Meu Cinquentenário: Parte 1 | Por Juarez Duarte Bomfim

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

1. Introdução

No 23 de março, quando o carro do sol transitar pela casa de Áries, completo o meu Cinqüentenário. Convencionou-se que datas “redondas” são assaz significativas, e devem ser comemoradas com maior entusiasmo que as outras, mais corriqueiras. Embrenho-me deste espírito e faço aqui um breve retrospecto da vida que, confesso, vivi. Hoje, reproduzo trechos do meu “memorial” para progressão na carreira acadêmica, apresentado à Banca específica, na UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana.

2. Porque as Ciências Sociais

Garoto tímido da enseada itapagipana (Salvador-Bahia), meio avesso aos “esportes radicais” dos meninos nas ruas do bairro proletário – talvez devido a alta miopia – desde cedo me afundei na abundante oferta de jornais, revistas e raros livros que se apresentavam no balcão do armazém de secos e molhados do meu pai e dentro de casa.

Ainda adolescente, fazendo tratamento dentário no SESC-Nazaré, descobri a ante-sala do paraíso, localizada no quarto andar do velho prédio: a biblioteca da instituição… e só a alguns poucos metros, um outro anexo do paraíso terrenal: a biblioteca infantil Monteiro Lobato, situada entre frondosas árvores da Praça Almeida Couto, ou Largo de Nazaré.

Imerso nos livros e “vivendo” em outra realidade – imaginária – não tão vulgar como a minha desinteressante vida monótona de menino quieto… devorava toda palavra impressa que se deparava sob os meus olhos, gerando a desconfiança paterna por tal mania. Pensei em empregar a palavra “vício”, mas soaria imprecisa… Não encontrei aqui no limitadíssimo dicionário de sinônimos do Word a palavra excesso como sinônimo para vício, apesar do senso comum assim às vezes compreender.

Tornei-me entusiasta da literatura regionalista brasileira e isso fatalmente me inclinava às letras, melhor dizendo, a um curso superior de letras. Coisa que não tinha claro durante o desenvolvimento do curso médio em instituição pública federal. Porém, estimulado por entusiasta professor de matemática – meu terror, a matemática, não o professor – quando lhe devolvi uma prova de unidade sem grafar um numeral sequer, substituída por socrática e prosaica poesia – de qualidade duvidosa – onde versejava a máxima do “sei que nada sei”… Ganhei um colorido zero sobre a folha em branco e ao mesmo tempo um admirador, esse matemático professor, um dos pouquíssimos leitores das poesias que enamoradamente eu escrevia para as sensuais colegas de escola, única forma de platônica paquera que a minha já declarada timidez permitia.

Obrigatoriamente – entre Graciliano, José Lins do Rego, Guimarães Rosa… – a literatura do Amado baiano Jorge me seria apresentada, e entre Vadinho e Pedro Arcanjo a saga dos militantes comunistas da trilogia Subterrâneos da Liberdade, que me despertou relativa consciência e crítica social nos anos de chumbo da Ditadura Militar brasileira, início dos 1970.

Quando no terceiro ano do Ensino Médio fui apresentado ao movimento político estudantil emergente e a diminutas organizações clandestinas de esquerda (tão diminutas e numericamente insignificantes que chego hoje a duvidar das suas reais existências) surgia em minha vida a alternativa de fazer curso superior de Ciências Sociais.

Abdiquei de promissor estágio na maior empresa estatal brasileira com emprego quase garantido, o que me valeria hoje aposentadoria precoce e conforto material, subsidiado por pródigo fundo de pensão; não me sensibilizei aos apelos maternos de cursar Direito num Estado onde faltava Estado de Direito; dei adeus às letras e me inscrevi no vestibular para Ciências Sociais da UFBA.

Nos manuais de Sociologia encontramos, entre diversas acepções, a definição de Sociologia como a “ciência dos problemas sociais”. E assim eu a compreendia, tese fortalecida pelas palestras organizadas pelo coordenador do Curso, o prof. Lustosa, e proferidas por colegas veteranas, como as amigas e atuais sociólogas Rita Brito e Júlia Salomão.

Eu tinha uma inclinação latente pelas ciências sociais de modo geral. Me encantava as reportagens das coloridas revistas do início dos 1970 (Manchete, Cruzeiro, Realidade…) sobre as descobertas de novas tribos indígenas na floresta rasgada e sangrada por máquinas para a construção da rodovia Transamazônica – o que me inclinava para a Antropologia; acompanhava a asfixia a que autoritário governante baiano submetia o valoroso e independente Jornal da Bahia, e a quixotesca campanha que o seu redator-chefe liderava: “não deixe essa chama se apagar” – o que me inclinava para a política…

Na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia encontrei um ambiente estimulante para o pensar sociológico, especialmente a corrente estruturalista na Sociologia e na Política. Aliás, vivi dois momentos distintos em “São Lázaro” – expressão pessoalizada e carinhosa que os iniciados usam para a querida instituição FFCH-UFBA – como microcosmo do Brasil da época. Um primeiro momento de forte censura às idéias, que afetava o acesso pleno à literatura acadêmica; e depois, a partir do ano de 1979, a relativa abertura política e boom editorial que a acompanhou.

Nunca fui o paradigma do bom estudante. Creio que nunca estudei… o que na verdade sempre fiz foi ler livros. Entre a literatura de Althusser, Miliband, Poulantzas e Harnecker fui me formando em Ciências Sociais, carente de Durkheim e Weber.

Numa prova de avaliação da disciplina Política II, ministrada pelo prof. Albérico Mota, convocado a dissertar sobre os AIEs – cabalística sigla para o que autor designava supostos Aparelhos Ideológicos do Estado – obtive a nota máxima pelos critérios do exigente professor (uma sopa de letras à época: MS!) tendo por companhia apenas o colega Chico Mineiro, que ao saber do resultado me telefonou para felicitação recíproca, orgulhoso.
Isso me deixou apto a concorrer a concurso de monitoria no Departamento de Ciência Política, no qual obtive êxito, e durante ano e meio prestei quiçá relevantes serviços a esse Departamento, zelosamente coordenado pelo prof. Joviniano Neto. Não sabia então que esse estágio na Ciência Política me marcaria futuramente.

Como atividade complementar à vida de estudante de Ciências Sociais estagiei em importantes instituições sociais: como a Comissão Pastoral da Terra – CPT Regional Nordeste III; SUTRAB-SETRABES; IPAC-Ba. Tive meu primeiro emprego formal, com “carteira assinada”: na Federação dos Trabalhadores na Agricultura – FETAG-Ba.

A atuação na CPT e na FETAG estreitou meus laços com os grupos de pressão, movimentos sociais e a atividade política. Também despertou em mim a vocação para a atividade educacional, pois exerci nessas duas organizações a função de educador popular e educador sindical.
Uma vez formado, em janeiro de 1985, tive dois importantes empregos informais. O primeiro, de sociólogo da Comissão Pastoral da Terra da Diocese de Bonfim-Ba; o segundo, de coordenador de pesquisa do PERSH-PMS (Programa Especial de Revitalização dos Sítios Históricos de Salvador – Prefeitura Municipal de Salvador). Claro que essas experiências terão repercussão acadêmica futura.

3. A atividade docente como vocação

Encerrada a administração municipal do prefeito Mário Kertesz em Salvador, houve desmonte dos seus programas, entre eles o PERSH, do qual fui “exonerado”, o “entre aspas” aí é porque como nunca houve “posse” também não houve exoneração, pois era tudo informal à época, anterior à Constituição de 1988 e o Estado brasileiro vivia sob capricho do senhor de plantão.

Comecei a dar aulas no ensino fundamental privado… experiência curta, pois pedi rápida demissão, e aqui registro a minha admiração e respeito por aqueles que se dedicam a trabalhar em educação infantil. Quão árdua e desafiadora é esta tarefa!

Prestei concurso público para a classe de professor auxiliar de Ciência Política no DCHF-UEFS, do qual obtive sucesso, e fui nomeado no dia 06 de março de 1989. No semestre 1989.1 lecionei as disciplinas Ciência Política, Estudos de Problemas Brasileiros (execrada e extinta das grades curriculares) e Sociologia das Organizações.

Desde então já se vão 20 anos de exercício do magistério superior; 31 anos de trabalho com educação comunitária e universitária, contando com a experiência iniciada no ano de 1978 com atividades de educação popular nas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) no Vale do Rio Salitre, Diocese de Juazeiro, Bahia.

Tomei gosto pela coisa e… como dizem que o “uso do cachimbo deixa a boca torta”… incorporo a condição de professor full time, professor todo o tempo, o tempo inteiro. Vivo para ensinar. Obviamente ensinar o que sei e aprendi. Isso se manifesta em certa postura corporal, gestual, forma de falar, colocar a voz etc.

Havendo a possibilidade de me capacitar como docente através de pós-graduação (mestrado) com apoio institucional, no início do ano de 1991 me submeti a seleção de mestrado da ANPAD (Associação Nacional de Pós-Graduação em Administração) no NPGA da EAUFBA – Núcleo de Pós-Graduação em Administração da Escola de Administração da Universidade federal da Bahia. Pleito concorridíssimo, obtive êxito com a classificação entre os 15 primeiros, e em março de 1991 comecei o Curso de Mestrado em Administração com apoio da UEFS através do PICD (Programa de Incentivo a Capacitação Docente) com financiamento da CAPES.

4. O mestrado em Administração

Por que mestrado em Administração? Foram vários os fatores. Uma vocação pessoal para a interdisciplinaridade e multidisciplinaridade. Coisas que em alguns momentos são valorizadas na academia brasileira, em outras são desprestigiadas… depende dos humores e vontades do burocrata de plantão que esteja em posição de mando nos órgãos de financiamento de pesquisa; um outro fator é que a época eram pouquíssimas as ofertas de pós-graduação em Ciência Política no Brasil, creio que ainda são poucas; o gosto que peguei em ensinar Ciência Política e Sociologia das Organizações para turmas de graduação em Administração.

Pesou muito também o fato de que o Mestrado de Administração da UFBA era (e é) muito prestigiado, conceito máximo pela CAPES e isso atraia o interesse de acadêmicos e candidatos por esse curso.

No momento em que surgiu a necessidade de eleger o tema de dissertação, onde a cultura acadêmica nos diz que se manifesta uma espécie de “crise” no educando, em mim essa dúvida foi dissolvida numa conversa de “mesa de bar” (eu freqüentava ainda as mesas de bares), quando um amigo filosoficamente exclamou:

– Escreva sobre o que você conhece!

E que conhecia eu? Na verdade ele queria dizer que a minha experiência de trabalho com as políticas públicas de recuperação e revitalização do Centro Histórico de Salvador (o Pelourinho), primeiro no IPAC-Ba e depois na PMS, me capacitava para investigar com rigor acadêmico tal objeto de pesquisa, dentro do campo da administração pública – e assim o fiz. Em agosto de 1994 concluí o mestrado ao dissertar sobre o Pelourinho.
Foi em 1992 que comecei a escrever e publicar os meus primeiros artigos acadêmicos, em jornais e revistas. As tentativas anteriores chocavam-se com deficiências metodológicas – minhas, obviamente, e não do curso de graduação pois é o estudante interessado que tem que “correr atrás” – satisfeitas parcialmente com o curso de Mestrado.

Depois de providencial afastamento de sala de aula para cursar o mestrado, retornei à docência e na mesma continuei quase ininterruptamente (problemas de saúde e gozo de licença prêmio me fez ausentar-me alguns períodos) até novo afastamento para elaboração de Tese de Doutorado em instituição européia.

5. A Geografia espanhola

Meu primeiro contato com a Geografia espanhola se deu em novembro de 1997, quando em visita a instituições de ensino na Espanha conheci o vasto e complexo campo de conhecimento que esta ciência açambarca naquele país. A minha primeira aproximação se deu através de relações de amizade travada com o Prof. Dr. José Luis Luzón, do Departamento de Geografia Física e Análise Regional da Universidade de Barcelona.
Porém o enlaçamento mesmo para cursar doutorado na Espanha se fez com o conhecimento e amizade do Prof. Dr. Horacio Capel, do Departamento de Geografia Humana da Universidade de Barcelona. Apresentei trabalho no I Colóquio Internacional de Geocrítica, em Barcelona, maio de 1999 e solicitei convite do Dr. Capel para ingresso no Curso de Doutorado daquela prestigiosa e secular instituição. Uma vez aceito, cursei disciplinas e créditos obrigatórios no ano de 2000 e no ano seguinte escrevi o meu “trabajo de investigación” como cumprimento às exigências curriculares.

Os termos já usados aqui neste memorial de interdisciplinaridade e multidisciplinaridade são mais que apropriados para a compreensão da amplitude temática e investigativa da geografia espanhola. Em uma proveitosa tarde de aulas na Universidade de Barcelona o poliglota Prof. Dr. Carles Carreras me explicou em bom português:

– Durante a ditadura franquista, período de perseguição e proibição aos cientistas sociais e às ciências sociais, foi a geografia que abrigou estas Humanidades.

Como saldo parcial de ter cursado aquelas “asignaturas” (disciplinas) escrevi e publiquei artigos que iam desde a antropologia do consumo até a análise dos novos movimentos sociais no Brasil.

Ao término dos dois primeiros anos de doutoramento na Universidade de Barcelona, adquiri o Certificado de Suficiência Investigadora que me valeu um título acadêmico europeu, o DEA (Diploma de Estudos Avançados). A terceira etapa do Programa de Doutorado seria de elaboração da Tese.

6. A Universidade de Salamanca e a Tese de Doutorado

Sem apoio institucional, no período, para elaboração de Tese de Doutorado com afastamento das atividades docentes, voltei ao trabalho de sala de aula na UEFS e suspendi temporariamente a elaboração de tese de doutoramento, a qual só vim a dar prosseguimento quando em agosto de 2004 consegui institucionalmente o afastamento para elaboração de Tese de Doutorado pelo DCHF, aprovado pelas instâncias superiores e oficializado por Portaria governamental.

Dessa forma, retomei a minha aventura européia e o sonho de complementação do objetivo de doutoramento, inexorável a todo professor de carreira. Solicitei transferência (“traslado de expediente”) da Universidade de Barcelona para a Universidade de Salamanca, também na Espanha, devido a ter sido aceito como orientando do Catedrático de Geografia da USAL Prof. Dr. Eugenio García Zarza.

Quanto à eleição do tema, não havia dúvidas. Continuar a trabalhar com a temática do Pelourinho, adaptando o enfoque para a análise geográfica, isto é, a organização do território.

Em 03 de setembro de 2007 apresentei a Tese à Banca Examinadora e obtive a nota máxima concedida pelas instituições de ensino superior espanholas, sobresaliente cum laude.

Desta maneira realizava um sonho cultivado já a décadas e encerrava um ciclo da vida acadêmica e profissional. Relembrando as palavras da querida amiga e mestra Rosali Fernandes:

– A conclusão do Doutorado é uma janela que se fecha e, ao mesmo tempo, uma porta que se abre para novos desafios.

Sábias palavras. Ah… e como esquecer do prestigiado antropólogo Roberto da Mata que, ao também concluir suas obrigações acadêmicas com o doutoramento, afirmou:

– Agora posso escrever o que quero e da maneira que eu desejar.

Tenho essa dica como referência e, aproveitando o espaço generoso que os editores do prestigioso periódico Jornal Grande Bahia me concedem, tenho me dirigido regularmente aos meus dois ou três leitores, aos quais agradeço penhoradamente a paciência pela leitura dessas mal tecladas linhas.

Muito obrigado!

Sobre Juarez Duarte Bomfim 745 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: juarezbomfim@uol.com.br.