Um outro carnaval é possível

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)


“Já é carnaval, cidade. Acorda pra ver…” diz os versos de uma canção carnavalesca. De hoje, quinta, (19/02/2009), até o raiar do sol da quarta-feira de cinzas, 25/02, Salvador estará voltada para a sua grande festa popular: o carnaval 2009.

Esta é considerada a maior festa profana do planeta, em número de participantes. Quantos são os foliões brincando nas ruas de Salvador? Quantos se espalham pelos quilômetros e quilômetros de ruas e avenidas que a festa se estende, do Pelourinho até Ondina?

Não é exagero estimá-los em dois milhões, pois é possível que alcance esta cifra. Os órgãos oficiais de turismo avaliam que serão 400 mil os turistas que nos visitarão nesses dias. Mas, como quantificar aquele turista de um, dois ou mais dias que para a capital da folia se deslocam num raio de 200 quilômetros ou mais, entre a Bahia e Sergipe?

O certo é que a paralisação das demais atividades da capital, por longos dias, afeta todo o estado da Bahia, que vive um feriadão compulsório.

Isto dá a Feira de Santana, segunda cidade do estado e área de influência da capital, o privilégio de gozar de dois carnavais ao ano, pois aqui se realiza a famosa Micareta logo após a quaresma.

Há muito o carnaval de Salvador se globalizou, e nesta época do ano as agências de viagens do mundo inteiro oferecem algum pacote turístico para cá.

Quem melhor desfruta deste folguedo de rua são as gerações mais jovens. Com toda a energia e vontade que a juventude transmite. Mas aqui devo anunciar, jovem leitor e jovem leitora, que os meus carnavais eram muito melhores.

Não… não é saudosismo de velho. E nem velho eu sou (ou me considero). É que o modelo adotado para o carnaval de Salvador, já de décadas, é um modelo elitista, segregacionista e discriminatório, que dificulta a participação popular.

É o modelo que privilegia os blocos de corda. Abaixo as cordas! Perdemos a batalha contra as cordas ainda nos 1980, mas a guerra pela participação e democracia não está perdida. Enquanto há carnavais há esperança.

Este mesmo modelo privilegia o bloco de trio. Cada vez mais estridentes e com índice de decibéis prejudicial ao ouvido humano. Quando Moraes Moreira revolucionou o carnaval colocando vocal nos trios até então instrumentais, do belo e hipnotizador frevo baiano, não imaginava que a sua invenção iria servir para a vulgaridade e mau gosto da axé music (salvo raras exceções).

Essa supremacia dos blocos de trio inibiu o desenvolvimento dos afoxés, blocos-afro, blocos de samba, pequenos grupos de foliões nas suas diversas manifestações, tipo blocos de travestidos, “de crentes”, de mascarados, grupos de sambistas etc etc… que não têm mais espaço na avenida.

Não há mais carnaval nos bairros, dificultando a participação de crianças e dos mais velhos.

Esvaziaram a Praça Castro Alves, que é do povo, assim como o céu é do condor e do avião.

Ah e o folião “pipoca” coitado, este é a maior vítima. Vive imprensado entre os violentos cordeiros dos blocos e os tapumes dos camarotes daqueles que se consideram privilegiados. De que, não sei, pois o acesso a tais fortalezas, assim como a saída, os deixam vulneráveis à barbárie que campeia no asfalto.

Todavia, se essas considerações forem apenas idiossincrasias de um ranzinza saudosista, peço desculpas. Aproveitem o carnaval. Ou, como repetiam os jornalistas pouco imaginativos: Evoé Baco!

Ressaltemos o movimento de resistência daqueles que não se rendem ao grande negócio de enriquecimento de alguns poucos espertalhões, que se locupletam, com a conivência do poder público, numa tal de “Central do Carnaval”.

Experiências como a Mudança do Garcia, o Carnaval no Pelô, o microtrio de artistas baianos e outras manifestações autônomas e independentes são bons exemplos de resistência cultural.

Enquanto há carnaval há esperança.

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]