertas de palha, que ele cercou de muralhas também de adobe, e que tinha apenas duas portas: Carmo e Santa Luzia. No exterior das muralhas foram construídos os conventos, aproveitando-se das vastas concessões que o governo lhes havia feito. Ao norte se localizou o convento das Carmelitas (1585); ao sul, dos Beneditinos (1584); ao leste, dos Franciscanos (1587). Por essa época, com seus muros espessos, eram verdadeiras fortificações que rodeavam a cidade, porque ao oeste está a escarpa e a baía.

O sítio escolhido, no nordeste do Brasil, é estrategicamente eqüidistante do norte e do sul do litoral, o que permite acessar rapidamente a qualquer ponto da costa. Constitui-se excelente porto natural, parada obrigatória das embarcações que chegam da Metrópole (Portugal) em direção a outros pontos do Brasil ou de passagem a outras colônias portuguesas da África e da Ásia.

Salvador foi capital do país de 1549 até 1763. A descoberta de ouro em Minas Gerais (1698) mudou o centro de atividade econômica do Brasil para o Centro-Sul, e o incremento da mineração fez com que o Rio de Janeiro despontasse como um porto importante, atraindo atividades comerciais e financeiras para aquela urbe. Salvador perde então a condição de capital da colônia portuguesa na América, que é transferida para o Rio de Janeiro, elevado à condição de novo centro administrativo do Brasil.

A transferência da capital do Governo do Brasil para o Rio de Janeiro obviamente provocou impactos sobre a cidade. Porém, nessa época, Salvador já se consolidara como uma grande praça comercial, exportadora de açúcar, algodão e tabaco, e importadora de produtos manufaturados; tinha se convertido num distribuidor de mercadorias pelo interior da província e numa grande área de influência, chegando a pontos afastados como Piauí, Pernambuco, Sergipe, Minas Gerais e São Paulo, no Brasil, e também Uruguai e Argentina. Com uma atividade econômica tão estruturada, a agora capital da Bahia não sente tanto a perda da função administrativa nacional.

Neste 29 de março de 2009 Salvador completa 460 anos como a terceira maior cidade brasileira e uma das cem cidades mais importantes do mundo. Para nós soteropolitanos será sempre a primeira.

 

Sobre Juarez Duarte Bomfim 740 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]