A rua como urinol | Por Fernando Conceição

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O meu e o teu dizem respeito à coisa privada. O que é bem-comum diz
respeito à coisa pública: deveria ser de todos. A praça ou as
avenidas, por exemplo. Ocorre que desde a Antiguidade, muitos endentem
a coisa (res) pública como coisa sua, ou ?coisa nossa?. No extremo,
como coisa de ninguém, aberta à rapinagem dos ?espertos?.

Porque não administradas por anjos, nas sociedades há sempre desvios
de conduta e abuso de autoridade. O mau exemplo, vindo de cima, se
dissemina nas mais ordinárias condutas. Donde a necessidade de leis,
cuja aplicação é sempre desigual, sua salvaguarda jurídica e rápida
punição dos infratores. O clientelismo e o apadrinhamento, chancelados
pela burocracia já corrompida em sua impessoalidade, são a regra. Se o
ministro, o deputado e o desembargador são corruptos, por que não eu?
Se a madame desperdiça a água, posso fazer da rua urinol ou batucar
dentro do ônibus.

No dia-a-dia Estados como o Brasil, constitucionalmente definido como
república federativa, têm longo caminho a percorrer até que se
imponha, por força de sua superioridade ética, uma cultura
institucional menos predatória ao bem-comum. Da velocidade com que se
chegue a esse momento, dependerá a sobrevivência de coisas
fundamentais para todos. A exemplo, em Salvador, do usufruto das
praias e da brisa que daí advém, assim como daquilo que sobrou da Mata
Atlântica, hoje sob ataque feroz da especulação imobiliária e grupos
financistas diversos, além de ególatras.

A existência e preservação de grandes ?pulmões? da natureza, os
parques e os jardins naturais, são uma conquista das modernas
sociedades de países europeus. Impressionam Berlim, Zürich, Paris,
Londres, Madri e, maravilha de todas, Barcelona. Pelo zelo, por nós
aferido, que as comunidades desses locais têm por suas áreas verdes,
de uso e benefício públicos. E o que dizer do Central Park, de Nova
York, e de parques idênticos e mais suntuosos em seu verdor em
capitais como México e Caracas?

Outros aspectos da confusão entre o público e privado no Brasil já
foram explorados, tendo em Sérgio Buarque de Holanda ou em Raimundo
Faoro fortes referenciais sociológicos. A recente entrevista do
senador Jarbas Vasconcelos, já tão comentada, é uma pequena mostra de
antigos hábitos da nossa república, tributária de histórias
anteriores. Ele foca a crítica no centro de poder, os partidos
políticos representados em Brasília. Análise similar pode ser
estendida para outras esferas, não somente no centro mas também nas
capilaridades do poder.

Tratar o que é público, da associação de bairro ao sindicato, da
gestão de uma estatal à vida acadêmica, como ?coisa nossa? tem sido um
traço marcante, de cima a baixo, característico de quem tem o poder de
mando, mesmo mínimo, e da caneta. Algo a ser combatido sem trégua até
dentro de cada um, como projeto político.

FC I jornalista, professor da Ufba., é pesquisador-visitante na Freie
Universität Berlin (Alemanha).

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