Dom Hélder e a luta contra a ditadura | Por Emiliano José

Emiliano José, jornalista, escritor e doutro em Comunicação e Cultura Contemporâneas e professor da Universidade Federal da Bahia (professor aposentado da UFBA).
Emiliano José, jornalista, escritor e doutro em Comunicação e Cultura Contemporâneas e professor da Universidade Federal da Bahia (professor aposentado da UFBA).

O padre Antônio Henrique Pereira Neto, dedicado auxiliar de dom Hélder Câmara, foi seqüestrado e assassinado no dia 26 de maio de 1969. Coordenador da Pastoral da Arquidiocese de Olinda e Recife, foi encontrado num matagal da Cidade Universitária da capital pernambucana, pendurado de cabeça para baixo, em uma árvore, com marcas evidentes de tortura – espancamento, queimaduras de cigarro, cortes profundos por todo o corpo. E castrado. Ainda levou dois tiros.

Era assim a ditadura. Este talvez tenha sido o momento de maior horror para dom Hélder Câmara. Encarar o terror da ditadura. Era como subir ao calvário. Dom Hélder não teve dúvidas quanto à continuidade da luta. Motivado pelo seu espírito evangélico, por seu profundo compromisso cristão. Se até ali nunca havia vacilado em denunciar os crimes contra os direitos humanos, agora isso se tornaria quase que uma obstinação. Sabia que calar podia significar conivência com tantos outros crimes, que viriam.

A trajetória dele como um renovador da Igreja Católica ganha impulso em 1952, com a fundação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ele próprio um dos fundadores e seu secretário-geral até 1964. Desse momento em diante, sua figura cresce dentro da Igreja Católica, transformando-se rapidamente numa de suas maiores lideranças, especialmente pelo carisma impressionante de que era possuidor.

A parcela progressista da Igreja Católica encontra nele o seu principal intérprete. Ele viveu, no entanto, as contradições de seu tempo. Certamente não foi muito fácil para dom Hélder aceitar que a CNBB apoiasse, como apoiou, o golpe militar de 1964. Ele manifestava, como lembra Frei Betto, uma discreta simpatia pelo governo de Jango Goulart. A CNBB, no entanto, acabou por divulgar uma declaração de apoio ao golpe, com claras conotações direitistas, onde o mínimo que se dizia era que o golpe – naturalmente nunca denominado assim – evitou que se consumasse a implantação de um regime bolchevique no Brasil.

Houve muita discussão para chegar a tal declaração e Helena Salem, autora de A Igreja dos Oprimidos, defende que ela teria sido fruto de uma solução de compromisso entre as duas correntes principais – a liderada por dom Hélder, já então arcebispo de Olinda e Recife; outra, por dom Geraldo Proença Sigaud, bispo de Diamantina. Essa interpretação decorre do fato de que na segunda parte da declaração se fala na “urgência da restauração da ordem social, em bases cristãs e democráticas”, a indicar a influência de dom Hélder, o que decididamente é muito pouco. Inegavelmente, naquele momento, a Igreja Católica se uniu no apoio ao golpe, mesmo que um dom Hélder tivesse uma posição moderadamente contrária.

Dom Hélder foi sentindo, no percurso, o que era a ditadura. Não representou “alívio e esperança” como dizia a declaração, mas perseguição, tortura, morte, desaparecimentos, terror. E não só dom Hélder. Toda a CNBB, sobretudo depois de 1970, converteu-se num esteio de luta contra a ditadura. Ele, dom Hélder, será perseguido de maneira persistente, metódica. A ditadura não só mata um de seus auxiliares, mas tenta de todas as maneiras calar a sua voz, com ordens expressas dadas à imprensa para que nada sobre ele fosse noticiado. E a imprensa obedecia, uma parte constrangida, outra com indisfarçável concordância.

A ditadura empenhou-se também em evitar que dom Hélder fosse agraciado com Prêmio Nobel da Paz. Vários grupos de parlamentares da Holanda, Suécia, França e Irlanda e mais o vencedor do prêmio em 1968, René Cassin, propuseram formalmente a candidatura de dom Hélder em 1970, apoiados por cinco milhões de assinaturas de trabalhadores latino-americanos recolhidas pela Confederação Latino-Americana Sindical Cristã. Ele era apresentado corretamente como “importante protagonista da não-violência” e como um lutador em favor de reformas sociais.

Em 1970, não aconteceu. Nos três anos seguintes, os partidários de dom Hélder insistiriam com sua candidatura. A ditadura – e é bom lembrar que estávamos sob Garrastazu Médici – desenvolveu intenso trabalho em duas frentes para evitar que ele ganhasse o Nobel da Paz. Incentivou uma campanha contra ele em jornais noruegueses e trabalhou a maioria dos membros do Comitê Nobel para que votassem contra a concessão do prêmio a ele. E a campanha terminou vitoriosa. A ditadura, no entanto, nunca conseguiu calar sua voz.

Dom Hélder, como poucos, era um profeta. Sua voz, encarnada num corpo mirrado, era de um poder extraordinário. Não cabe nem pensar no timbre da voz. Ela surge com força telúrica sob qualquer timbre, sob qualquer tom. A ditadura, tinha medo, quase pânico daquela voz. De armas na mão, assustava-se com aquela pequena figura de pastor, batina surrada, vida espartana. Como atacá-lo, como prendê-lo, como calar aquela voz? Certamente os generais de então se perguntavam isso sem nunca ter encontrado as respostas.

Talvez ele encarne à perfeição a junção do religioso e do político. Do político num sentido muito amplo. Ou de como o carisma religioso pode servir de anteparo a uma situação de ditadura. Ele pode alçar sua voz para defender os perseguidos pela ditadura, denunciar as torturas, o desrespeito brutal aos direitos humanos sem que ela pudesse prendê-lo, torturá-lo ou matá-lo, como certamente desejava.

Havia a retaguarda institucional da Igreja Católica, mas havia certamente o seu específico carisma a protegê-lo, uma prodigiosa força espiritual, que se transformava também em força política. Da ditadura, lembramos com nojo. Dele, com imensa admiração e ternura. Eterno dom Hélder.

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