Carnaval do apartheid

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

Metrópoles terceiro-mundistas como Salvador se constituem com três preocupantes características: são desagregadas socialmente, concentradas economicamente e fragmentadas espacialmente.

Devido a herança da estrutura da cidade antiga, dividida em Cidade Alta e Cidade Baixa, em Salvador conserva-se uma aparência de mistura social. Mas vejam bem, apenas aparência, pois a geomorfologia acidentada da cidade obriga as famílias de menor renda habitarem as encostas abruptas, de grande declividade, onde os perigos de deslizamento de terra são constantes, enquanto que as classes ricas se encontram em posições espaciais elevadas e firmes.

O advento dos transportes mecânicos no início do século XX possibilitou a ocupação de áreas mais distantes do Centro. Os diferentes grupos sociais são separados por grandes distâncias e gerou-se uma oposição centro-periferia. As classes médias e altas habitam principalmente as regiões centrais e os novos bairros mais ao sul (Vitória, Graça), que são bem equipados; enquanto os pobres são relegados à periferia, com habitações de autoconstrução. É do final dos anos 1940 a constituição da invasão dos Alagados e suas casas de palafitas.

Com a metropolização de Salvador no final do século XX, ocorre o fenômeno de suburbanização de parte das classes abastadas, que transfere o lugar de moradia para Lauro de Freitas (Vilas do Atlântico, Buscavida etc), enquanto que a segregação social existente entre as elites que permanecem nos bairros mais densamente povoados e os mais pobres, reveste-se de complexidade, no sentido em que, mesmo as classes sociais parecendo mais próximas espacialmente do que em outras grandes cidades, a permanência das elites se dá por conta de representações hierarquizadas e verticais do espaço, em arranha-céus de alto luxo e privatização do espaço público em ruas exclusivas, guarnecidas por milícias privadas.

É durante o famoso carnaval de Salvador que essa segregação espacial adquire aspectos assaz peculiares quando a segregação social e hierarquização espacial se estabelecem, horizontalmente e verticalmente, apenas delimitada pelo limite de parcos metros quadrados.

No carnaval de Salvador os espectadores dos camarotes – construções que acomodam pessoas de maior poder aquisitivo em plataformas cobertas e elevadas – olham do alto os “foliões pipocas” (aqueles que participam individual e gratuitamente do carnaval nas ruas) e os seguidores dos trios elétricos, que pagam para ser membros dos blocos, estando separados do resto do povo por uma longa corda segura por uma fileira de seguranças, contornando todo o bloco.

Salvador deu assim a sua contribuição sociológica à divisão do trabalho criando uma nova (sub)categoria profissional: os “cordeiros” de blocos carnavalescos, cuja semelhança semântica com um outro cordeiro – o Cordeiro de Deus – não é mera coincidência, pois vieram ao mundo também para sofrer, só que na condição de trabalhadores temporariamente semi-escravizados.

A elite branca baiana criou assim a possibilidade na impossibilidade de estar separada do povão apesar de juntos, nem que seja espacialmente separado pela muralha humana que são os corpos suados de servos.

No caso dos freqüentadores de camarotes, a elite consegue estar junta e ao mesmo tempo separada da massa popular utilizando o subterfúgio das barreiras impróprias dos tapumes que invadem e se apropriam do espaço público, os alçando poucos metros acima.

Na sua insensibilidade, as classes dominantes reproduzem a cada carnaval o apartheid social brasileiro. Constrói-se uma sociedade oligárquica, estamentada, inclusive no carnaval!

A esperança de real igualdade civil, cidadania e democracia são adiadas, quem sabe, para os próximos carnavais.

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]