Com mais de 100 anos, Carnaval de Maragogipe será o mais novo patrimônio imaterial da Bahia

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.

O carnaval de Maragogipe, festividade que remonta ao final do século XIX, será considerado oficialmente patrimônio imaterial da Bahia, através de decreto do governador Jaques Wagner, a ser publicado no Diário Oficial do Estado até o próximo dia (15/02/2009). As pesquisas e estudos foram realizados pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), autarquia da Secretaria de Cultura (Secult), que encaminhou dossiê para análise do Conselho Estadual de Cultura (CEC). Através do processo nº008/2008, a Câmara de Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Natural do CEC propôs o registro da festa no Livro Especial de Eventos e Celebrações.

Localizada à 133 km da cidade do Salvador, na região do Recôncavo baiano, a cidade de Maragogipe tem seus festejos carnavalescos ocorrendo no mesmo período do carnaval de Salvador. Desde 2007, equipe de técnicos, formada por historiadores, sociólogos, antropólogos e museólogos da Gerência de Pesquisa Legislação Patrimonial e Patrimônio Intangível (Gepel) do IPAC, realizam coletas de materiais que registram a manifestação ao longo dos anos, notícias de jornais, entre outros dados para fomar o dossiê. No ano passado (2008) o IPAC entregou notificação ao Prefeito de Maragogipe, Silvio Santana Santos, e ao Secretário de Cultura, Luiz Antonio Santos, para oficializar os trabalhos.

VIDEO-DOCUMENTÁRIO

“Em parceria com a TV Educativa da Bahia conseguimos 10 horas de filmagens do carnaval do ano passado (2008) e entrevistas com personalidades locais, em perídodos diversos, cerca de 500 fotos antigas e contemporâneas da manifestação, além de dezenas de documentos, em papel, oriundos do início do século XX até os dias de hoje”, explica o diretor geral do IPAC, Frederico Mendonça. Foram entrevistados, em vídeo, músicos, carnavalescos, políticos, historiadores, pesquisadores e artesãos locais que confeccionam as fantasias e máscaras, além de organizadores do concurso de fantasias. Como produto final foi editado um documentário com 30 minutos de duração.

A manifestação maragogipana é considerada uma das mais tradicionais da Bahia, tendo características do uso de máscaras, instrumentos musicais típicos, caretas e fantasias diversas, como pierrôs, entre outras alegorias. A festa detém influências africanas e européias com a presença secular das caretas e dos pierrôs, que desfilam pelas ruas, que remetem ao carnaval Europeu do século XIX, e os costumes e cantos afro-descendentes, herança de escravos africanos que habitavam a região, além da presença de alegorias acompanhadas com bandas de sopro. Em um palco são apresentadas marchinhas e bandas de sambas durante os três dias do carnaval.

No dossiê do IPAC constam depoimentos de personagens importantes para a festa, a exemplo de dona Rosália Araújo, mais conhecida como Rosa Carapeba. Com 93 anos de idade, Rosa é uma figura referencial no carnaval de Maragogipe, devido à sua alegria contagiante: “Eu me fantasio de tudo que acho pela frente”, relata Rosa. Destacam-se, igualmente, o sentimento de ‘liberdade’ que move os foliões durante os quatro dias de folia, como descreve o trecho extraído do ‘Jornal Arquivo’, de janeiro de 1968: “As vésperas da orgia carnavalesca e toda a cidade se prepara para brincar. Brinca o rico, brinca o pobre, um com cruzeiro e o outro com centavo. Mas a alegria a todos contagia”.

Para a investigação técnica, foi utilizado método de pesquisa qualitativa, compreendendo conjunto de diferentes técnicas interpretativas com o intuito de descrever e decodificar os componentes do objeto estudado, possibilitando o emprego de lógica empírica, definição e dimensão do campo de trabalho, apontando-se possibilidades para melhor abordagem. Os encontros foram realizados em residências, ateliês, Terreiro de Candomblé e estabelecimentos comerciais. Nos dias do carnaval aconteceram encontros com um dos principais grupos de mascarados.

Tombamentos e registros

Qualquer cidadão pode solicitar ao IPAC o tombamento de bens móveis ou imóveis da sua cidade, que são, por exemplo, imagens sacras ou obras artísticas e edificações antigas, respectivamente, assim como, o registro dos bens imateriais ou intangíveis, que são as manifestações culturais. “No caso de Maragogipe, a própria população considera o seu carnaval como o principal patrimônio do município, motivo pelo qual solicitaram o registro à prefeitura que o encaminhou, oficialmente, ao IPAC”, diz Mendonça.

De acordo com o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI), instituído pelo Decreto n°3.551/04.08/2000 fica facultado à comunidade projetos de identificação, reconhecimento, salvaguarda e promoção da dimensão imaterial do patrimônio cultural, em parceria com instituições dos governos federal, estadual e municipal, universidades, organizações não-governamentais, agências de desenvolvimento e organizações privadas ligadas à cultura, à pesquisa e ao financiamento.

Para Mendonça, o patrimônio, em suas expressões edificadas ou imateriais, é o que confere identidade a um povo, sendo uma questão de solidariedade entre gerações e de memória coletiva. “Mas, a preservação se dá através do compromisso de toda uma sociedade, já que em nenhum lugar do mundo a salvaguarda dos patrimônios culturais é tarefa de um único agente”, ressalta o diretor do IPAC. Mendonça explica que além das instâncias federal e estadual, dos cidadãos e da iniciativa privada, um estado como a Bahia – que detém milhares de bens culturais – conta, igualmente, com 417 prefeituras, que devem ter política pública e legislações próprias para os seus patrimônios culturais.

Memorial

“O IPAC propôs, também, a criação de um ‘Memorial do Carnaval de Maragogipe’ para garantir a permanência, a visitação e o conhecimento geral desses registros, assim como, possibilitar a realização de oficinas de máscaras, teatro, dança e fantasias, elementos que compõem essa dinâmica cultural”, diz o gerente da Gepel/Ipac, Mateus Torres. O memorial deverá ser viabilizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), órgão do Ministério da Cultura (MinC).

Patrimônio imaterial é o bem intangível cultural que se transmite entre gerações, embora seja constantemente recriado. É produzido pelas comunidades e grupos sociais em função do ambiente em que se situam, da interação que mantêm com a natureza e da sua própria história. É o patrimônio imaterial que promove o sentimento de identidade e continuidade do grupo social, tornando-se, deste modo, elemento essencial de afirmação da diversidade cultural e do reconhecimento à criatividade humana.

Em Salvador, além do cortejo da Festa do 2 de Julho, que já está em fase final de registro como patrimônio imaterial, o IPAC estudou e propôs o registro da Festa de Santa Bárbara, com decreto já publicado pelo Governador Jaques Wagner no Diário Oficial de 4 de dezembro do ano passado (2008). Ainda neste mês de fevereiro (2009), o IPAC anuncia o início dos estudos sobre os ‘Afoxés’ (Carnaval de Salvador), que deverá ser a próxima manifestação cultural a ser registrada como patrimônio imaterial da Bahia. Outras informações sobre os trabalhos de bens intangíveis do IPAC podem ser disponibilizados na Gepel/IPAC, através dos

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Redação do Jornal Grande Bahia
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